Com aval de Lula e celebridades, Boulos lança pré-candidatura à Presidência 

Chapa do PSOL tem a líder indígena Sonia Guajajara como vice; personalidades falaram no evento

Anna Virginia Balloussier
São Paulo
Guilherme Boulos, líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), fala em palanque durante evento no Rio em janeiro
Guilherme Boulos, líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), em evento no Rio em janeiro - AFP
Com respaldo de Lula, um potencial rival eleitoral, e de personalidades que outrora orbitaram PT e Marina Silva, o líder do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Guilherme Boulos, lançou neste sábado (3) sua pré-candidatura à Presidência, com a líder indígena Sonia Guajajara de vice. Ele se filiará ao PSOL nos próximos dias, e o partido deve oficializar sua chapa em sua convenção nacional, no dia 10 de março.

Caetano Veloso cantou "Gente" para introduzir Boulos, que o enrolou numa bandeira do MTST, e "Índios" para apresentar Guajajara, de quem ganhou um cocar.

"Este nosso encontro talvez fosse improvável. Não é um encontro óbvio toda essa diversidade que está aqui. O que nos uniu foi o avanço do conservadorismo, que nos forçou a buscar alianças novas", disse o futuro presidenciável.

O atual inquilino do Palácio do Planalto foi alvo preferencial. "Este Temer vai ficar na história como um Juscelino Kubitschek ao contrário, em menos de dois anos conseguiu fazer o país voltar 50 anos atrás."

A mensagem de Lula, transmitida em telão, martelou a ideia de que Boulos é um bom quadro político —para o futuro. "Você sabe o quanto eu te respeito, o quanto gosto de você pessoalmente e quanto acho você uma pessoa de muito futuro na política. Jamais vou pedir para você não ser candidato", afirmou o ex-presidente, que depende de decisões judiciais para disputar o Planalto.

O petista definiu o neófito eleitoral como "uma pessoa nova, que tem futuro, que pode se projetar". Também citou a pré-candidata Manuela D'Ávila (PC do B), mas ignorou Ciro Gomes (PDT), nome esquerdista que melhor pontua em pesquisas de intenção de voto e a quem criticou em entrevista recente à colunista da Folha Monica Bergamo.

Boulos devolveu o afago do petista e criticou o Judiciário por condenar Lula, a quem prestou "sincera solidariedade pela injustiça" que estaria sofrendo. "Diferenças políticas", afirmou, "não podem significar conivência com injustiça".

"Só quem se ilude acredita que vai parar com o Lula. Não vai parar por aí. Pega toda a esquerda, pega todos nós. Quando vemos Bolsonaros discursando e sendo aclamados ao defender tortura, extermínio, um tipo como Brilhante Ustra ser defendido a céu aberto..."

Boulos defendeu a necessidade de não pregar para convertidos. "A gente quer mudar o Brasil, mas fica contente em só falar nas nossas bolhas." A meta, disse, é "conciliar essa disposição para uma nova esperança".

QUALQUER COISA

Com os versos "esse papo já tá qualquer coisa", de sua popularíssima "Qualquer Coisa", Caetano abriu no gogó a Conferência Cidadã, numa casa de eventos na zona oeste paulistana. O músico, contudo, já se disse simpático a outro concorrente do campo progressista, Ciro.

Sua mulher, Paula Lavigne, empresária e idealizadora do movimento político #342, é uma das entusiastas da dobradinha Boulos-Guajajara —​ela recebeu o líder do MTST em sua casa, point de artistas interessados em causas políticas.

In loco ou por vídeo, em defesa da plataforma saíram artistas como Sonia Braga, que advogou pelo "que é melhor para nós, trabalhadores", e Wagner Moura, que já declarou votos em Lula (PT) e Marina (Rede) e hoje se diz desgostoso "com a série de retrocessos que o Brasil está passando". "A gente não vai governar para todo mundo, vai governar para 99%", disse o deputado fluminense Marcelo Freixo, em alfinetada ao chamado 1% mais rico da população.

"Aqui nasce uma esquerda que não está fazendo aliança para conseguir tempo de TV", disse Freixo, que no fim de 2017 contou à reportagem ter tido a ideia de lançar Boulos pelo PSOL, enquanto tomava um café com a namorada, Antonia Pellegrino, roteirista e cofundadora do blog #AgoraÉQueSãoElas (hospedado no site da Folha). 

"Elites brancas", "presidente golpista" e "chuva de conservadorismo" foram algumas das expressões aplaudidas no evento apoiado por figuras conhecidas da esquerda, como a cartunista Laerte, que atacou um Congresso "lotado de gente que nos odeia". O ex-governador gaúcho Tarso Genro, do PT, mandou um recado audiovisual a Boulos: "Tu é um nome para ser pensado no futuro". O sociólogo português Boaventura de Sousa Santos escolheu o mesmo formato para fazer seu desagravo à candidatura.

Pastor evangélico de credenciais progressistas, Henrique Vieira exaltou o programa "negro, feminista, LGBT" do PSOL, ao qual é filiado. "Ser religioso é sempre ser conservador? Graças a Deus e aos deuses, não."

Frei Betto enquadrou os tempos atuais numa "democracia mentirosa" e disse que "em breve não poderemos fazer reuniões como esta". Finalizou seu discurso com uma sugestão: "Guardemos o pessimismo para dias melhores".

Monica Iozzi previu um ano difícil pela frente. "Mas juntos a gente vai sobreviver ao ataque dos zumbis", disse a atriz, que em 2017 foi condenada a pagar R$ 30 mil para o ministro do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes. Iozzi o enfureceu ao publicar uma foto de Mendes, que havia autorizado um habeas corpus para o médico condenado por estuprar pacientes Roger Abdelmassih, com uma faixa escrito "Cúmplice?".

A plateia foi povoada por feministas, ativistas negros e LGBTQ, indígenas "e até uns burguesinhos", como autozombou um militante "branco, hétero, cisgênero" que entoava um bordão caro a movimentos sociais: "Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não atiça o formigueiro".

Escritor, rapper e poeta, Ferréz sugeriu ao público: "Quando algum jornalista perguntar cadê a periferia, pode dizer que a porra da periferia está aqui". Engatou com uma poesia que exaltou o "terrorista literário de fuzil, Bic na mão" e "Guilherme Boulos na porra do bagulho".
 

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