Descrição de chapéu Coronavírus Dias Melhores

Leitores doam tempo, sangue e álcool em gel para ajudar durante crise do coronavírus

Tentando tornar dias difíceis mais brandos, 'vírus' da solidariedade se propaga entre os brasileiros

São Paulo

​Em meio a recomendações dos estados, do ministério da Saúde e do pronunciamento do presidente da República –que gerou críticas de diversos setores–, uma mensagem perdura: ficar em casa o máximo de tempo possível é essencial para achatar a curva de propagação do novo coronavírus.

Grupos de risco, como idosos e pessoas com doenças crônicas, devem evitar ao máximo colocar os pés na rua. Mas como fazer com tarefas do dia a dia, como ir ao supermercado e à farmácia? E como manter a saúde mental durante o isolamento, quando o instinto é ficar em grupo, beijar, abraçar e manter contato?

Tentando tornar dias difíceis mais brandos, outro vírus está se propagando entre os brasileiros: o da solidariedade. Recados de vizinhos que se disponibilizam a fazer compras pipocam em elevadores. Artistas organizam transmissões de seus shows nas redes sociais para animar a monotonia dos que estão em quarentena.

Os leitores da Folha também relatam o que têm feito para ajudar o próximo durante a pandemia.

Recado deixado em elevador de prédio em São Judas, na zona sul de São Paulo
Recado deixado em elevador de prédio em São Judas, na zona sul de São Paulo - Mariana Agunzi/Folhapress

Colocaram na porta do meu prédio um desses cartazes dizendo aos idosos que não precisam sair de casa, que podemos ir aos lugares para eles, com um espaço para colocarmos nossos nomes e contatos. Coloquei o meu, e me lembrei das vezes que estava em um ponto de ônibus ou em uma fila e idosos puxaram assunto comigo.

Muitas pessoas dessa faixa etária já se sentem sozinhas normalmente, então nos oferecer para ir ao mercado ou à farmácia no lugar delas nesse período de isolamento pode não ser o suficiente. Elas podem estar precisando ainda mais de escuta e afeto.

Então, me lembrei do Sidewalk Talk, um projeto do qual minha mãe faz parte, onde voluntários, após receberem o devido treinamento, colocam cadeiras de praia em lugares de grande movimentação e disponibilizam-se a escutar as pessoas que topam sentar ali e conversar. Pensei: “será que eles não topariam fazer uma experiência assim usando o vídeo do WhatsApp e focando nos idosos?”.

Sugeri para eles dizendo que, caso topassem, eu podia fazer assessoria de imprensa da iniciativa de forma voluntária. Eles toparam e estão começando hoje. Para participar, a idosa ou idoso deve mandar uma mensagem para o telefone (11) 9-4080-3640 e fazer inscrição no projeto. Voluntários estarão disponíveis em diferentes horários e farão o possível para atender a todos os interessados. (Jéssika Oliveira)

Com o coronavírus, se tornou necessário alimentar os estoques de sangue nos homocentros. Quando atingirmos o ápice da crise, teremos que usar plasma para quem tem deficiência de imunidade.

Para os idosos, caso venham a utilizar o tratamento com hidroxicloroquina, será frequentemente necessária a reposição de sangue. O tratamento causa anemia como efeito colateral.

Eu já fiz minha parte e doei. É importante que pessoas em regiões ainda não atingidas doem logo, antes que o vírus chegue, para evitar contaminações. (Alexandre Lorenzoni)

Tenho uma vizinha de 91 anos que precisa ir à farmácia todos os dias para tomar seu remédio, cuja aplicação é feita pelo farmacêutico. Ela costumava ir à pé para a farmácia, a dois quarteirões do prédio, com sua cuidadora, também idosa.

O ideal seria que ela não saísse de casa, mas o farmacêutico cobra para vir até o apartamento para aplicar o medicamento e a família não tem condições de pagar. Estou em home office com meu filho, afastado da escola, e estamos com a saúde em ordem.

Para ajudar, me ofereci para levar a senhora de carro até a farmácia. Quando saio, meu filho fica em casa. Estamos tomando todos os cuidados de higiene, passo álcool em gel no assento e partes do carro em que a senhora encosta e não nos tocamos.

Enquanto eu puder, seguirei colaborando, mas se retornar a trabalhar fora de casa, pedirei ajuda a outros moradores ou considerarei pagar o farmacêutico para que ela não tenha que sair para a rua. Ninguém é uma ilha! (Patrícia Pelaes)

Como sou funcionária do estado de São Paulo, mesmo sendo da parte administrativa, continuo trabalhando e saindo de casa todos os dias. Tenho feito compras a um amigo de 73 anos que mora sozinho.

Quando faço comidas diferentes, também o brindo como forma afetiva. Ligo diariamente para ele. Trocamos músicas pelo WhatsApp. E tenho conversado pelo aplicativo com outros amigos que vivem só para saber como estão.

Enquanto puder, sempre me preocuparei com o próximo. Um abraço a todos aí. Se cuidem! (Regina Helena do Carmo)

Sei que é pouco, mas mandei minha diarista para casa e adiantei o pagamento de duas semanas, além de dar uma ajuda de custo para as compras. Assim que eu receber meu próximo salário, pretendo manter pagando as diárias no período de isolamento social, para que ela não fique sem rendimentos.

Infelizmente, os outros clientes dela não tiveram a mesma postura, simplesmente a dispensaram sem dar qualquer ajuda de custo para o período de isolamento. Mesmo sabendo que ela é arrimo de família e é quem garante o sustento de quatro netos. (Ana Carneiro)

Eu e minha família estamos distribuindo míni frascos de álcool em gel para pessoas frágeis e esquecidas na rua: catadores, garis, jardineiros, ambulantes... e junto com a entrega, o essencial: informação.

São pessoas que não sabem o que é coronavírus e muito menos como se proteger. (Victor Carvalho)

Sou advogado, professor e líder comunitário. Criamos o Centro Estratégico Estudantil e Profissionalmente de Ferraz de Vasconcelos, em São Paulo. Represento o centro para o enfrentamento do novo coronavírus, e criamos um comitê virtual de crises com o apoio da sociedade civil (educaçao, saúde, imprensa, igreja, clubes, comércio).

Estamos comunicando o público por meio de ferramentas virtuais. Mensalmente, faremos um relatório sobre o funcionamento do comitê. Todo trabalho é voluntário. (Joselito Ferreira Guimarães)

Não posso fazer muita coisa além de seguir rigorosamente o que a Organização Mundial da Saúde determina. O pouco que fiz foi dispensar minha faxineira, mas garantir pagamento a ela através de transferência bancária. (Regina Maria Barreto)

E você, o que está fazendo para ajudar o próximo neste momento que, mesmo isolados, devemos nos unir ainda mais? Mande seu relato para a Folha pelo email enviesuanoticia@grupofolha.com.br.

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