Descrição de chapéu Eleições 2018

PSOL lança Guilherme Boulos e sonha liderar a esquerda

Líder do MTST não tem envolvimento em escândalos de corrupção e é bem-visto por movimentos progressistas

Marco Rodrigo Almeida Renan Marra
São Paulo

Ao lançar oficialmente em São Paulo sua candidatura presidencial neste sábado (21), o PSOL almeja, mais que chegar ao Palácio do Planalto, alcançar uma posição de liderança no campo da esquerda brasileira.

Uma vitória de Guilherme Boulos, o candidato do partido, hoje parece mais que improvável. Na última pesquisa Datafolha, divulgada em junho, ele oscilava entre 0% e 1% das intenções de voto. Coligado apenas com o PCB, o PSOL disporá de aproximadamente 13 segundos na propaganda eleitoral na TV e no rádio. 

Partido e candidato, porém, vislumbram a longo prazo um cenário bem mais favorável que os números de agora deixam supor. Aposta-se em Boulos como um sucessor natural do ex-presidente Lula (PT), hoje preso por corrupção e virtualmente inelegível pela Lei da Ficha Limpa, no comando da esquerda.

Além da semelhança física com o Lula sindicalista dos anos 1970, outros pontos ligam Boulos ao petista. Os dois ganharam projeção política ao liderar grandes movimentos sociais –o ex-presidente organizou as primeiras greves do ABC durante a ditadura militar; o pré-candidato do PSOL é coordenador nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto)–, angariando apoio também de intelectuais e artistas.

Lula reconheceu às semelhanças em discurso feito em São Bernardo (SP) antes de se entregar à Polícia Federal, em 7 de abril. Nem mesmo políticos petistas receberam do ex-presidente tantos elogios quanto Boulos.

"Ele só tem 35 anos de idade, e, quando eu fiz a greve de 78, eu tinha 33 anos e consegui, através da greve, chegar a criar um partido e virar presidente. Você tem futuro, meu irmão, é só não desistir", disse o ex-presidente.

Aos olhos do PSOL, esse futuro também era evidente. Boulos pareceu ser candidato ideal para vencer a desconfiança da população em relação aos políticos tradicionais.

É um nome jovem (36 anos), novo na política, sem envolvimento em escândalos de corrupção, bem-visto por movimentos progressistas. 

Cortejado pelo partido, Boulos filiou-se em março deste ano e desbancou quadros históricos do PSOL, como Chico Alencar e Plinio de Arruda Sampaio Jr., que buscavam a candidatura à Presidência. 

"Cogitamos que seria mais apropriado um nome reconhecido pela atuação em movimentos sociais", diz Alencar. "Boulos é uma liderança consolidada, jovem, tem grande inserção na mais expressiva luta do ponto de vista urbano, a da moradia. Ele vai brilhar na campanha."

 

Também houve, entretanto, reações bem menos entusiasmadas à escolha do líder do MTST como candidato. Setores da agremiação temem que a proximidade com Lula leve o programa de governo de Boulos a ficar próximo demais ao do PT, partido do qual o PSOL é uma dissidência por discordar dos rumos tomados no governo Lula.

"A candidatura de Boulos representa um recuo em direção ao PT, um retrocesso. Como Lula, Boulos propõe soluções cosméticas, sem alterar as estruturas do país", diz Sampaio Jr.

Ele cita como exemplo o programa econômico. Sampaio Jr. e uma ala do PSOL defendem o não pagamento da dívida pública como forma de recuperar a capacidade de investimento do Estado, enquanto o material apresentado por Boulos, por ora, fala em estabilizar a dívida pública em proporção do PIB.

Na área social, o partido abraça pautas que julga não contempladas por outras siglas de esquerda, como o direito ao aborto, a desmilitarização da polícia, a legalização da maconha e direitos da população LGBT.

Em contraposição a outros partidos, a candidatura do PSOL conta com uma série de particularidades. A vice de Boulos, Sônia Guajajara, será a primeira indígena a compor uma chapa para disputar a Presidência. Para ele, a parceria é simbólica sobre o projeto do partido para o Brasil.

Outra curiosidade é que a campanha não conta com marqueteiro. Segundo o presidente do PSOL, Juliano Medeiros, o partido não tem a intenção de "fabricar" o seu candidato, prática que diz ser comum entre os concorrentes. Sem o profissional, Boulos terá de superar sua dificuldade de sorrir em público.

Admitindo que o PSOL é exigente na hora de formar alianças, Medeiros diz que não é preciso ter a maioria no Congresso para governar. 

"Boulos é o novo. Bolsonaro, Alckmin e Meirelles representam o velho e são inimigos do Brasil", afirma.

 

Guilherme Boulos, 36

Naturalidade 
São Paulo (SP)

Formação e cargos
- Formado em filosofia pela USP
- Mestre em psiquiatria na Faculdade de Medicina da USP
- É coordenador nacional do MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto)

Partido e coligados
PSOL; conta com o apoio do PCB

Marqueteiro 
Não tem

Coordenador econômico 
Programa contou com a colaboração dos economistas Laura Carvalho, Marco Antonio Rocha, José Luis Fevereiro, entre outros.

Slogan
"Sem Medo de Mudar o Brasil"

Pontos fortes
- Grande base popular de mobilização
- Não tem envolvimento em escândalos de corrupção
- Pode receber os votos da esquerda desiludida com o PT

Fragilidades
- Tempo de TV pequeno
- Resistências internas no PSOL contra sua candidatura
- Visto com desconfiança por setores da sociedade por comandar ocupações de terrenos e prédios públicos

Mote
Luta contra a desigualdade, ampliação da democracia direta, defesa do direito ao aborto e da legalização da maconha

Frases que sempre usa
- "Nós não vamos governar para o 1%: o mercado já falou demais, agora é a vez de escutar o povo"
- "Vamos dar o poder para as pessoas e diminuir o dos políticos profissionais"
- "Tenho orgulho de andar com os sem-teto e com os sem-terra. Só não ando com sem-vergonha, ao contrário de muitos" 
- "O Brasil é uma Disneylândia do mercado financeiro"

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