'Meu pai, porteiro, chorou ao ver o filho em universidade'; veja depoimentos de leitores

Folha pediu a leitores que compartilhassem histórias sobre apoio a estudos após fala de Guedes

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São Paulo

Na semana passada, o ministro da Economia Paulo Guedes criticou o Fies, dizendo que o filho de um porteiro teria sido aprovado com nota zero em faculdade privada por meio do programa.

“Houve excessos no Fies. É verídico. O porteiro do meu prédio um dia me falou 'doutor Paulo, meu filho fez vestibular para uma faculdade privada, e olha a carta que recebi’. A carta dizia ‘parabéns, o senhor foi aprovado com média...’ e tinha um espaço. Era uma carta padronizada. E no espaço a média zero. Então claramente houve excessos”, disse.

A declaração foi dada durante a reunião do Conselho de Saúde Suplementar em que o ministro disse que "o chinês inventou o vírus". Ele não sabia que a transmissão estava sendo gravada.

Em entrevista à Folha, Guedes disse que sua fala foi distorcida e buscou esclarecê-la, argumentando que não poderia ser contrário a iniciativas de parcerias com o setor privado na educação por ser um produto desse tipo de política.

“Eu sou de classe média e baixa e a vida inteira recebi bolsa de estudo baseado em performance e desempenho”, afirmou.

A Folha pediu aos leitores que precisaram de bolsa e/ou de incentivo público para levar adiante seus estudos na faculdade que compartilhassem suas historias. Confira seleção com os melhores depoimentos.

Excelentíssimo Senhor Ministro Paulo Guedes,

Este filho de um porteiro e de uma empregada doméstica, ex-aluno da rede pública de educação, foi beneficiário de uma bolsa integral do “Programa Universidade para Todos” para cursar Direito na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Definitivamente, minha média no Enem não foi zero.

Ainda me lembro claramente daquele dia de fevereiro de 2014, no qual o porteiro chorou de emoção ao saber da aprovação de seu filho para uma bolsa integral em uma das melhores universidades do país.

Hoje, após alguns anos exercendo a advocacia em grandes escritórios, estou devolvendo para a sociedade brasileira tudo aquilo que dela recebi.

Atualmente, como servidor público na área dos Direitos Humanos, estou fazendo muito mais que o Sr. e o vosso governo para combater a fome que assola o Brasil.

Ministro Guedes, por gentileza, tome vergonha na cara e vá para casa. Vosso tempo no Ministério da Economia já passou. Vá proferir absurdos em outras bandas.

Marcos Paulo Campos Ferreira da Costa, 25 anos, advogado e servidor público, São Paulo (SP)

Fiz graduação em economia na Universidade Presbiteriana Mackenzie. Durante a graduação, tive duas bolsas. A bolsa Escola da Família, do governo do estado de São Paulo), por dois anos, e mais dois anos de bolsas do ProUni, do governo federal. Depois de me formar em economia, fiz mestrado na área na Unesp de Araraquara (SP) com Bolsa da Capes, assim como doutorado em economia na UFMG, com período de estágio no exterior na Universidade de Leeds, no Reino Unido. Hoje sou professor de economia na UFPA. Afirmo com toda convicção que sem as bolsas não estaria onde estou. Hoje cumpro a minha missão de ensinar economia no norte do país.

Douglas Alcântara Alencar, 39 anos, professor universitário, Belém (PA)

Filha de uma auxiliar de enfermagem e de classe baixa. Fui a primeira filha a me formar em uma faculdade, graças a uma bolsa integral do ProUni! Não foi esmola, foi muito esforço e hoje retorno isso para a sociedade, sou uma trabalhadora do SUS com muito orgulho!

Rafaella Alves de Oliveira, farmacêutica, São Paulo (SP)

Há cerca de 25 anos meus pais deixaram o interior de Pernambuco em busca de novas oportunidades no estado de São Paulo, onde nasci e cresci. A vida não foi fácil. Analfabetos que eram, tiveram que suar muito para levar o sustento para uma casinha na beira de um córrego. Quando descobriram que eu estava chegando, lutaram ainda mais para ter uma moradia própria e mais digna. Os esforços possibilitaram que eu me dedicasse exclusivamente para meus estudos, oportunidade que não tiveram quando crianças.

Desde criança um sonho parecia distante, de estudar no curso de Direito na ITE-Bauru, uma faculdade tradicional da cidade. Isso era tido como impossível para meus pais, porém continuei meus estudos, prestei o Enem e concluí o ensino médio. Aberto o prazo para inscrição no Prouni, fui consultar as vagas para minha cidade e um presente me foi dado: a ITE tinha entrado na lista das instituições com vagas para o programa. Hoje estou no quarto ano do curso de Direito, iniciando meu TCC. Sou grato aos esforços dos meus pais e defensor do ProUni, que mudou a minha realidade e a de diversas famílias pelo país.

Diego Willian do Nascimento Silva, 22, agente de organização escolar, Bauru (SP)

Fazer faculdade era meu sonho. Quando estava no antigo primário meus pais se separaram e minha mãe ficou muito doente e hospitalizada. Fui morar com minha tia em outra cidade e passei dois anos sem estudar. Só concluí a educação básica depois de casada, mas ficou difícil fazer faculdade. Depois que as crianças cresceram, voltei a estudar e fiz um curso técnico de enfermagem e passei a ter condições, mas era hora da filha mais velha ingressar na faculdade, então adiei novamente meu ingresso (ela fez direito e passou na OAB).

Aos 45 anos, divorciada, fiz Enem e consegui 100% da bolsa Prouni. Fiz questão dessa bolsa do governo, afinal, lá no começo da minha trajetória, fiquei sem estudar por problemas na família, e o governo sequer me garantiu o direito de uma criança de oito anos estar na escola. Sou pedagoga e escolhi essa profissão por amar crianças e gostar de ensinar. Vou sempre dar o meu melhor para os alunos. Só quero escolas públicas, tenho um grande trabalho pela frente: formar cidadãos capazes!

Cida Costa

Nascido em uma pequena cidade do interior do Espírito Santo, sou o terceiro filho de um ex-cortador de cana e uma doméstica. Estudante de escola pública, minha irmã foi a primeira da família a cursar o ensino superior, como bolsista do Prouni.

Logo depois, também vindo de escola pública, fui aprovado para o curso de geografia da UFF (Universidade Federal Fluminense), em Campos dos Goytacazes (RJ). Sem ter condições de morar na cidade, todos os dias viajava por duas horas em um ônibus da prefeitura para chegar à universidade.

Durante o curso, foram as bolsas e auxílios que permitiram a minha permanência na universidade. Em seguida, cursei o mestrado na mesma instituição. Antes mesmo de concluir a faculdade fui aprovado em dois concursos públicos. Lecionando há cinco anos em escolas públicas, em 2020 fui um dos vencedores do Prêmio Educador Nota 10, maior e mais importante prêmio da educação básica brasileira. Sou fruto da educação pública e luto para que meus alunos também tenham suas vidas transformadas pela educação!

Diogo Jordão Silva, Professor, 28 anos, Campos dos Goytacazes (RJ)

Nasci em um dos piores bairros para se nascer em São Paulo, filha de trabalhadores domésticos. Estudei em escola pública, fui premiada em olimpíadas científicas nacionais e entrei em cursos de prestígio (engenharia e medicina) na USP e na UFRJ, mas não pude cursar por falta de dinheiro. Fiquei em São Paulo e entrei no mais antigo e conceituado curso de engenharia privado do país, pelo Prouni.

Estudei com bolsistas de todo o país, ex-beneficiários de outros programas sociais, e com filhos de uma elite que paga fortunas em colégios para que seus filhos acessem a universidade pública --e não acessam. Ouvi inúmeras vezes que era sortuda por não pagar (leia-se: ser pobre).

Há pouco entrei em um programa de formação de líderes de um grande banco, concorrendo a 47 vagas com 85 mil pessoas. Em cinco anos, virei a minha vida e do meu entorno de ponta cabeça: se há 13 anos busquei meu pai, morto num infarto de sobrecarga de trabalho, coberto por um saco preto no cantinho de um estacionamento para não atrapalhar o público, hoje pago o melhor plano de saúde para a minha mãe.

Vida longa a ela, e ao Prouni.

Francielle Santos, 24 anos, engenheira civil, São Paulo (SP)

​Em 2011 eu consegui uma bolsa por meio do Prouni no curso de Letras na então Uniban (Osasco). Era um sonho de infância ser professora de língua portuguesa. No ensino médio, em 2004, eu não tinha a menor esperança porque meus pais não tinham dinheiro para me bancar. Minha mãe era dona de casa e meu pai pedreiro. Ambos não terminaram o ensino fundamental.

O Prouni já era um programa em ação quando saí da escola, mas eu pensava "não é possível, estudar de graça?". Depois de um tempo comecei a ter notícias de colegas que conseguiram a bolsa após fazer o Enem. Tentei duas vezes antes de conseguir uma nota legal. Estudei sozinha para melhorar minha nota. Quando consegui, não acreditei. Foi uma das maiores felicidades da minha vida.

Hoje sou professora efetiva da rede estadual de São Paulo. Passei no concurso de 2013 quando estava no último ano da faculdade.

Sem o Prouni eu não sei como seria.

Juliana Rodrigues do Nascimento, professora, Cotia (SP)

Morador de periferia, filho de uma auxiliar de farmácia e de um vigia/auxiliar de serviços gerais, sempre tive uma vida modesta, mas que tinha minha educação como prioridade. Encarei a realidade do ensino público básico, fundamental e médio, vendo o superior como algo distante, mas que passou a ser possível para mim e para muitos da minha geração graças aos incentivos do governo.

Em 2015 conquistei uma bolsa integral pelo Prouni no Centro Universitário Metodista Izabela Hendrix, em Belo Horizonte, referência no ensino de arquitetura e urbanismo em Minas Gerais. Durante a jornada acadêmica dei o meu máximo, participei de projetos de extensão, pesquisa e fui voluntário em outras atividades, fazendo o possível para devolver um pouco do meu “privilégio” para a sociedade. Consegui estagiar com um professor e, após me formar no início de 2020, segui trabalhando com ele em meio horário, conciliando a rotina com outros projetos pessoais.

Não sou um caso isolado, existem cada vez mais pobres, negros, mulheres e LGBTQIA+ conquistando espaço na sociedade e no mercado. Torço e sigo fazendo minha parte para que seja um caminho sem volta e que, apesar de mentes lamentáveis dirigindo o país, a economia brasileira seja gigante e plural.

Lucas Oliveira Huhn, 26 anos, arquiteto e urbanista, Betim (MG)

Nasci e cresci em uma cidade pequena do sul de Minas Gerais, São Sebastião do Paraíso. Venho de família muito simples, de pouca escolaridade. Em 2000 fui o primeiro de minha família e escola pública a tentar o ensino superior. O custo alto da faculdade particular me fazia trabalhar durante o dia e estudar no período noturno.

No final de cada ano eu ficava em dívida financeira com a universidade, o que me forçava sempre a interromper um ano. Estudava e trabalhava por um ano, e no outro trabalhava para juntar dinheiro para pagar a dívida do ano anterior. Nesta época lavei banheiros, colei sapatos, lavei pratos.

Depois de levar cinco anos para estudar efetivamente dois, e depois de levar minha família a contrair dívidas tentando me ajudar, finalmente iria desistir. Não havia mais jeito. Foi então que consegui uma bolsa de estudos integral do Prouni em 2006. Fui o primeiro de minha família a alcançar o ensino superior, no final de 2007. Hoje sou mestre e doutor pela UFSCAR e pós-doutor pela USP de Ribeirão Preto. Sou professor universitário, com dois livros publicados e outros quatro como organizador.

João Flávio de Almeida, 39, Ribeirão Preto (SP)

Mãe de dez filhos, diria que a educação é minha vocação desde sempre. A faculdade teve que ser postergada, e depois interrompida três vezes, pois não é fácil ajustar o orçamento numa casa com tantas pessoas.

A oportunidade apareceu em 2006, com um Prouni. Graças ao programa, pude me graduar, tornar-me diretora e implementar um projeto pedagógico inovador em uma escola da rede particular.

Aprendi muita coisa no dia a dia dos corredores escolares, mas a faculdade embasou teoricamente minha prática pedagógica.

Nossa escola tem o foco voltado ao aluno: cada estudante, já desde o terceiro ano, pode escolher o que vai estudar, quando e como vai apresentar seus resultados. Não há notas ou sinal de final de aula de 50 minutos. E os alunos aprendem!

Hoje meus filhos são adultos, já tenho netos, mas sei que o sacrifício valeu. Valeram as noites, os finais de semana, o apoio que recebi de todos. Valeu a cota do Prouni.

Um país que não investe na educação está fadado ao atraso, à miséria, à colonização por outros mais desenvolvidos. Um país que não investe na educação caminha para ser enganado por governantes pouco preocupados com a nação. Isso talvez explique muita coisa.

Elaine B. F. Cardoso de Medeiros, pedagoga, Jundiaí (SP)

Causa espanto um ministro "produto da política de bolsas de estudo baseada em performance e desempenho”, em nome da questionável agenda de austeridade que precisa sustentar, ignore por completo as milhares de pessoas que tiveram suas vidas modificadas por programas como o Fies e o Prouni.

Sim, Paulo Guedes, não tenho vergonha nenhuma de dizer que era um porteiro quando recebi a minha bolsa para estudar economia na Universidade Mackenzie pelo Prouni.

Sim, Paulo Guedes, nenhum dos meus colegas pagantes estudou em escola pública, nem conviveu com a falta de professores, conteúdo raso e estrutura precária.

Sim, Paulo Guedes, só os pagantes praticavam atividades extracurriculares e estavam com o inglês avançado logo no início do curso.

Sim Paulo Guedes, o esforço para acompanhar as aulas morando a duas horas da minha casa e a falta de fundamentos de matemática básica que me foram negados pelo sistema público me fizeram muita falta.

Mas não, Paulo Guedes, isso não me impediu de estagiar e ser efetivado em uma empresa do mercado financeiro, deixar de ser porteiro e modificar a minha renda e a de toda a minha família. Portanto, não, Paulo Guedes, investir em jovens como eu nunca será um erro.

Johnny Lisboa, 28, estudante de economia e analista de backoffice, Itaquaquecetuba (SP)

Dez anos depois de concluir o ensino médio em uma escola pública, defendi minha tese de doutorado. Usei o espaço dos agradecimentos para agradecer publicamente ao meu país.

Graças às políticas públicas de acesso ao ensino superior e de permanência na pós-graduação pude construir a trajetória que antecedeu aquele momento, sendo bolsista integral do Prouni na graduação e das agências de fomento à pesquisa no mestrado e no doutorado.

Durante os primeiros anos do Prouni havia muita desconfiança, as pessoas não sabiam se daria certo, se conseguiríamos acompanhar as disciplinas, como seria o desempenho dos bolsistas, aquele espaço não era ocupado por pessoas como eu, filha de um pintor e uma dona de casa.

É claro que esses tempos transcorreram com algumas dificuldades, era comum ter que decidir entre comprar o xerox ou pagar a passagem do ônibus e ter que ajudar a família com o valor da bolsa de pesquisa.

Hoje tenho orgulho de trabalhar em uma universidade pública, na pró-reitoria que atua na promoção do acesso e permanência aos estudantes de baixa renda, e acompanhar como as políticas públicas de educação superior podem modificar as perspectivas e os sonhos dos filhos e filhas de famílias pobres, como eu.

Jaciana Araujo, 31, psicóloga, Santa Vitória do Palmar (RS)

Primeira da família a cursar uma universidade, minha mãe se dirigia à secretaria acadêmica para trancar sua matrícula no curso de Pedagogia quando soube que fora contemplada pelo “Programa de Crédito Educativo”. Era meados dos 1990, o desemprego era grave e, embora o Plano Real tivesse estabilizado o poder de compra da moeda, os salários continuavam comprimidos. O PCE possibilitou que ela concluísse o curso numa universidade privada da zona leste de São Paulo, mas a dívida contraída era impagável. O governo Lula anistiou aqueles que foram exercer a medicina e o magistério no serviço público, o caso dela.

Fui o segundo a cursar o ensino superior, e já pela metade deste acumulava inadimplências importantes dentro e fora da universidade. O Fies cobria 75% da mensalidade, mas os 25% pesavam e minha rematrícula seria negada. Privada e mais elitista do que hoje, a instituição era filantrópica, ainda que os critérios para concessão de bolsas me parecessem pouco transparentes. Prestes a evadir, apelei por uma bolsa de ao menos 50%, com o Fies cobrindo o restante. Mesmo tendo plena elegibilidade, o “cálculo econômico racional” parece ter sido este: a universidade perderia receita certa por dois anos pelo FIES num cenário em que o endividamento das famílias crescia e mais alunos poderiam evadir. Filantropicamente fazia sentido me manterem no curso. Ainda bem.

No Brasil os problemas são historicamente arremessados à frente. Passados alguns anos do bacharelado, as parcelas do Fies permanecem um fardo – e minha mãe é minha fiadora.

Danilo Severian, 34, economista, pesquisador e professor universitário, São Paulo (SP )

Estudei em escola pública, meu pai era vigilante e minha mãe trabalhava na limpeza de uma escola. Eu tinha o propósito de ser independente para pagar meus estudos.

Infelizmente não consegui passar na universidade pública, mas não desisti dos meus sonhos e consegui entrar em uma universidade particular pegando o mínimo de matérias.

Entretanto, até esse mínimo estava ficando apertado e demoraria mais uns 2 anos para finalizar o curso.

No ano de 2014 consegui o financiamento estudantil de 75% e peguei mais matérias para finalizar o curso em 2015.

Em 2017 passei em um concurso público para área de engenharia e em 2022 encerro a quitação das parcelas do Fies.

Dessa forma, só tenho a agradecer ao programa de financiamento. Contudo, cabe lembrar que ele não é gratuito e que os bancos também se beneficiam, pois incidem juros no financiamento.

Ricardo Gonçalves do Nascimento, 35, engenheiro, Brasília

Jovem de baixa renda, negra e filha de pais separados que cursou toda vida em escola pública, ingressaria em curso superior?

Inicialmente tentei sem cursinho, pois não tinha condições de pagar. Ingressar numa Universidade Pública não deu.Comecei a dar aulas, adiei o meu sonho. Tinha uma meta. Prestei vestibular, consegui ser aprovada numa faculdade privada. Não demorou muito tempo e tive que parar de estudar.

Sai de casa com a cabeça a mil, não queria fazer isso: trancar a matricula.Fui assaltada dentro do ônibus. Sem um centavo, restava chorar. Tinha um cartão do banco escondido numa carteira. Segui meu caminho. Conversando com o atendente, um cartaz: crédito Educativo, o Fies.

Apesar de trancar a matrícula, aquela informação não me saía da cabeça. Corri atrás, cumpri todas as etapas. Fui selecionada! Fui aprovada em dois concursos no setor público. Colaborando com a renda familiar, voltamos a sonhar.

Hoje estou aposentada e não sei o que seria da minha vida caso não tivesse cursado o ensino superior A filha do relojoeiro e da dona de casa teve acesso a um programa do governo federal que concede financiamento para estudantes cursarem o ensino superior em universidades privadas.

Leda Pereira dos Santos, 58, professora, Jandira SP

Resido no Brasil na cidade de Foz do Iguaçu há sete anos. Atualmente estou cursando sétimo período de ciências econômicas na UNILA ( Universidade Federal de Integração Latino-Americana) Faço estágio na pró-reitoria de planejamento da mesma instituição.

Eu queria muito estudar economia ou administração, no entanto as mensalidades sempre superaram as minhas condições. Com o salário de R$ 1,2 mil, não tinha a menor condição de pagar as contas da casa e ao mesmo tempo estudar.

Em 2018 me inscrevi no processo seletivo com cota separada para os imigrantes que vivem no país e graças a Deus eu consegui entrar e hoje estou realizando um dos meus maiores sonhos. O ministro Paulo Guedes não tem a menor ideia do que a classe baixa desse país passa para conseguir furar a barreiras sociais --para uma pessoa negra como eu a dificuldade é ainda maior. Sugiro que ele volte a estudar porque, ao que me parece, o Paulo Guedes parou na década de 1980.

Stanley Durelian, 26, natural do Haiti

Era agosto de 1986. Um tempo em que não havia uma palavra em inglês para designar o que ela fez ou o que senti. Eram os "anos 1980". Não havia o "politicamente correto".

O financiamento denominava-se Crédito Educativo. Na Caixa Econômica Federal, tive como fiadores minha mãe e outros queridos parentes. Tudo para atingir a renda mínima exigida.

Filho único de uma professora primária de escola pública, jamais poderia sonhar em estudar em uma faculdade privada.

No dia combinado, entretanto, graças ao Sarney, lá estava eu diante da bela e perfumada servidora da Caixa, munido de todos os comprovantes e documentos exigidos.

A dedicada funcionária implicou com a falta de certidão de casamento de minha mãe, mas isso não me surpreendeu, nem magoou. Mais tarde se revelou como um prenúncio do que viria.

Ao inspecionar o contracheque de minha mãe, que revelava nossa única e exclusiva fonte de renda, ela exclamou: "Vocês vivem só com isso?"

A verdade é que eu jamais teria me formado se não fosse essa oportunidade, jamais pagaria as contas, os impostos ou a escola de meu filho. O Estado não gasta com o financiamento estudantil, ele investe. E é um investimento sempre rentável.

João Assis Cardona Moreira, 53, Porto Alegre (RS)

Quando eu completei quinze anos meu pai perdeu o emprego que tinha na mesma empresa há mais de 24 anos. Depois daquele episódio ele nunca mais conseguiu outro emprego à altura. Eu queria muito estudar na universidade federal, mas não tinha condições de me mudar para a capital. Fiz vestibular e fui estudar letras numa universidade particular. Tinha uma bolsa de estudo da própria universidade, em troca da qual fiz trabalho voluntário.

Depois de me formar fui fazer mestrado e doutorado nos Estados Unidos, ambos com bolsa integral das universidades onde estudei. Depois de me formar no doutorado fiz pós-doutorado em uma universidade estadual no Brasil, com uma bolsa da Capes/CNPq.

Eu sou uma das poucas pessoas com curso superior da minha família entre pais, irmãos, tios e primos, e o único com mestrado e doutorado. Alguém como eu não teria tido a menor chance de entrar na universidade se não tivessem sido as bolsas de estudo, muito menos pagar pelos cursos de mestrado e doutorado no exterior.

Gleidson Gouveia, 38, Iowa City Iowa, professor

Eu morava no Rio de Janeiro e trabalhava em dois empregos quando passei na USP. Ao mudar-me para SP tive de recomeçar a vida, do zero. Não fossem os subsídios e as bolsas, como alimentação (refeições nos restaurantes universitários) e moradia (no complexo estudantil) e os demais programas de bolsa, como a de iniciação científica e participação em programas comunitários (Programa Unificado de Bolsas), não teria havido a menor possibilidade de seguir com os estudos e terminar a graduação em dupla habilitação e mais uma licenciatura. Com esses recursos pude comprar livros e alimentos para os finais de semana, bem como me locomover e participar de programas estudantis na periferia. Os programas de bolsas e financiamentos são um meio de desenvolvimento e pesquisa do país.

O acesso à educação e ao conhecimento, via ensino superior, é um direito e deve ser providenciado pelo Estado. Se um ministro afirma que a entrada de um estudante, filho de um porteiro, é um excesso, então ele não entendeu nada sobre direito, educação, pesquisa e desenvolvimento social. Nem mesmo sobre economia. Pois países com plena distribuição de renda e forte desempenho no cenário mundial possuem favoráveis índices educacionais e de acesso ao ensino superior.

Guaraí Pereira Machado, 38, professor, Rio de Janeiro (RJ)

Eu ingressei no curso de jornalismo, em 2015. Mesmo sendo relativamente mais em conta, se comparado a outros cursos, setecentos reais era um valor que pesava bastante no meu orçamento, porque, como muitos estudantes, eu ajudo nas despesas da casa. Graças a Deus, logo no início da graduação consegui uma bolsa de estudos que me garantiu por mais de um ano o valor integral das mensalidades e um estágio numa emissora de TV.

Esta oportunidade foi determinante para que eu pudesse dar sequência nos meus estudos e aprendesse tudo o que eu sei hoje de jornalismo. Eu pude estudar tranquilo, sem ter crises de ansiedade por não saber se o boleto do mês seguinte seria quitado ou não.

Graças a essa bolsa, consegui me formar e hoje sigo a carreira de repórter numa emissora de TV da minha cidade.

Anderson Alves Damasceno de Andrade, 30, jornalista, Governador Valadares (MG)

Estudei arquitetura na FAU-USP, em São Paulo. Minha família é de classe média baixa, meu pai sempre foi autônomo, tinha um estúdio de design gráfico em casa e minha mãe, hoje professora do estado para o ensino básico, não trabalhava quando éramos crianças por problemas de saúde mental, diagnosticada com pânico e depressão.

Eu fiz colegial em escola pública e me formei em 2002. Não passei na universidade pública mas estudei um ano de cursinho e entrei na USP, antes de qualquer política de bonificação para alunos egressos de escola pública. Dentro da USP percebi que estudar em uma escola elitizada pode custar caro: o curso integral e a carga de estudos não permitem um trabalho que pague bem e contava com a ajuda dos meus pais mesmo para o básico: o ônibus e as refeições no bandejão.

No ano de 2007 eu precisei recorrer à assistência social da universidade porque minha família não tinha mais como me apoiar. Pelo nosso perfil me deram um auxílio que beirava R$ 200, além das refeições do bandejão grátis. Eu tive essa ajuda por um ano e tenho certeza que se não fosse isso teria tido de abandonar a universidade.

Hoje sou facilities manager, cuidando de dez lojas para uma multinacional e responsável por 4 países.

Daniel Jacobino, 36, facilities manager, Cidade do México

Na minha pós-graduação fui recipiente de uma bolsa, mas a percepção da importância do sistema de bolsas veio mais tarde, quando fui procurado por um aluno interessado em trabalho de iniciação científica.

Morava no alojamento da universidade, era negro, beneficiário das cotas, tinha até então vivido de um auxílio da universidade, e precisava de uma bolsa, Começamos a trabalhar e logo percebi seu interesse e capacidade, especialmente em entendimento de softwares,

Percebi também uma grande dificuldade de expressão escrita, provável consequência de deficiente escolarização. E fomos em frente, da iniciação científica passamos ao mestrado, bolsa Capes e em tempo recorde completou um trabalho dentre os melhores que orientei.

Ele realmente era material para um doutorado de excelência, e facilitei sua aceitação em Aachen, talvez a melhor universidade alemã de pesquisas em metalurgia. Obteve bolsa DAD (Serviço de Intercâmbio Acadêmico Alemão), enfrentou previsíveis atitudes racistas, obteve seu doutorado, retornou ao Brasil e trabalhou numa multinacional, mas resolveu retornar à Alemanha onde formou família.

Esse foi o exemplo mais claro, dentre muitos, do imenso valor dos sistemas de bolsas e ações afirmativas e de seu alcance para coibir injustiça social e racial e não perder preciosos talentos escondidos nas classes menos favorecidas.

Maurizio Ferrante, 78, professor universitário aposentado, São Carlos (SP)

Estudei durante todo o ensino básico e médio em escolas públicas em Americana (SP). Minha família era de classe média baixa, meu pai tinha um emprego público modesto na estação de trem da cidade, e vendia pães com uma kombi para complementar a renda.

Fui da primeira geração da família a completar o ensino superior. Fiz graduação em Matemática na UNESP de Rio Claro, mestrado e doutorado no IMPA, no Rio. O colunista da Folha Marcelo Viana foi um dos meus professores lá. Artur Avila (medalhista Fields) e eu fizemos doutorado ao mesmo tempo naquela instituição, uma das melhores instituições de pesquisa em matemática do mundo, com o mesmo orientador.

Atualmente sou professor titular na USP em São Carlos. Em 2020 publiquei um artigo científico em uma das mais importantes revistas científicas de matemática do mundo, Annals of Mathematics. Esta ascensão acadêmica para alguém com meu perfil sócio econômico teria sido impossível sem as diversas bolsas de estudo em agências de fomento que usufruí ao longo desta trajetória, como da Fapesp, Capes e CNPq.

Daniel Smania, 46 anos, professor universitário, São Carlos-SP

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