Não sou candidato a nada, diz Haddad após palestra sobre Marx

Ex-prefeito de São Paulo comentou neste sábado (4) a obra do filósofo alemão

São Paulo

O ex-prefeito Fernando Haddad negou, mais uma vez, ser plano B do PT para a eleição presidencial. 

“Não sou candidato a nada. Me dispus a ser candidato ao Senado, se o Suplicy não fosse. Eu disse: ‘se ele tentar a Câmara, tento o Senado’. Foi a única coisa que concordei a fazer, isso um ano atrás”, afirmou. Eduardo Suplicy é pré-candidato do PT ao Senado.

Haddad fez palestra na manhã deste sábado (5), na Casa do Saber, em São Paulo, sobre Karl Marx. Coordenador do programa de governo do PT, o ex-prefeito defendeu a importância de manter diálogo com outros partidos de esquerda.

“O próprio Lula me pediu isso. Quero agora ir aos estados, sobretudo os de governos mais progressistas, para pegar as vitrines desses governos. Vou me encontrar com Flávio Dino [governador do Maranhão, PCdoB], Paulo Câmara [governador de Pernambuco, PSB]. Se o plano de Lula for incompatível com o dos governos estaduais, como você vai operacionalizar, entendeu? Então é um pouco obrigação fazer isso.”

Haddad se reuniu recentemente com Ciro Gomes, pré-candidato do PDT à Presidência da República, o que gerou especulações de que poderiam formar uma chapa para disputar a Presidência, no caso da candidatura do ex-presidente Lula ser barrada pela Justiça.

O ex-prefeito tem dito que o PT não discute alternativas a Lula, mas defende a união da esquerda para a construção de um programa comum com vista às eleições. 

“Pode ter uma candidatura só, ou duas ou três [no campo da esquerda]. Se uma dessas ganha, não vai facilitar ter um programa convergente? Não podemos pensar apenas no primeiro turno. Programa de governo é programa de governo, não de eleição.”

Antes de conversar com jornalistas, Haddad falou por quase duas horas sobre Marx (1818-1883), cujo bicentenário de nascimento se completa neste sábado (5). O ex-prefeito é professor doutor do departamento de ciência política da USP, com mestrado em economia (1990) e doutorado em filosofia (1996).
   
“Ele produziu um conjunto de obras que influenciou todas as áreas das humanidades, que exerceu um impacto vigoroso”, disse. “Foi um cidadão que fez barulho. Todos tiveram que sair de sua zona de conforto depois dele.”

O ex-prefeito avaliou, entretanto, que não existe um marxismo, mas sim diversos marxismos, decorrentes das formas variadas com que as ideias do filósofo alemão foram assimiladas de país a país, de período a período.

“Dizer hoje que você é marxista significa muito pouca coisa”, comentou. “Temos marxistas no PSDB, no PT, no PSOL, no PSTU.”

O legado de Marx, diz Haddad, foi elaborar um método a partir do qual se pode analisar o capitalismo de várias maneiras. 

“Ele percebeu que passamos a ser, no capitalismo, suportes de uma relação que não controlamos. Nos tornamos supérfluos de uma relação que nem mesmo os capitalistas controlam. O socialismo seria uma espécie de reconciliação dos homens entre si e com a natureza.” 

O ex-prefeito argumentou que nunca leu um texto de Marx que defendesse a propriedade estatal. “Ele sugeria que os homens deveriam se apropriar coletivamente dos meios de produção, mas essa visão dele não era uma estatização. Era um sistema de cooperação.”

Após uma explanação inicial do ex-prefeito, Mario Vitor Santos, diretor-executivo da Casa do Saber, perguntou a ele a respeito dos equívocos de Marx, como a previsão de que o capitalismo se esgotaria e daria lugar a um novo modelo. 

“Marx não conseguiu desenvolver a transmutação do capitalismo em socialismo a partir do desenvolvimento da produção. Isso ficou por ser desenvolvido”, disse Haddad.

“Ele imaginou que o trabalhador proletariado iria querer assumir os meios de produção, emancipar-se do assalariamento. Mas notem que o trabalhador quer vender sua força de trabalho”, completou.

De toda forma, analisa Haddad, Marx é um autor fundamental que precisa ser lido. “Enxergou traços da modernidade que só seriam percebidos hoje, 200 anos depois.”

E foi uma questão de hoje que veio à tona no final do debate.

“Se Marx fosse vivo, defenderia sua candidatura à Presidência?”, provocou Mario Vitor Santos.

“Certamente não, mas seria meu amigo”, respondeu Haddad, provocando risos na plateia.
 

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