Cartel teve próteses incineradas e danos de R$ 600 mi

Operação aponta que lista de compras de instituto de ortopedia era feita de acordo com prioridades de empresário

Italo Nogueira Lucas Vettorazzo
Rio de Janeiro

As investigações da Operação Ressonância, deflagrada na manhã desta quarta-feira (4) no Rio, apontam que a lista de compras no Into (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia) era feita de acordo com as prioridades do empresário Miguel Iskin, e não das necessidades do hospital.

Policiais federais levam um dos alvos à sede PF no centro do Rio
Policiais federais levam um dos alvos à sede PF no centro do Rio - Fabio Teixeira/Folhapress

A aquisição de material sem demanda provocou, segundo um delator do esquema, a incineração de dois contêineres de próteses com data de validade vencida. A estimativa, considerada conservadora, é de que os danos aos cofres públicos chegam a R$ 600 milhões.

A estrutura do cartel descrito pelo Ministério Público Federal foi detalhada pelas empresas Per Prima e Maquet do Brasil, em acordo de leniência com o Cade, e seus respectivos executivos, Leandro Machado e Norman Gunther, em acordo de colaboração homologada no STF (Supremo Tribunal Federal).

Machado afirma que Iskin tinha controle sobre os empenhos vindos de Brasília para o Into com o objetivo de aquisição de próteses. Ele também organizava as licitações, indicando quem seria o vencedor e as propostas de cobertura para dar a falsa impressão de disputa no certame.

"Os pedidos de empenhos dos grandes grupos joelho, quadril, coluna, trauma e ombro, eram feitos de acordo com a necessidade de venda da Oscar Iskin, e não de compra do Into, e que isso causava sobra de estoque", disse Machado, relatando em seguida a incineração de próteses.

Os investigadores identificaram também a compra de 80 mesas cirúrgicas, sendo que não haveria local suficiente para essa quantidade de cirurgias no instituto.

Houve ainda casos em que a licença de importação de determinados equipamentos ortopédicos foi cassada, o produto não foi entregue, mas pago. 

Em um projeto chamado de Suporte, o Into intermediava a compra de equipamentos de ortopedia para o SUS em outros estados do país. Em nove licitações no escopo desse projeto, o TCU não identificou a entrega de materiais no valor de R$ 80 milhões, de um custo total das compras de R$ 180 milhões. Segundo o TCU, existem fortes indícios de que os equipamentos nem sequer foram entregues.

A Per Prima listou ao Cade 70 licitações afetadas pelo cartel, com o envolvimento de 37 empresas.

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