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Fernanda Papa

Nós somos a terra; vocês são pessoas?

Faltam humanidade e compromisso com a vida para proteger os yanomamis

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Fernanda Papa

Jornalista, é mestre em administração pública pela Harvard Kennedy School (EUA) e Eaesp-FGV; trabalha com políticas públicas em direitos humanos

Há quase três anos, escutei o relato de um garimpeiro das antigas. Radicado em Itaituba (PA), aprendeu a tirar riqueza da terra nos anos 1980, em Roraima. Tinha uns 14 anos quando seu pai começou a deixá-lo na floresta, junto com o irmão e um tio mais novo. Lá eles se viravam por três meses, com arroz, feijão e farinha. Precisavam garantir a caça e o ouro. Ele mostrou no braço uma cicatriz de flechada, mas não disse se também disparou alguma coisa. Perguntei sobre a visão que tinha dos primeiros brasileiros, os povos indígenas. Ele disse que à época havia respeito e medo, e parecia se perguntar: "Será que eram pessoas?"

Eu me fiz essa pergunta, em sentido totalmente oposto, quando vi a notícia do possível estupro seguido de morte de uma jovem indígena de 12 anos, na comunidade de Aracaçá, terra indígena Yanomami (​TIY), no norte de Roraima. Ela teria sido arrastada para o barracão dos garimpeiros, onde teria sido violentada e morta. Uma outra criança também está desaparecida —a Polícia Federal segue investigando o caso. Oxalá os autores da atrocidade sejam responsabilizados. Será que resta alguma humanidade? Respeito não restou. Só medo. Vocês são pessoas?

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Aldeia Aracaçá, na terra indígena Yanomami, é encontrada queimada e vazia após as suspeitas de estupro de uma menina de 12 anos - Júnior Hekurari Yanomami no Twitter


É quase incontável a sequência de oxalás para a vida vencer a guerra desproporcional imposta pelo garimpo ilegal às TIY, demarcadas em 1992. É a pior ofensiva em 30 anos, com muito mais tecnologia em extração, comunicação e destruição. A maior terra indígena do país vive o momento mais violento da história, também associado ao narcogarimpo. Nas macrorregiões, as cicatrizes na terra e nos corpos avançam com a malária, a desnutrição infantil e a violência provocada pela introdução de cachaça, drogas e armas.

O mais recente relatório da Comissão Pastoral da Terra mostra que o número de assassinatos de yanomamis aumentou em 1.100% de 2020 a 2021. De 9 para 101. Em abril, o relatório "Yanomami sob Ataque", da Hutukara Associação Yanomami e da Associação Wanasseduume Ye’kwana, já trouxe detalhamento fundamental sobre a escalada do inferno no ex-paraíso amazônico brasileiro. Afirmam: "É central a retomada de uma estratégia de Proteção Territorial consistente".

Tecnologia para mapeamento por satélite dos avanços do garimpo, a Polícia Federal tem. Dados dos órgãos da saúde e ambientais para evidenciar as violações a que estão submetidas a população indígena e toda a biodiversidade, também. Falta o compromisso de quem tem caneta com a vida.

O abril indígena, liderado por várias organizações, foi fundamental para intensificar a denúncia na interrupção de políticas públicas que podem trazer solução a este fim de linha civilizatório, que viola todos os direitos humanos e desconhece qualquer expressão de compaixão. Demarcação pela vida das mulheres e meninas indígenas já! Na sua sabedoria, elas sempre resistirão: "A terra não é nossa, nós somos a terra".

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