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Nova operação expõe herança negativa do caso Banestado

Dario Messer, considerado o maior doleiro do país desde os anos 1990, é um dos alvos da Operação Câmbio, Desligo

Mario Cesar Carvalho
São Paulo

Em 2003, ao ser interrogado por um jovem juiz federal chamado Sergio Moro, o doleiro Alberto Youssef desfilou uma lista dos principais doleiros do país: “Um era eu, a Tupi Câmbios, a Acary, a Câmbio Real, o Mecer...”.

O erro na grafia do nome de Dario Messer, considerado o maior doleiro do país desde os anos 1990 e um dos alvos da Operação Câmbio, Desligo, mostra o tamanho da ignorância das autoridades brasileiras sobre esse tipo de criminoso.

O fato de Dario Messer continuar sendo o maior doleiro do país 15 anos depois desse interrogatório sugere que investigações desse tipo são episódicas, com resultados que parecem espetaculares quando deflagradas, mas que viram poeira no final do processo.

Youssef revelou os nomes dos doleiros porque havia feito um acordo de delação premiada, que ele desrespeitaria até ser preso novamente pela Operação Lava Jato, em março de 2014.

Além de Messer, mencionou Kiko, apelido de Clark Setton, preposto de Marco Matalon. Messer e Matalon foram os maiores doleiros do país, segundo os delatores Vinicius Claret e Cláudio Barbosa, e funcionavam como uma espécie de Banco Central de doleiros, a quem os menores recorriam em busca de dólares ou reais.

Eles são conhecidos da Polícia Federal e do Ministério Público há 15 anos, mas conseguiram escapar da prisão com uma estratégia que era conhecida por todas as autoridades: mudaram-se para o Uruguai em 2003, com uma diferença de seis meses.

Os grandes doleiros mudaram seus negócios para Montevidéo porque sabiam que a delação de Youssef traria estragos. Em 2004, na Operação Farol da Colina, o juiz Moro autorizou a prisão de 63 doleiros, acusados pela remessa ilegal de US$ 24 bilhões entre 1998 e 2002.

Farol da Colina era a tradução do nome da conta (Beacon Hill) usada por doleiros brasileiros para fazer remessas para os EUA a partir de uma agência em Foz de Iguaçu do Banestado, banco público do Paraná.

Como a lei autorizava remessas a partir de certas contas, os doleiros criaram milhares de contas falsas nessa agência para enviar o dinheiro para fora do país.

A investigação sobre o Banestado foi uma espécie de curso avançado para a Operação Lava Jato. Foi ali que os procuradores e policiais aprenderam a usar dois dos principais instrumentos da Lava Jato: os acordos de delação e a cooperação com outros países, sobretudo EUA e Suíça.

Essa foi a herança bendita do caso Banestado. Há, porém, uma herança nada positiva. Criminosos confessos como Alberto Youssef, Patrícia Matalon e Clark Setton fizeram acordos de delação na década passada, mas voltaram a cometer crimes, segundo um dos delatores da operação desta quinta (3), Vinicius Claret, o Juca Bala.

Talvez fosse melhor batizar a operação atual com o nome do filme “De Volta para o Futuro”, no qual o personagem viaja ao passado para tentar consertar um erro que cometera 30 anos atrás. Porque os procuradores do Rio estão concluindo uma investigação que começou há 15 anos em Curitiba e ficou inconclusa.

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