Consultor de famosos, alvo de operação fez transação suspeita para Emerson Sheik

Sérgio Mizrahy usou contas da escola de samba Grande Rio para receber pagamento por entrega de dinheiro vivo

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

Descrito pelos doleiros Vinicius Claret e Cláudio Barbosa como um agiota, Sérgio Mizrahy se apresentava no Rio de Janeiro como consultor financeiro. Ele tem em sua lista de clientes artistas, jogadores de futebol, além de outros famosos, segundo os delatores.

Há dois anos, reuniu em seu apartamento na avenida Vieira Souto, orla de Ipanema, o ator e ex-deputado Stepan Nercessian, o empresário José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, e o presidente da escola de samba Grande Rio, Jayder Soares, entre outros amigos para comemorar seu aniversário. O mesmo local era usado para entregar sacos de dinheiro para funcionários dos doleiros, de acordo com o relato dos colaboradores.

Nesta quinta-feira (3), Mizrahy foi um dos alvos da Operação Câmbio, Desligo, sob suspeita de ser um fornecedor de dinheiro vivo para Claret e Barbosa. O consultor entregava as notas para a dupla em troca de depósito em contas indicadas por ele.

Barbosa afirmou aos procuradores que conheceu Mizha —como era identificado no sistema— na década de 1990, mas só recorreu aos seus serviços a partir de 2003, quando se mudou para o Uruguai.

“Como sabia que Mizrahy era agiota, mexendo com muito dinheiro vivo diariamente, procurou o mesmo para geração de reais”, diz o depoimento de Barbosa.

De acordo com o Ministério Público Federal, Mizrahy aparece no “bankdrop” —sistema de fluxo de caixa usado pelos doleiros— como responsável por uma movimentação de R$ 50 milhões entre 2011 e 2017.

Uma das operações, segundo a dupla, teve o sentido inverso para atender Emerson Sheik, atacante do Corinthians. Mizrahy repassou US$ 500 mil do atleta para contas indicadas por Claret e Barbosa no exterior e recebeu o equivalente em dinheiro vivo no Brasil.

De acordo com os doleiros, os recursos vinham de uma conta na Ásia e foram usados para a compra de um apartamento para o jogador. Emerson atuou no futebol do continente por nove anos.

GRANDE RIO

Membro da diretoria da Grande Rio, Mizrahy também utilizou a escola de samba nas operações com os doleiros, segundo arquivos entregues pelos colaboradores. Uma conta da agremiação foi indicada para receber R$ 100 mil em troca de dinheiro vivo.

Na lista de empresas beneficiadas pelos depósitos, há também diversos estabelecimentos em Duque de Caxias, onde fica a sede da escola de samba. 

Barbosa também citou Carlos Augusto Montenegro, outro amigo famoso do consultor financeiro, em seu depoimento. Ele afirmou que recolheu dinheiro vivo na sede do Ibope a pedido de Mizrahy.

Casado com a joalheira Ana Paula Padua, dona da Kylat Joias, ele também indicou contas de familiares para receber os depósitos referentes aos sacos de dinheiro em espécie que repassava para Claret e Barbosa.

A reportagem não conseguiu contato com a defesa de Mizrahy. O jogador Emerson Sheik não se pronunciou até a publicação desta reportagem.

​A Grande Rio disse, em nota, que "os negócios pessoais e profissionais de Sérgio Mizrahy não dizem respeito à agremiação". "Desde já, a instituição aproveita para se colocar à disposição para esclarecer qualquer assunto e colaborar com a Justiça", diz o comunicado.

Montenegro afirmou, via assessoria de imprensa, que é amigo do consultor financeiro e que deu, a seu pedido, ajuda financeira para as fantasias de uma ala da Grande Rio. O presidente do Ibope disse que o apoio foi em dinheiro vivo, entregue para um secretário da escola de samba.

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.