Chefs de Eduardo Paes foram pagos pelo Senac, investigado na Lava Jato

Na época, entidade era presidida por Orlando Diniz, preso no mês passado na Operação Jabuti 

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

Dois chefs que trabalharam por quase oito anos a serviço do ex-prefeito do Rio Eduardo Paes tiveram os salários pagos pelo Senac, presidido à época por Orlando Diniz, preso no mês passado na Operação Jabuti, desdobramento da Lava Jato na cidade.

Contratados pela entidade em fevereiro de 2009, os chefs João Ferretti e Camila Pontes comandaram diariamente a cozinha do Palácio da Cidade, local do gabinete do prefeito do Rio, até o fim da gestão Paes (2009-2016). 

O ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes gesticula durante entrevista à Folha em 2016
O ex-prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes, em entrevista à Folha em 2016 - Ricardo Borges - 9.nov.2016/Folhapress

Eles também trabalhavam no Centro Administrativo da prefeitura e na Gávea Pequena, residência oficial do prefeito, em ocasiões especiais.

A prática de cessão de funcionários é semelhante à adotada por Diniz junto ao ex-governador Sérgio Cabral, para quem a entidade bancou o salário da chef Ana Rita Menegaz, responsável pela cozinha do Palácio Guanabara, sede do governo estadual.

O ex-presidente do Senac foi preso sob suspeita de lavagem de dinheiro por meio do esquema atribuído a Cabral. 

Em contrapartida, diz a Procuradoria, Diniz contratou oito pessoas indicadas pelo ex-governador —além da chef, há funcionários pessoais do emedebista e parentes de seus assessores. No caso de Paes, não há relato de outros nomes além dos dois chefs.

Ferretti disse que recebia eventualmente alunos do Senac na cozinha do Palácio da Cidade, mas que a frequência era esporádica.

“Eu respondia ao chefe de gabinete do prefeito. Trabalhava muito, de segunda a segunda”, disse Ferretti. Ele disse não saber por qual motivo o Senac o contratou para trabalhar na prefeitura.

Os nomes de Ferretti e Pontes estão numa lista de “jabutis”, como eram chamados funcionários do Senac contratados para atender interesses de políticos. Eles recebiam R$ 12,4 mil e R$ 6,3 mil, respectivamente, segundo o Senac.

Em depoimento ao Ministério Público Federal, a ex-gerente de governança do Senac Verônica Gomes disse que todos os “jabutis” eram contratados por ordem de Diniz. 

Já o ex-diretor do Senac Julio Cesar Gomes Pedro disse que esses funcionários eram contratados numa “troca de favores com autoridades, com o governador e o prefeito, por exemplo”.

Os dois chefs foram desligados do Senac em 4 de outubro de 2016, dois dias após o primeiro turno da eleição municipal, na qual Pedro Paulo (PMDB), candidato de Paes, foi derrotado. 

Eles foram nomeados três semanas depois para um cargo do município, no fim da gestão do ex-prefeito, com salários semelhantes ao que recebiam no Senac. Ambos permaneceram na gestão Marcelo Crivella (PRB) até julho, quando foram exonerados.

O ex-prefeito é investigado sob suspeita de ter recebido caixa dois da Odebrecht. Analisando candidatura ao governo do Rio, Paes já entregou sua carta de desfiliação do MDB, a fim de se desvincular do esquema de corrupção apontado pela Lava Jato no Rio.

OUTRO LADO

Paes afirmou que a contratação dos chefs foi oferecida por Diniz. Ele classificou o caso como um apoio institucional. “Não vi nenhum problema. Aceitei e economizei um dinheiro da prefeitura”, afirmou o ex-prefeito.

Ele declarou que a presença dos chefs nunca foi usada por Diniz como argumento para solicitar vantagens pessoais ou para o seu setor.

O advogado de Diniz, André Nascimento, disse que a contratação de chefs para palácios de governo tinha como objetivo aumentar a visibilidade da entidade e criar mais um espaço de intercâmbio.

“Esse era o motivo da contratação da Ana Rita. Ela usava uniforme do Senac e recebia alunos do Senac. Não conhecia o caso desses dois chefs, mas se encaixa nesse objetivo”, disse.

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