Descrição de chapéu Eleições 2018

Em congresso de prefeitos, Ciro se irrita com tempo de fala e sai vaiado

Ele disse que não foi avisado que teria somente cinco minutos para falar sobre temas importantes

Carolina Linhares
Belo Horizonte

​Reforçando a fama de seu temperamento irritadiço, o pré-candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT) protagonizou mais um episódio de discussão nesta terça (19), e foi vaiado após discursar para prefeitos no 35º Congresso Mineiro de Municípios, em Belo Horizonte. 

De uma fala que começou amável, saudando "a gente querida de Minas" e chamando os municípios de "onde bate de verdade o coração da democracia", Ciro terminou exigindo respeito a uma plateia exaltada: "Escuta, escuta, se não eu me retiro". 

Desde o início, Ciro mostrou descontentamento com o pouco tempo de fala que teria para se apresentar. No congresso, cada um dos seis pré-candidatos ao governo federal presentes teria cinco minutos para exposição, responderia a duas perguntas sobre distribuição de impostos em três minutos cada e teria mais cinco minutos para as considerações finais. Álvaro Dias (Podemos), por exemplo, teve o microfone cortado ao exceder o tempo.

Ciro, que costuma fazer longas apresentações sobre economia nos eventos em que é convidado, disse que queria fazer um protesto. "A gente tinha que achar um tempo diferente desse tempo da Rede Globo, que a gente só tem tempo de dizer três coisinhas médias, e falar um pouco mais complexamente e ouvir, mas eu também entendo que são muitos candidatos", disse sob aplausos ainda no começo de sua fala. 

O problema se deu quando Ciro não terminou de responder à primeira pergunta, sobre como distribuir melhor a arrecadação de impostos para os municípios, e foi interrompido pelo apresentador do evento porque o tempo acabara. 

"Eu acho francamente um absurdo você chamar uma pessoa, viaja de avião, pega carona, porque eu não ando de jatinho, estamos falando de uma assunto sério. Eu não gosto de conversa fiada e eu preciso que a população conheça", afirmou ainda aplaudido.

A segunda pergunta, porém, que veio em seguida, era sobre a não distribuição de contribuições com os municípios, tema que ele já havia abordado na resposta anterior. Segundo Ciro, as contribuições deveriam se tornar impostos, para que pudessem ser partilhadas entre os entes da federação. 

Em tom irritado, ele retrucou: "Eu estava falando sobre isso, ele [o apresentador] sequer ouviu e faz a mesma pergunta que eu estava falando e me interrompeu. Então já está respondido".

'CONVERSA FIADA' 

O apresentador, então, falou que Ciro poderia passar aos cinco minutos de considerações finais. A plateia, percebendo que o pré-candidato não iria responder à segunda pergunta, vaiou. Ciro respondeu com ironia.

"Vamos resolver os problemas de vocês com conversa fiada que é muito bom. Conversa fiada é solução pra todo tipo de problema. Não fui avisado que ia falar sobre coisas sérias por cinco minutos. Eu acabei de responder exatamente essa pergunta, vocês acham delicado isso?", questionou.

Diante de manifestações da plateia, que inclusive gritou o nome de Jair Bolsonaro (PSL), pré-candidato que não foi ao evento, Ciro se exaltou ainda mais e pediu respeito ou iria se retirar. 

"Eu sou convidado de vocês. Cadê o Bolsonaro, teu candidato, por que ele não veio?", disse Ciro, voltando a ser aplaudido por um breve momento. "Eu não sou demagogo. Eu quero governar é para restaurar a autoridade dessa baderna que está acontecendo no nosso país."

O presidente da Associação Mineira de Municípios, prefeito ​Julvan Lacerda (MDB), interveio e ofereceu a Ciro os três minutos para responder à pergunta e mais cinco minutos finais. Ciro dispensou os três minutos e, como fala final, emendou apenas: "Muito obrigado a todos", saindo do palco.

A atitude enfureceu a plateia, que vaiou com mais intensidade. Num ambiente de tensão, Ciro deixou o local cercado por sua equipe e sem falar com jornalistas. Comentou apenas que a provocação veio de apoiadores de Bolsonaro e que estava tranquilo. 

Nesta semana, Ciro já provocou polêmica ao chamar o vereador de São Paulo Fernando Holiday (DEM), do MBL, de "capitãozinho do mato".

Ciro não foi, porém, o único vaiado ao discursar em Belo Horizonte. O deputado federal Reginaldo Lopes (PT), que defendeu as propostas do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), pré-candidato preso em Curitiba, também não agradou aos prefeitos. 

Participaram ainda os pré-candidatos Álvaro Dias (Podemos), Paulo Rabello de Castro (PSC), Geraldo Alckmin (PSDB), Henrique Meirelles (MDB) e Marina Silva (Rede). 

REAÇÃO

Durante o evento, o presidente da Associação Mineira de Municípios, prefeito Julvan Lacerda (MDB), de Moema (MG), que era o anfitrião, comentou o episódio do pedetista, ainda que de forma indireta. 

"Esse momento é para conhecer as propostas e o candidato. Ver se a pessoa tem capacidade de administração, de administrar o tempo que tem para apresentar suas propostas, se sabe cumprir regra e se tem pelo menos educação para poder lidar com a gente", disse e foi aplaudido.

"Reclamar que foi pouco tempo... Mas nós também não podemos ficar aqui o dia inteiro só ouvindo o painel dos presidenciáveis. Estamos com um evento grande." ​

A cena de Ciro foi assunto nas rodas de conversa do congresso de municípios. "O povo vaiou e ele foi enfrentar o povo. É destemperado", disse Elias Filho, secretário em Caldas (MG). 

"É atitude de uma pessoa que não mostra capacidade de ser pressionado. E presidente é pressão constante. Mostrou despreparo para o maior cargo do país", disse Francisco Cleber (PR), prefeito de Araújos (MG). 

Para o prefeito João Lopes (PV), de Santa Maria do Suaçui, porém, a discussão não pesou contra Ciro, porque realmente as duas perguntas eram parecidas, o que deixou tudo confuso. "Eu acompanhei ele no congresso de municípios em Brasília e ele foi muito bem. Hoje ele se descontrolou, não foi o dia dele."

 
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