Privilégio e causa de surdez temporária: leitores relatam shows do Van Halen no Brasil

Banda veio apenas uma vez ao país para nove apresentações em 1983

São Paulo

O guitarrista Eddie van Halen, morto nesta terça-feira (6) aos 65 anos, se apresentou no Brasil apenas em uma oportunidade, em 1983. Seu grupo de rock, o Van Halen, fez nove shows pelo país, sendo três deles no ginásio do Ibirapuera, em São Paulo.

Apesar de terem sido marcadas por problemas técnicos, as apresentações em São Paulo escancararam o talento de Eddie, então com 27 anos, e a magnitude do Van Halen, que já era um sucesso na época e, com o tempo, se consolidou como uma das mais importantes bandas de rock da história.

A pedido da Folha, leitores enviaram relatos de como foram os shows do Van Halen no Brasil. Leia abaixo:

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Eu fui ao show do Van Halen com a expectativa de encontrar um "mamute" em pleno palco, pois era assim que meus amigos e amigas se referiam ao som da banda e isso serviu de estímulo para uma noite em que você vai a um show e sabe que sempre irá perder e ganhar algo na balança da vida.

Eles e elas estavam estavam certos: foi um grande show, com acrobacias de David Lee Roth, distorções e solos encantadores de Eddie e uma bateria contagiante. Passadas alguns minutos entendi que o mamute estava se apresentando e a surdez começando.

Sim, é foi um show "DUCA", daqueles que você sai literalmente surdo. Sai surdo e atordoado do show. Fui e voltei a pé para casa, morava no Paraíso e esqueci que muitas vezes para chegar até lá, teria que passar pelo inferno e no caminho dantesco de volta não ouvi alguns chamados de uns milicos de plantão que ficaram incomodados com a minha indiferença que mal eles sabiam que estava relacionada com a minha surdez provisória e pelo êxtase de um grande show e talvez aí eu tenha "perdido" a minha jaqueta de show punk-militar (imitação da jaqueta do exército, só que com botons e levemente rasgada) para eles.

Deixei pelo caminho uma jaqueta e uns tapas leves na cabeça e eles não notaram (não eram dispostos e treinados a notar isso) mas voltei dançando a noite toda em cima de um mamute que eu ganhei com um ótimo e simples show de Rock and Roll made in Holanda e EUA e ganhei, também, a perda de memória por alguns instantes de que havia crise econômica e falta de democracia no Brasil.

Luiz Ricardo Tadeu Calabresi, 55, São Carlos (SP)

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Eu fui ao show do Van Halen em 1983, no ginásio do Ibirapuera, junto com meu primo Ênio, também já falecido. A gente foi louco e voltou alucinado. Cabeludos, tínhamos 18 anos e queríamos curtir.

Compramos os ingressos com certa facilidade, pois lembro de termos feito isso com boa antecedência, e nos preparamos "a caráter" para o dia. Estávamos no jeito, no traje e na mente, se você me entende.
Entramos na pista, e logo nos posicionamos próximo ao palco, mas sem ser ali no gargarejo. Foi uma doideira, colega.

O som estava tão alto, e a gente estava tão perto do palco, que me lembro de termos ficado uns 6 ou 7 dias com os ouvidos doendo e escutando tudo meio abafado, rsrsrsrs... foi a glória!

Os caras tocando muito, os solos eram incríveis, era uma coisa muito bem feita, puro Rock'n'Roll.
Me diverti como poucas vezes em um show de rock, e olhe que já assisti a muitos shows na minha vida. Muita história pra contar.

Lembro de termos comentado que tínhamos acabado de ver um p... show, que nunca mais a gente iria esquecer.

Foi um privilégio, que eu agradeço por ter vivido, foi um episódio muito marcante na minha vida, um orgulho pessoal singelo, mais ainda porque eles nunca mais voltaram ao Brasil.
São essas coisas que fazem a gente amar o rock.

Roberto Tavares, 56, São Paulo (SP)

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Em 1983 assisti o Van Halen no último show em São Paulo, no domingo.

Ficamos horas na fila, aguardando a abertura dos portões do ginásio do Ibirapuera. Quando abriu foi pedido que corrêssemos bem rápido para as entradas e entregássemos o ingresso inteiro aos funcionários do Ibirapuera, para agilizar, sem destacar o ticket.

Tentei argumentar na entrada para ficar com a parte do ingresso que tinha a foto, mas sem chance, uma correria, os caras gritando e nos arrancando o ingresso.

Eu tinha 18 anos, habitante de cidade pequena do interior, vi a bateria no palco, que era da banda que abriria o show, Patrulha do Espaço. Pensei que era do Van Halen e fiquei meio decepcionado, porque achei inferior a dos clipes da banda.

Patrulha do Espaço tocou, entendi a questão da bateria. Aí abriram as cortinas da bateria gigantesca do Van Halen.

Antes do show de abertura, na quadra, que não estava muito cheia no domingo, uns jovens deram um show jogando frisbee, achamos que seriam da equipe do Van Halen.

Assisti da arquibancada. Um amigo que ficou na quadra, em frente ao palco para fotografar, a cada foto batida diversos jovens lhe passavam o número do telefone para trocarem as fotos. Século passado, não tinha celular...

O Ibirapuera não estava lotado como havia sido no sábado, mas o Van Halen tocou como se estivesse se apresentando pra uma platéia cheia como o Morumbi em dia de clássico (antes do Covid...).
Dave Lee Roth era o showman, a cada frase dita em português o público delirava.

Não existia Youtube e video-cassete estava começando. Na TV só passava clipe de Dance the Night Away e Pretty Woman. Então ver Eddie Van Halen ao vivo solando diversas músicas que só ouvíamos em vinil foi algo inesquecível.

Acho que assim como Jimi Hendrix, Eddie conseguiu extrair da guitarra muito além do que ela teria sido projetada para executar.

Tomás de Aquino Souza Junior, 55, Piracaia (SP)

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Fui no primeiro show no ginásio do Ibirapuera. Tinha apenas 14 anos.

Fui com meu irmão e os amigos dele e Vibrei muito ao ver show com muito barulho. E na época quebrava guitarra durante o show e muita fumaças

Fiquei no lado esquerdo do palco, naqueles degraus de cimento. Era uma época boa para jovem, ir sozinho, sem medo.

Alguns anos atrás procurava informações sobre o show e não encontrava nenhuma informação a respeito, inclusive comentava com alguns amigos que tinha ido ao show do Van Halen e a maioria dos amigos com a mesma idade falava que eles nunca tinham vindo ao Brasil, e agora com a morte apareceu as informações que fizeram uma única apresentação por 3 estados.

Carlos Eduardo Zanardo, 52, São Bernardo do Campo (SP)

Imagem mostra página de jornal; na manchete está escrito "Van Halen, voz e poder do som"
Capa da Ilustrada em 24 de janeiro de 1983, que destacou o show do Van Halen em São Paulo - Acervo Folha

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