Descrição de chapéu Otavio Frias Filho

Lendo Tavinho, não temos complexo de vira-lata, diz Caetano sobre Otavio Frias Filho

Compositor fala de sua relação com jornalista e dramaturgo morto aos 61 anos

Marcos Augusto Gonçalves
São Paulo

Leia depoimento do compositor Caetano Veloso sobre Otavio Frias Filho, diretor de Redação da Folha, morto nesta terça-feira (21) aos 61 anos em São Paulo.

 

"Tavinho Frias é uma grande figura da história recente de nossa cultura. A Folha é, agora mesmo, o jornal mais quente do Brasil. E assim tem sido desde os anos 1980.

Pessoalmente, sinto mais excitação diante das manchetes, das colunas, das críticas, das fotografias, se elas vêm na Folha.

Ali virou-se uma chave que acendeu a chama da imprensa brasileira para mim, para as pessoas da minha geração e para as que vieram depois. Os críticos de música popular da Ilustrada foram os primeiros, na esteira tropicalista e em sincronia com o nascimento do BRock, a ter atitude pós-60s, escrevendo de modo atrevido e independente.

Foi com quem mais frequentemente (mas não mais amargamente) briguei. A Ilustrada, liderada por meu amigo Matinas Suzuki, atuava em ambiente mental mais próximo. 

Há anos dedico mais tempo lendo o primeiro caderno. O essencial não esfriou. Articulistas de direita cresceram em número e em entusiasmo. Eram inevitáveis e tornaram-se moda. O jeito investigativo intensificou-se. Janio de Freitas segue escrevendo no mesmo espaço que Reinaldo Azevedo.

Toda essa vitalidade se deve ao fato de o filho do velho [Octavio] Frias [1912-2007] ter talento para o jornalismo e para a literatura. Seu livro “Queda Livre", com seus 'ensaios de risco', é uma joia da nossa prosa. Lendo-o, parece que nem teríamos por que ter complexo de vira-lata. É uma das obras mais elegantes em seu gênero, no mundo todo.

Conheci Tavinho pessoalmente: num jantar em casa de amigos, perguntei-lhe se tinha lido 'Ilusões Perdidas' [Balzac], e ele respondeu 'não', com cara de quem não apenas dizia que perdia o interesse em falar comigo diante de tal pergunta, mas de quem já tinha chegado a ela desinteressado.

Claro que penso, como todos, no histórico da Folha durante a ditadura, que tenho a mesma suspicácia diante de órgãos de imprensa que parecem todos eternamente dispostos a eleger Alckmins, que discordo do que Tavinho escreveu sobre Mangabeira.

Mas amo a imprensa e suas tretas, e acho Tavinho tão educado que fez a cena que narrei (a das “Ilusões Perdidas") dar-se sem a menor sugestão de hostilidade ou desrespeito. Fiquei muito triste com o fato de ele morrer tão jovem —e acho que temos muito o que lhe agradecer."

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