Em alguns países, ex-presidentes acusados ainda não foram presos, diz Deltan

Procurador afirma ser surpreendente que, com quatro anos de Lava Jato, ainda se debate 'como não retroceder'

José Marques
São Paulo

No mesmo dia em que o habeas corpus do ex-presidente Lula é julgado pelo STF (Supremo Tribunal Federal), o procurador Deltan Dallagnol disse em evento nesta quarta (4) que o combate à corrupção ao redor do mundo tem levado à prisão de ex-presidentes.

O procurador Deltan Dallagnol checa o celular para ter notícias do julgamento de Lula antes da palestra
O procurador Deltan Dallagnol checa o celular para ter notícias do julgamento de Lula antes da palestra - Jorge Araujo/Folhapress

Sem citar nominalmente Lula, o coordenador da Operação Lava Jato no Ministério Público Federal do Paraná afirmou que o Brasil e o mundo têm passado por “tempos de mudanças” que fizeram seus comandantes serem processados por corrupção.

“Podemos citar aí África do Sul, Israel, Coreia do Sul, Panamá, El Salvador, Guatemala e Peru, para ficar em apenas alguns”, afirmou, em jantar promovido pela consultoria AML na zona sul de São Paulo.

“Em alguns países, os ex-presidentes foram inclusive presos. Em outros, como vocês sabem, ainda não”, disse, ressaltando o “ainda não” com a voz.

Defensor da execução de prisões após condenação em segunda instância, Deltan citou crimes de colarinho branco que levaram quase 20 anos para serem executados, como o do ex-senador Luiz Estêvão, e defendeu a decisão de 2016 do Supremo que autorizou prisões antes de análise pelos tribunais superiores.

“Nos surpreende que, quatro anos depois da Lava Jato, grande parte do debate público é sobre como não retroceder, não voltar dez anos em um dia, em vez de conversarmos sobre como nós podemos avançar ainda mais no controle da corrupção”, disse, em referência à possibilidade de o STF rever a decisão de dois anos atrás.

Deltan chegou ao restaurante onde o evento aconteceu antes das 19h e começou sua fala de mais de uma hora pouco antes das 21h. Passou esse período checando recorrentemente o celular para ter notícias do julgamento.

Ele não quis comentar a decisão da ministra Rosa Weber, considerada o voto decisivo da corte, de negar o habeas corpus ao ex-presidente.

Quando subiu ao palco para falar, disse que não havia problema se o público checasse os celulares durante a palestra. “Saibam que eu queria estar fazendo o mesmo a cada um minuto pelo menos”, riu.

Na metade da fala, parou por um minuto e conferiu o placar do julgamento —estava cinco a dois contra o habeas corpus.

Em seu discurso, o procurador fez a defesa de ações de compliance (conformidade com normas) por partes das empresas e voltou a dizer que nas eleições deste ano deve-se votar em candidatos favoráveis às ações anticorrupção levadas à frente pela Lava Jato.

Segundo ele, há um sentimento contrário ao que considera retrocessos por parte da população, originado a partir das manifestações de 2013.

“Junho de 2013 ainda não acabou”, disse Deltan. “Ontem mesmo vimos a população do Brasil indo às ruas contra a corrupção e contra a impunidade”, afirmou, em referência às manifestações pela prisão de Lula.

O procurador é parte da força-tarefa da Lava Jato que acusou o ex-presidente de corrupção e lavagem de dinheiro no processo do tríplex de Guarujá (SP). Lula foi condenado a 12 anos e um mês de prisão pelo TRF-4 (Tribunal Regional Federal da 4ª Região). Ele nega que tenha cometido crimes.

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