Descrição de chapéu Otavio Frias Filho

Otavio Frias Filho: A vingança dos nerds

Texto publicado originalmente em 11 de maio de 1995

Otavio Frias Filho

O texto 'A vingança dos nerds' foi publicado originalmente em 11 de maio de 1995, na seção Opinião.

 

Um filme lamentável, desses que depois viram uma série de filmes ainda piores, consagrou há poucos anos a gíria americana nerd para designar o adolescente desajustado. Não o desajustado de Marlon Brando ou James Dean, mas o seu contrário: o cdf, o franzino, o epileptóide.

Desprovidos de vitalidade (esse o seu crime), escorraçados das festinhas e das quadras, os nerds se trancaram em seus quartos. Cada um se julgava a aberração da natureza, embora eles formassem, na verdade, uma multidão de feiosos, desajeitadas vítimas da cruel adolescência.

E foi assim, por falta de alternativa, sempre propensos a qualquer onanismo tecnológico, substitutivo, que os nerds se tornaram ases da informática. Bill Gates foi seu profeta. Ele anunciou ao povo nerd, expulso do mundo criatural, que uma terra prometida os esperava do lado de lá da realidade.

Sentados com várias pessoas em volta, jovem garoto olha para a tela do computador ao lado de Bill Gates, que está sorrindo de terno e gravata
Bill Gates (esq.) olha para tela de um computador ao lado de um estudante em Tóquio, no Japão - Toru Yamanaka-25.fev.2003/AFP

Visite qualquer banco pós-moderno, desses que realizam as maiores taxas de lucro desde que os fenícios inventaram os juros. Quem ocupa o centro das virtualidades, vestidos de mórmon e grudados à tela dos videogames? Sim, é possível falar numa vingança dos nerds.

Neste esboço introdutório a uma sociologia nerd, ainda por ser escrita, vale mencionar que sempre existiram adolescentes cujo desajuste se volta, do ângulo psicológico, para "dentro" e não para "fora". São a base imensa de um iceberg do qual só vemos a ponta da delinquência juvenil.

Em sentido figurado, os míopes, os gorduchos, os ruivos e os inibidos são nerds, assim como a quase totalidade dos enxadristas. Nada mais nerd do que menstruar cedo ou tarde demais, como Carrie, a protagonista da história de Stephen King que virou filme de Brian De Palma. A mania de coleções é nerd. A matemática também.

As estimativas mais confiáveis fixam a taxa histórica de nerds, entretanto, em patamar não superior a 10% da população. Como é possível que na nossa época eles cheguem a parecer maioria, com papel destacado na mídia, na política e até no esporte?

Por um lado, os nerds "saíram do armário", encorajados por uma cultura que não mais exige e até condena quem pareça normal. A moda, sempre parâmetro do que é aceitável, tornou-se um desfile de tediosas esquisitices e transgressões que anulam umas às outras.

Mas essa mesma cultura estabelece um ideal de tal maneira imperioso, em termos de desempenho e aparência individuais, que ele tritura o narcisismo liberado em cada um de nós. Todo mundo passa a ser nerd; as mulheres se acham obesas ou disformes, os homens imprestáveis.

Somos péssimos pais e filhos, péssimos cônjuges, péssimos amigos. Quanto mais possibilidades de realização nos forem dadas pela propaganda, pela TV, pelo shopping center, tanto piores seremos. Tudo o que é mais significa, nesse sentido, menos.

Comentada do ponto de vista objetivo, na semana passada, a Internet representa também uma síntese subjetiva. Só ela concilia vetores tão antagônicos, só ela reúne exibicionismo e anonimato, solidão e companhia, Narciso e Tânatos: só ela é sexo de fato seguro, nerd. 

Otavio Frias Filho
Otavio Frias Filho

Diretor de Redação

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