Morte de líder indígena foi por afogamento, diz perícia; caso é lembrado em prêmio no Rio

Cantora Maria Gadú usou cocar durante cerimônia; nas redes pela líder indígena Sonia Guajajara

Monica Prestes
Manaus

Perícia apontou que a morte do líder indígena Jorginho Guajajara foi por afogamento. O  corpo foi encontrado na manhã do último domingo (12) no município de Arame, no Maranhão —uma das seis cidades maranhenses englobadas pela Terra Indígena Araribóia, onde índios vivem em conflito com caçadores e madeireiros.

A informação foi dada pelo superintendente de Polícia Civil do Interior do Maranhão, Armando Pacheco, que acompanha as investigações. Apesar de não terem sido encontradas marcas de violência no corpo do indígena, a polícia ainda não descartou a hipótese de homicídio.

No Rio, durante o Prêmio da Música Brasileira, na noite desta quarta (17), a cantora Maria Gadú, que é de família indígena, se apresentou com o rosto pintado, segundo ela, em protesto contra a morte de Jorginho Guajajara. A também indígena e candidata à vice-presidência pelo PSOL Sonia Guajajara, que adotou o nome de sua tribo, também se manifestou nas redes sociais, cobrando celeridade nas investigações e mais respeito aos povos indígenas.

 
A líder indígena Sonia Guajajara usando cocar
A líder indígena Sonia Guajajara, vice-presidente na chapa do PSOL - Pedro Ladeira - 22.02.2018/Folhapress

A morte do cacique está sendo investigada pela Delegacia Regional de Barra do Corda, município próximo de Arame, e acompanhado pela Superintendência de Polícia Civil do Interior do Maranhão, além da Polícia Federal e da Funai (Fundação Nacional do Índio), que devem ser acionados caso sejam encontrados indícios de que houve crime, explicou Pacheco.

Como em Arame não há IML (Instituto Médico Legal), um médico do hospital do município foi nomeado perito e constatou a morte por afogamento, sem sinais aparentes de violência nem marcas de tiros ou golpes de faca, o que, na visão do superintendente, sugere que Jorginho foi vítima de um “acidente”.

A polícia reuniu a declaração do médico e também o termo de declaração da mulher do cacique. "Ela [mulher] fala que ele era alcoólatra, saía de casa e passava o dia bebendo, muitas vezes sendo encontrado na sarjeta. Nesse dia (do crime) ele saiu para beber no sábado e foi encontrado morto no dia seguinte, com um forte odor de álcool”, afirmou Pacheco.

Ainda segundo o superintendente, o relatório inicial elaborado pela Delegacia Regional de Barra do Corda e o depoimento da esposa de Jorginho reforçam a hipótese de morte acidental por afogamento, uma vez que ambos alegam que a vítima “não tinha problemas com ninguém, conflito com madeireiros nem rixas por terra”. 

“Ainda não sabemos o que está por trás dessa situação, mas, mesmo com os indícios de que se trata de um acidente, foi instaurado inquérito, que tem 30 dias para ser concluído”, informou Pacheco.

A Terra Indígena Araribóia, onde vivem os guajajara e também índios isolados da etnia awá guajá, é uma das últimas áreas protegidas remanescentes no Maranhão, que já perdeu mais de 70% de sua cobertura florestal original, de acordo com o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). 

A área, de pouco mais de 413 mil hectares, é palco de conflitos de terra entre indígenas, caçadores e madeireiros há anos, aponta o Instituto Socioambiental, organização civil que aborda questões sociais e ambientais.

O ISA foi uma das entidades que denunciou a morte de Jorginho Guajajara como um assassinato, na última quarta-feira (15), após anúncio feito pela ONG Survival International. 

Segundo o ISA, outras lideranças indígenas afirmaram que o corpo de Jorginho, que era cacique da aldeia Cocalinho 1, foi encontrado às margens do rio Zutiwaia com o pescoço quebrado, na manhã de domingo, na entrada da cidade de Arame, que faz fronteira com a terra indígena. A polícia não confirmou a informação de que o pescoço do indígena fora quebrado.

Ainda de acordo com o ISA, lideranças dos Guajajara reclamaram da morosidade nas investigações e apontaram o ativismo ambiental de Jorginho como uma das possíveis motivações para sua morte, que eles acreditam ter sido criminosa. Entre elas está Marçal Guajajara, para quem o cacique foi morto por não-indígenas, em decorrência dos conflitos com madeireiros por conta das invasões na terra indígena.

Outro líder indígena, Vitorino Guajajara relatou, segundo o ISA, que, por conta do conflito entre indígenas e madeireiros, existe um “toque de recolher” na cidade de Arame às 22h e, após esse horário, os indígenas ficam proibidos de circular nas ruas. Para ele, Jorginho descumpriu essa regra. 

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