Talibã parece forte, mas teme o poder de uma mulher que recebe educação, diz leitora

Grupo fundamentalista islâmico retomou o poder no Afeganistão após 20 anos

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Americana (SP)

Leitores enviaram para a Folha mensagens expressando solidariedade às meninas e mulheres do Afeganistão, diante do retorno ao poder do grupo fundamentalista islâmico Talibã, em agosto.

Várias mensagens apelaram para a imagem de Malala Yousafzai, ativista paquistanesa pró-educação que foi perseguida pelo Talibã e acabou se tornando a mais jovem ganhadora de um Nobel da Paz.

"Vocês não estão sozinhas! O mundo acompanha os riscos de perda de liberdade e direitos humanos com a ascensão do Talibã", afirmou a linguista Iúta Lerche Vieira, 70, de Fortaleza (CE) .

Mulheres em Cabul, capital do Afeganistão - 21.abr.20/Reuters

"Espero que esta mensagem acalme o seu coração. Você não está só, estamos juntas, conectadas pela luta feminina que atravessa e perpassa gerações", escreveu a advogada Roberta Vieira Pereira, 28, de Belo Horizonte.

De Contagem (MG), o analista de comunicação Mike Faria da Cruz, 23, escreveu: "Tenham nos livros, nos sonhos, seus aliados para contar no cotidiano, e não deixem de alimentar perspectivas sobre o futuro".

"Peçam asilo politico em uma embaixada democratica o quanto antes e levem seus filhos", sugeriu Gilda Rachel, 67, aposentada, de São Paulo (SP).

Em meados de agosto, as tropas do Talibã entraram na capital afegã, Cabul, pela primeira vez desde 2001, quando tiveram de deixar a capital sob ataque das forças ocidentais. Depois de duas décadas de ocupação militar e combate ao grupo, o governo americano decidiu pôr fim à sua presença no país.

O grupo assumiu o controle do palácio presidencial, e o presidente Ashraf Ghani deixou o país.

Um misto de angústia e medo tem se espalhado entre os civis. Uma multidão invadiu a pista de decolagem para tentar sair do país, em meio ao caos que se instalou no aeroporto internacional de Cabul.

Vídeos em redes sociais mostraram pessoas se pendurando em aeronaves em movimento. Uma imagem que entrou para a história mostrou um avião militar americano C-17 Globemaster III levando 640 pessoas, entre homens, mulheres e crianças.

Para mulheres, a retomada do poder pelo grupo fundamentalista causa ainda mais apreensão, já que elas temem um retrocesso em seus direitos.

Algumas que fugiram de áreas controladas pelo Talibã disseram que os militantes exigiam que as famílias entregassem meninas e mulheres solteiras para se tornarem esposas dos combatentes. Elas também descreveram ser forçadas a usar burcas — veste que cobre todo o corpo e possui uma estreita tela à altura dos olhos, através da qual se pode ver.

Aisha Khurram, uma ex-embaixadora da Juventude da ONU, afirmou no Twitter que professores da Universidade de Cabul estavam se despedindo de suas alunas quando todos foram evacuado na manhã de domingo.

Lotfullah Najafizada, chefe do serviço de notícias afegão Tolo News, postou uma imagem de um homem cobrindo de tinta fotos de mulheres pintadas em um muro em Cabul.

Crianças também sofrem uma série de restrições: as meninas são impedidas de ir à escola e os meninos são levados para estudar em escolas religiosas, ou forçados a se tornarem combatentes.

Um porta-voz do Talibã alegou que o grupo respeitará as mulheres e que meninas continuarão a ter acesso à educação.

Eis algumas das mensagens enviadas por leitores e leitoras.

"Eu simplesmente desejaria que todas as mulheres pudessem ser livres de submissão e opressão. Não tenho a mínima condição para saber o que é estar nessa situação. No entanto, devemos nos ajudar, mesmo que a minha parte seja feita apenas com palavras de encorajamento e solidariedade. Se tem uma coisa que sabemos é que a educação é a arma mais poderosa para se mudar o mundo. Saibam que não estão só nesta luta. Muitas de nós do Brasil nos sensibilizamos com essa repercussão."

Ana Paula Zara Couto, 18, estudante (Maringá, PR)

Canetas e livros podem ser privados, mas seus pensamentos e suas mentes, não

Ana Paula Zara Couto

estudante, 18 anos (Maringá, PR)

"ESCREVAM! Observem e documentem a realidade de forma inteligente, sem bater de frente. Se cuidem e fiquem unidas, aconteça o que acontecer! Protejam, alimentem as menores e mais frágeis. De comida e de sonhos. Mantenham as rotinas possíveis. Leiam o que houver, contem histórias, ensinem. Façam exercícios e dancem. Procurem se distrair com lembranças bonitas e canções."

Iúta Lerche Vieira, 70, linguista, professora universitária e pesquisadora (Fortaleza, CE)

"Espero que vocês, meninas, entendam, vocês sofreram um golpe, mas nunca serão vencidas porque vocês fazem parte uma linhagem de mulheres havidas por algum respiro, por alguma fuga, mantendo-se sempre atentas e prontas para transformar o cenário. Não desistam! Porque a nossa missão é questionar o mundo."

Amanda dos Santos Francisco, 29, assessora (Itapevi, SP)

Enquanto houver uma mulher sendo julgada e maltratada, todas nós seremos chamadas à luta e ao luto da dor

Roberta Vieira Pereira

advogada, 28 anos (Belo Horizonte, MG)

"Às minhas irmãs afegãs, a dor de uma é a dor de todas. Sinto uma enorme angústia em saber que vocês estão presas nesta condição terrível. Resistam. Fiquem vivas. Vocês não estão sozinhas. Todas as mulheres do mundo estão olhando para vocês."

Rosa Antuña Martins, 44, coreógrafa e bailarina (Belo Horizonte, MG)

"Sei que tudo deve estar muito difícil e que a incerteza do futuro é muito grande. No entanto, acreditem em quem vocês são e na força que habita em vossos corações. Não percam a esperança."

Patricia Oliveira, 33, advogada (Rio Branco, AC)

"Eu lamento profundamente que as meninas e mulheres continuem sendo vítimas de regimes autoritários e misóginos. Infelizmente o que move a maioria dos países, ditos desenvolvidos, que poderiam se mobilizar para enfrentar essa situação e ajudar as mulheres do Afeganistão, é o capital e não o respeito à diferença, à justiça social, os direitos humanos. Sinto muito a todas essas mulheres e meninas que hoje precisam, para viver, se submeter a um regime como esse. Meu profundo afeto e respeito por todas."

Sandra Maciel, 49, professora (Rio de Janeiro, RJ)

Eles parecem fortes, mas eles temem o poder de uma mulher que recebe educação

Ana Luisa Saliba

jornalista, 26 anos (São Paulo, SP)

"Mandem mensagens para as mulheres influentes do mundo todo. Elas se unirão para propor medidas concretas para ajudá-las nesse momento tão difícil das vossas vidas. Força e coragem!"

Ana Marques, 66, arquiteta (Jundiaí, SP)

"Fujam desses bárbaros o quanto antes. Protejam-se, a humanidade torce por vocês."

José Maria da Silva Alves, 63, administrador (Juiz de Fora, MG)

"As notícias nos despertam medo e opressão. O retrocesso nublando os olhos e sufocando vozes. Minha solidariedade às meninas e mulheres afegãs."

Luzmarina Hernandes, 55 professora (Maringá, PR)

Corta meu coração não poder fazer nada para impedir que vocês não possam ter o direito de estudar

André Cassimiro

64 anos (São Paulo, SP)

"Mirem-se no exemplo de Malala Yousafzai, usem a inteligência e a coragem para exigir seus direitos. O rigor patrimonial e familiar que lhes é imposto é abusivo e as deixam vulneráveis.A sua individualidade não pode ser massacrada por culpa de rituais. As meninas e mulheres afegãs merecem pois, toda ajuda e o respeito do mundo sem qualquer restrição por serem femininas."

Helio Cardoso, 71, técnico em eletrônica (Mirassol, SP)

"A educação é a nossa principal ferramenta de mobilidade social, principalmente em países desiguais como o seu e o meu. A partir dela, nos desenvolvemos econômica e pessoalmente e passamos a adquirir autonomia para sermos protagonistas de nossa trajetória. Não deixem de exercitar o pensamento crítico e o estudo e não fiquem paralisadas pela repressão."

Mike Faria da Cruz, 23, analista de comunicação (Contagem, MG)

"Gostaria que soubessem que sua causa chegou ao coração de BILHÕES de pessoas no globo. E que vamos todos, homens, mulheres e crianças, lutar e mobilizar autoridades para virar essa tristíssima página da sua e da nossa história. Tentem aguentar firme e não deixem a esperança morrer, vocês não estão sozinhas!"

Tony Nyenhuis, 49, redator publicitário (Peruíbe, SP)

"Apesar de parecer impossível, não percam a esperança, pois no minuto que ela sumir, eles terão vencido."

Laura Ribeiro Maciel, 27, advogada (Fortaleza, CE)Obrigado aos leitores e às leitoras pela participação!

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