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Gambiarra na Guanabara

Despoluição proposta para a baía seguirá sem universalização de rede de coleta de esgotos

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Poluição na baía da Guanabara, às margens da Praça Mauá, no Rio - Vanessa Ataliba/Zimel Press/Folhapress

Diz muito sobre o descaso civilizatório no Brasil que seu antigo Distrito Federal, depois estado da Guanabara, seja banhado por águas de uma das baías mais belas e poluídas do mundo. A maravilhosa cidade que já foi capital nacional tem nos costados um mar de esgotos.

A promessa de limpar a baía da Guanabara enseja a mesma credibilidade —quase nula— do programa de despoluição do rio Tietê, que banha o mais rico e populoso município do país. Aqui não cabe rivalidade, as duas cidades mostram-se incapazes de dar destinação correta aos próprios dejetos.

Moradores de Vigário Geral, no Rio de Janeiro, são vizinhos da estação de tratamento de esgotos (ETE) Pavuna, mas seus rejeitos não vão para lá. Descem pelas galerias pluviais e terminam na baía, assim como os do complexo da Maré, ao lado da ETE Alegria.

Como resultado, essas estações funcionam com só 18% e 28% da capacidade, respectivamente. Ambas integram o Programa de Despoluição da Baía de Guanabara, de 1994, ao lado de outras duas construídas em três décadas, mas sem completar a ligação dos domicílios à rede de tubulações.

Há perversidade, mais até que incompetência, nesse descalabro. Despendem-se bilhões em obras e dragagens portentosas, ao mesmo tempo em que se negligencia o básico do saneamento para não lançar esgotos in natura no ambiente.

Com a concessão do serviço no Rio de Janeiro, em abril, a meta é beneficiar 90% dos rejeitos até 2033. Prevê-se investimento de R$ 2,7 bilhões, nos próximos cinco anos, para sanear a baía.

Paradoxalmente, a aceleração se dará com o adiamento da disseminação da rede coletora em oito municípios circundantes: Belford Roxo, Duque de Caxias, Itaboraí, Mesquita, Nilópolis, Nova Iguaçu, Rio de Janeiro e São Gonçalo.

Em lugar de tubulações segregadas nas casas, haverá sistema coletor de tempo seco, de implantação mais célere. Os dejetos continuarão fluindo com águas de chuva, para recolhimento antes de alcançarem rios e a baía. O expediente funciona quando não chove muito. Mas seguirá carreando sujidades para a Guanabara sempre que a precipitação se tornar copiosa.

Pretende-se com isso uma despoluição rápida das correntes que deságuam na baía. Uma "solução emergencial", no eufemismo dos técnicos e defensores. Melhor que nada, dirão os conformistas. Mas muitos chamariam de "gambiarra".

editoriais@grupofolha.com.br

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