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Cláudia R. Plens

O veto presidencial e a negação da memória

Falta de um espaço para lembrar o DOI-Codi impede educação, reflexão e cura

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Cláudia R. Plens

Arqueóloga, é professora do Departamento de História da Unifesp e responsável pela etapa de arqueologia forense no projeto arqueológico no DOI-Codi, em São Paulo

É evidente que o Estado democrático de Direito enfrenta instabilidades constantes. Passados 60 anos do golpe militar, continuamos a lidar com ameaças à liberdade e à justiça. Recentemente, decisões presidenciais buscam restringir o debate sobre esse período, mostrando a fragilidade das nossas conquistas democráticas.

Como arqueóloga responsável pela etapa de arqueologia forense em uma colaboração interinstitucional (Unifesp, Unicamp e UFMG) do projeto arqueológico no DOI-Codi, em São Paulo —como desdobramento do Grupo de Trabalho Doi-Codi-SP—, percebo que o veto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) à criação de um memorial é um grande retrocesso.

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Arqueólogos e historiadores pesquisam e escavam o local onde funcionava o DOI-CODI da rua Tutóia, em São Paulo - Rubens Cavallari - 10.ago.23/Folhapress - Folhapress

Ao abafar a necessidade de justiça e negar o direito de reconhecimento, essa ação não apenas mina os princípios fundamentais dos direitos humanos, mas, sobretudo, desrespeita a essência da democracia.

Os horrores ocorridos no DOI-Codi durante a ditadura militar brasileira ressoam pela materialidade desse aparato da repressão. Nossos estudos arqueológicos revelam evidências dos abusos brutalmente cometidos e resgatam memórias de vítimas e suas famílias, oferecendo uma chance para tratar suas lembranças com dignidade. Contudo, a falta de um espaço dedicado à reflexão sobre o passado impede a cura de muitas famílias ainda marcadas pela ditadura.

Memoriais desempenham um papel crucial em nossa sociedade, pois não são apenas monumentos estáticos, mas espaços dinâmicos de educação, reflexão e cura. Eles nos obrigam a confrontar nosso passado, por mais doloroso que seja, promovendo uma conscientização mais profunda e evitando sua repetição no presente e no futuro.

A ausência de um local como o memorial do DOI-Codi impede a propagação de conhecimento essencial sobre a história da repressão no Brasil durante os anos de chumbo. Ensinar nossas gerações futuras sobre as falhas e atrocidades do passado é fundamental para o desenvolvimento de uma cidadania consciente e participativa.

Acredito firmemente que revisitar essa decisão e considerar o valor educativo e terapêutico de um memorial pode fortalecer nossa democracia. Uma nação que se dispõe a olhar honestamente para seu passado, aceitar seus erros e aprender com eles está muito mais preparada para construir um futuro mais justo e equitativo. E o contrário é verdadeiro: ignorar nossa história é condenar-nos a repeti-la!

O veto do presidente Lula à criação do Memorial Doi-Codi-SP não apenas interrompe um projeto, mas também reprime nossa história. Esse veto nos nega um espaço crucial para educação, luto e cura, onde poderíamos iniciar a promoção da verdade e da reconciliação nacional.

A sociedade civil deve permanecer vigilante diante de tais afrontas, defendendo incansavelmente a liberdade de expressão e o direito à memória coletiva como pilares essenciais para a preservação da justiça e da verdade.

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