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Convenção do PSB de Minas para lançar Lacerda tem tumulto e briga jurídica

Direção do partido diz não reconhecer o resultado da reunião que terminou em agressões

Carolina Linhares
Belo Horizonte

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 A convenção do PSB de Minas Gerais, organizada por apoiadores do ex-prefeito Márcio Lacerda (PSB) para lançá-lo ao governo, neste sábado (4) pela manhã em um hotel, terminou em confusão, briga e empurra-empurra quando membros da nova direção do partido no estado, inimigos do candidato, chegaram ao local.  

A convenção marcada para lançar Márcio Lacerda candidato teve confusão quando o deputado Júlio Delgado, chegou ao local para ler decisão do TSE que invalida o encontro
A convenção marcada para lançar Márcio Lacerda candidato teve confusão quando o deputado Júlio Delgado chegou ao local para ler decisão do TSE que invalida o encontro - Carolina Linhares/Folhapress

O presidente do PSB em Minas, René Vilela, e o deputado estadual Júlio Delgado (PSB-MG), também membro da direção, foram recebidos aos gritos de "golpista" e não conseguiram fazer uso do microfone. A nova direção defende a posição do partido de retirar a candidatura de Lacerda, que resiste, para favorecer o PT

Instalou-se um tumulto, que durou cerca de 40 minutos, com as alas opostas do partido se xingando,  acusando, agredindo e entoando gritos de ordem.  Lacerda não estava presente no momento. 

Segundo Delgado, havia pessoas armadas no meio da confusão. Apoiadores de Lacerda, por sua vez, relatam terem sofrido agressões físicas e querem apurar se houve homens contratados para criar o tumulto. 

A direção estadual afirmou que foi ao local para comunicar aos militantes sobre uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que invalida a convenção. O lado de Lacerda rebate afirmando que a convenção está amparada em outra decisão, do Tribunal Regional Eleitoral de Minas Gerais (TRE-MG). 

No meio da gritaria, a convenção foi encerrada às pressas, com os membros do partido aprovando todos os nomes colocados como candidatos, principalmente o de Lacerda. Sua campanha quer registrar a candidatura o quanto antes na Justiça Eleitoral, contrariando a ordem do PSB nacional. 

Em nota, a direção nacional do PSB afirmou não reconhecer a candidatura de Lacerda e nem o resultado da convenção, e que irá anulá-lo na convenção nacional, que acontece no domingo (5), em Brasília. 

Após o encerramento da convenção em BH, Lacerda discursou a simpatizantes. O ex-prefeito da capital mineira pediu aos militantes que fiquem com ele independentemente do resultado da briga jurídica, que disse ser espinhosa. Segundo ele, Minas viveu um momento histórico se insurgindo contra os porões da velha política.

"Vocês acabam de viver momento histórico em Minas Gerais. [...] Vocês vieram aqui me ajudar a resistir a uma investida do porão da velha política e mostrar que não vão se entregar àqueles que querem destruir a confiança do povo na democracia. Vamos resistir até onde for possível, e vocês podem ter certeza que nos últimos dois ou três dias a chama de revolta se ascendeu em Minas", disse.

Em entrevista à imprensa após a convenção, Lacerda chamou a confusão de "episódio de selvageria". "Foram atos de pura loucura de alguém desesperado para impor na marra seu projeto pessoal", resumiu.

ACORDO

A briga em torno de Lacerda teve início na quarta (1º), quando o presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, decidiu retirar a candidatura do pessebista ao governo de Minas para beneficiar a reeleição do governador Fernando Pimentel (PT). A Lacerda foi oferecida uma vaga ao Senado na chapa petista, mas ele não aceitou e decidiu manter a candidatura a todo custo

O movimento do PSB fez parte de um acordo com o PT de apoio mútuo nos estados para isolar a candidatura presidencial de Ciro Gomes (PDT). Seguindo o acordo, em Pernambuco, o PT retirou a candidatura de Marília Arraes (PT) ao governo para apoiar a reeleição de Paulo Câmara (PSB).

Com a resistência de Lacerda, Siqueira derrubou, na quinta (2), a direção do PSB em Minas, favorável ao ex-prefeito, e nomeou uma nova, contrária a ele. Na sexta (3), o partido cancelou a convenção que estava marcada para este sábado pela manhã, alegando que havia erros como delegados não filiados ao PSB, e convocou nova reunião para domingo (5). 

Uma decisão do TRE-MG, porém, na noite de sexta, desautorizou a troca no comando do partido em Minas e manteve a validade da primeira convenção, convocada pelos apoiadores de Lacerda. Minutos depois, uma nova decisão em outra ação, dessa vez do TSE, rejeitou a tese de Lacerda e legitimou a nova direção do PSB em Minas.

Amparado na decisão do TRE e afirmando que ela não tem relação com a decisão do TSE, ou seja, que uma não se sobrepõe ou invalida a outra, o advogado da campanha de Lacerda, José Sad Jr., diz que a convenção deste sábado tem validade. 

Sad afirma que a intervenção do PSB nacional em Minas, para impedir a candidatura de Lacerda, só poderia ocorrer se ele tivesse violado alguma norma partidária e que isso não ocorreu.

A nova direção, porém, afirma que a decisão do TSE é que vale e que, mesmo que Lacerda seja referendado candidato em convenção, a direção nacional do partido tem o poder, segundo normas internas, para invalidar sua candidatura. 

FUTURO

Segundo Lacerda, os partidos que caminhavam para fechar com ele uma ampla coligação ( PDT, Pros, Podemos, PV, MDB)  estão aguardando o desenrolar jurídico na esperança de poderem manter a aliança. O ex-prefeito ponderou, porém, que a insegurança de sua candidatura pode afastar os aliados

Seu plano é mensurar, na segunda (6), qual o tamanho de sua aliança para estudar a viabilidade de sua candidatura. Lacerda estava em terceiro lugar nas pesquisas, atrás de Antonio Anastasia (PSDB) e Fernando Pimentel (PT). Com a possibilidade de ter maior tempo de TV, construía uma terceira via num estado que há anos polariza a disputa entre PT e PSDB.

Caso seja derrotado juridicamente, porém, Lacerda diz que irá lutar mesmo sem ser candidato, mas ainda não decidiu que outro candidato apoiaria em Minas. Em relação à Presidência da República, ele defende Ciro Gomes (PDT) ---ele chegou a ser cotado como vice do pedetista, mas desistiu ao ver a candidatura em Minas ficar robusta.


Lacerda afirmou que estará na convenção nacional do PSB, em Brasília, no domingo, para defender sua candidatura e votar para que o partido apoie Ciro —apesar do acordo firmado entre PSB e PT para isolar o pedetista. 

Ainda em entrevista à imprensa, Lacerda rebateu as falas do presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, de que sua candidatura era fictícia e, portanto, não seria levada a cabo mesmo se não houvesse o acordo com o PT. 

Lacerda disse que trabalhava pela candidatura há dois anos, realizando mais de 600 encontros em quase 200 cidades, e que tinha o respaldo da direção. O ex-prefeito afirmou que ainda decidirá sobre manter-se filiado ao PSB, dizendo que o ato do partido foi um suicídio. 

"Isso desqualifica o partido para ocupar o espaço de esperança. Tive convites para ir a outros partidos e não fui, agora estou me frustrando", disse.

"Lamentei que o partido está jogando na lama a oportunidade de se firmar como uma autoridade política e ideológica de uma forma absolutamente suicida. Isso desqualifica o partido para ocupar o espaço de esperança. Tive convites para ir a outros partidos e não fui, agora estou me frustrando", disse.

CIRO

Ciro Gomes encontrou-se com Lacerda neste sábado, em Belo Horizonte, depois de participar da convenção do Avante e do PDT na capital mineira. 
"Após participar da convenção do PDT de Minas Gerais, fui dar um abraço no companheiro Márcio Lacerda, que foi vítima de uma punhalada pelas costas. Fiquei feliz de saber que ele vai resistir e lutar", escreveu Ciro em rede social ao publicar uma foto do encontro, que durou quase uma hora. 

Na convenção de Lacerda, pela manhã, houve gritos de "Ciro presidente". A apoio entre os dois aliados deve perdurar, mesmo se a candidatura de Lacerda não prosperar e apesar do PSB ter descartado apoiar o pedetista nacionalmente. 

Em Minas, o PDT já tinha aliança com Lacerda. Em entrevista à Folha, o presidente do partido no estado, Mário Heringer, admitiu que hoje está mais próximo de Rodrigo Pacheco (DEM) devido à insegurança sobre a candidatura de Lacerda. O PDT, porém, vai segurar a decisão até domingo.

 Para o partido, é importante garantir um palanque a Ciro no estado. Ciro, por sua vez, também admitiu durante a passagem por BH que Pacheco pode ser uma boa alternativa. O democrata provavelmente herdará a terceira via construída por Lacerda ---os dois se opõem a Anastasia (PSDB) e Pimentel (PT). 
 

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