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Raul Cutait

Respeito à boa ciência faz bem!

Nota do Ministério da Saúde agride esforços mundiais no combate à Covid-19

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Raul Cutait

Professor do Departamento de Cirurgia da Faculdade de Medicina da USP, cirurgião digestivo do Hospital Sírio-Libanês e membro da Academia Nacional de Medicina

A boa ciência foi agredida por nota técnica recentemente publicada pelo Ministério da Saúde. Contra todas as melhores evidências científicas, deu-se à hidroxicloroquina um valor inexistente para sua eficácia no combate à infecção pela Covid-19 —e, mais ainda, colocou-se em xeque a comprovada eficácia das vacinas, o que redundou em contundentes críticas da comunidade científica brasileira.

Não se pode tapar o sol com a peneira: essas afirmações desrespeitam todos os esforços que a comunidade científica tem dedicado em busca de conhecimentos para se combater a devastadora pandemia causada pela Covid-19, numa velocidade sem precedentes na história da medicina, envolvendo instituições de ilibada reputação, com o apoio financeiro e tecnológico dos setores público e privado.

O professor e cirurgião Raul Cutait - Zanone Fraissat - 4.dez.19/Folhapress

Apenas para demonstrar o que significa esse esforço mundial, computam-se no site https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov, no qual só são divulgados artigos de revistas científicas incorporadas após cumprirem exigentes critérios de qualidade, mais de 220 mil publicações sobre a Covid-19 em um curto período de pouco mais de dois anos, tendo a comunidade científica brasileira contribuído com sua parcela ao gerar mais de 2.800 estudos. Para responder perguntas objetivas relacionadas com as mais variadas propostas de tratamento, foram ou estão sendo conduzidos centenas de ensaios clínicos.

Como a ciência é evolutiva, tem sido possível demonstrar que vários medicamentos e substâncias que se supunha eficazes no início da pandemia, tais como cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina, zinco, vitamina D e outros, na verdade não têm nenhum impacto. Por outro lado, o emprego em massa das várias vacinas, implantadas após rigorosos testes com a participação de respeitadíssimas instituições científicas, é de inquestionável impacto positivo no controle da pandemia que ainda estamos vivenciando, uma vez que centenas de estudos provaram que elas dificultam a disseminação da doença. Mais ainda, a população vacinada, quando infectada, comprovadamente apresenta menor mortalidade e manifestações clínicas menos graves do que aquela não imunizada.

É fundamental que se entenda que as condutas em medicina seguem uma metodologia científica bem definida, regida pela denominada medicina baseada em evidências, que permite dar pesos distintos às informações geradas na área médica através de dois critérios complementares, que são o grau de evidência científica e o nível de recomendação para sua aplicação na prática clínica.

Assim, as "novidades" são introduzidas com base em avaliações mais robustas, prevalecendo os estudos feitos através dos chamados ensaios clínicos, onde se compara de maneira randomizada uma nova proposta com algum tipo de tratamento já referendado. Em muitas situações, empregam-se também as chamadas metanálises, onde resultados de séries de estudos, randomizados ou não, são analisados conjuntamente do ponto de vista estatístico. Testar caminhos denominados "off label", muitas vezes baseados em raciocínios até interessantes, faz parte do jogo científico; mas estes, via de regra, não podem definir condutas de ampla atuação populacional.

Nós, médicos, tratamos os pacientes levando em conta nossos conhecimentos, experiências e habilidades, respeitando as características das doenças e dos pacientes, bem como suas preferências individuais, sendo imperativo que todas essas variáveis sigam uma linha mestra, que é a do emprego das melhores informações científicas disponíveis em prol de decisões mais acertadas para cada caso em particular.

O grande ponto de inflexão é que novos conhecimentos são gerados de forma rápida e contínua, o que torna hercúlea a busca pela constante atualização.

Já do ponto de vista de políticas públicas, creio ser dogmático o compromisso com as melhores práticas médicas, definidas pela boa ciência e amplamente divulgadas pelas revistas científicas. Caso contrário, nossa população fica exposta a riscos de vida e de sofrimento, com dispêndio desnecessário dos já limitados recursos econômicos voltados para a saúde.

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