Descrição de chapéu Eleições 2018

Entro na política como mais uma intrusa, diz Márcia Tiburi sobre pré-candidatura no Rio

Filósofa afirma que circunstâncias históricas a levaram disputar o governo fluminense pelo PT

Catia Seabra
São Paulo

Feminista, escritora, professora de filosofia, artista plástica e, agora, pré-candidata, a gaúcha Márcia Tiburi aceitou o convite do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva para concorrer ao Palácio Guanabara pelo PT. 

Aos 48 anos —quatro deles morando no Rio—, Tiburi diz que não pretendia se candidatar, mas que as circunstâncias históricas a levaram a aceitar. Um dos motivos, diz, foram as mulheres.

 

“Não basta se dizer feminista, falar do feminismo, ser feminista, expor uma compreensão de mundo feminista. Você tem que fazer alguma coisa. Ir para a ação."

Na sala de seu apartamento, na Praia do Flamengo, ela avisa: “Não posso fingir que não penso certas coisas”.

Tiburi se declara a favor da legalização do aborto e das drogas no Brasil.

 

'INTRUSA'

O capitalismo impera sobre os corpos. As mulheres são corpos marcados para não entrar na política. Qualquer mulher que faz política, que entra numa participação mais direta na vida parlamentar, é considerada uma intrusa. Entro na política como mais uma intrusa. No Rio de Janeiro, a gente vai ter provavelmente só candidaturas de homens; são sempre os mesmos. 

CANDIDATURA

Entro com essa causa que, a meu ver, é a causa das mulheres, do povo, do cidadão comum, do Estado. Se isso vai ser bom ou não do ponto de vista do voto, me importa bem menos. Sou uma professora de filosofia e meu desejo é fazer uma experiência espiritual. Uma experiência de linguagem, uma experiência de politização. Não é uma campanha que um político profissional faz para vencer. Não é esse meu objetivo, em que pese que eu ache que a gente vai vencer fazendo assim.

CORAGEM

Provavelmente eu só esteja neste lugar porque é um lugar muito perigoso e que requer uma tremenda coragem. Coragem é um atributo feminino. As mulheres são corajosas. Os homens raramente são corajosos. São em geral mais violentos que corajosos. Eu me sinto mais no lugar da pessoa que está no dever ético, político, para com minhas companheiras e companheiros. Um dever que está relacionado à forma de eu pensar a vida. Mas não é um título honorífico. É por muito amor à causa, ao Rio.

PT

Me filiei na contramão de um processo. No momento em que está todo mundo abandonando o barco, você pula no barco. Você vai para dentro tentar consertar o barco e amparar os ameaçados. Quem fica por último ou é pessoal que está na base, que acredita na viagem, ou é o comandante… A metáfora é boa mesmo porque o comandante era o Lula…

CANDIDATURA DE LULA

Tenho muita esperança de que isso seja possível, embora, conhecendo o jogo e os princípios daqueles que conspurcam a democracia hoje, tenha muito receio de que a gente não vá nem ter eleição e que o Lula não vá ser candidato. Mas vamos trabalhar com otimismo. 

ABORTO

Embora não seja atribuição do Estado, se alguém perguntar, vou responder. Porque não estou entrando como uma pessoa que vai fazer uma cena. Sou esta pessoa aqui, posso tentar dar o melhor de mim, ser a pessoa mais elegante e respeitosa do mundo. Mas não posso fingir que não penso certas coisas. Sou a favor da legalização do aborto.

DROGAS

Em princípio, sou a favor da legalização das drogas, porque vejo drogas legalizadas. Se hoje proibíssemos o álcool como droga legal, seria péssimo para o país. A legalização do álcool produz uma indústria incrível, um comércio incrível. Um comércio legal. Não se vende a droga álcool para meninos com menos de 18 anos. Mas os adultos responsáveis podem fazer uso recreativo. O Brasil é melhor por conta disso. Olha a glamourização do álcool. Essa classe média moralista que é contra a maconha e que compra, seus filhos e eles próprios compram, maconha e outras drogas na periferia. A gente poderia legalizar as drogas para sair dessa hipocrisia. […] Seria muito a favor de a gente fazer um projeto, um plano responsável do ponto de visto social, para que se legalizassem todas as drogas dentro de um tempo para que a gente pudesse preparar a legalização. Não sou a favor de fazer ao Deus dará. Estou muito apaixonada por essa ideia de curar essas feridas políticas e sociais.

ESTADO

Tenho muita vontade de defender um projeto de desenvolvimento que gere emprego. Para gerar empregos, não vejo que o Estado deva diminuir. O Estado deve aumentar. A gente deve fortalecer o Estado em vez de fazer esse discurso neoliberal de Estado mínimo.

CRISE

A gente vai ter que cobrar as dívidas que o Rio tem a receber e fazer uma negociação em nível nacional. 

Fora disso não tem como construir nada no Rio, em que pese que a gente vá buscar alternativas as mais diversas. Acho muito difícil fazer isso em um período em que o capitalismo e os capitalistas de todo os Estados, do Brasil e do mundo não estão interessados em investimentos.   

INTERVENÇÃO

É uma das coisas mais tristes que estão acontecendo no Rio. Estamos vivendo uma intervenção que transformou a segurança em um simples mercadoria, o que faz parte do projeto neoliberal. O medo é manipulado para que a haja um lucro. 

UPPs

A ideia da pacificação é uma ideia violenta. Assim como a intervenção militar. Quem pode pensar que vindo de fora vai resolver os problemas internos das pessoas, os problemas das comunidades? Isso é agressivo, invasivo e violento. Tem uma indústria da segurança que vive de uma propaganda do medo. Você tem que estar com medo. Você tem que estar inseguro porque compra. Isso conspurca a ideia de segurança. 

ASSALTO

Quem assalta quem? Quem rouba quem? A acumulação capitalista e rentista pode ser considerada um assalto, a própria mais-valia, no sentido de que você explora a vida dos outros. A gente já poderia dizer que o capitalismo é a própria lógica do assalto. Quando um indivíduo resolve assaltar, seja para comer, para comprar ou se dar bem da vida, ele não está sendo diferente do capitalista que o explorou e o colocou naquela posição de criminoso, sendo que o criminoso é uma vítima do sistema. 

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