Descrição de chapéu

Lula critica e resiste, mas Globo transmite 'sonho de consumo'

Ex-presidente chegou a aparentar vantagem na disputa pelas percepções sobre sua prisão, mas teve de encarar as câmeras do helicóptero da emissora

Nelson de Sá
São Paulo

Em seu discurso de despedida ao meio-dia, sem transmissão ao vivo pela Globo, Lula criticou a Globo, a Record, a Bandeirantes, a revista "Veja" —mas sobretudo a Globo, que teria "exigido" e conseguido da Justiça a sua condenação.

"O que eles não se dão conta é que, quanto mais me atacam, mais cresce a minha relação com o povo brasileiro", declarou, citando as "horas de Jornal Nacional" que o "trituraram", além das "mais de milhares de páginas de jornais".

O canal de notícias GloboNews teve que apelar às imagens da TVT, emissora do próprio sindicato dos metalúrgicos, para transmitir o discurso, imagens que destacavam cartazes contra a Globo. Na dicotomia das palavras de Lula, de um lado estavam a Globo, os procuradores e o juiz; do outro, o povo brasileiro, não só pré-candidatos petistas como Fernando Haddad, mas Guilherme Boulos (PSOL) e Manuela Dávila (PCdoB).

Com a TVT, que manteve o domínio da transmissão em vídeo tanto ao longo do sábado como na sexta, e também com a foto de Lula logo após falar, cercado por braços e tirada por Francisco Proner, do Farpa Foto Coletivo, o ex-presidente chegou a aparentar vantagem na disputa pelas percepções sobre sua prisão.

Mas chegaria inevitavelmente o instante em que teria que sair do sindicato, deixar para trás a cobertura alternativa e encarar as câmeras do helicóptero da Globo. Elas entraram ao vivo perto das 18h45, por poucos minutos, o bastante para estimular gritos e panelaço no bairro do Morumbi, de onde escrevo, com a prisão de Lula.

Em seu discurso de despedida, ao meio-dia, o ex-presidente chegou a antecipar: "O sonho de consumo deles é a fotografia do Lula preso. Eu fico imaginando a tesão da Globo colocando a fotografia minha preso. Eles vão ter orgasmos múltiplos. Eles decretaram a minha prisão".

Talvez em resposta à ironia acusatória de Lula, a apresentadora Giuliana Morrone evitou tripudiar, durante a entrada ao vivo na Globo. E a imagem de o ex-presidente saindo do sindicato para o carro da polícia, ao menos naquele primeiro plantão, foi desfocada, quase apagada.

Mas a vantagem já estava então e talvez definitivamente, na guerra de imagens, com "eles". A Globo deixou a cobertura imediata para Record e Band, que acompanharam exaltadas a comitiva de carros de polícia, como fazem cotidianamente, dos helicópteros e "mochilinks" de seus programas sensacionalistas "Cidade Alerta" e "Brasil Urgente".

Nelson de Sá

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.