Descrição de chapéu Otavio Frias Filho

Otavio Frias Filho: Dostoiévski concentrado

Texto publicado originalmente em 12 de novembro de 2000

Otavio Frias Filho

O texto 'Dostoiévski concentrado' foi publicado originalmente em 12 de novembro de 2000, no antigo caderno Mais!. 

 

Em "Memórias do Subsolo", o escritor russo fixa formas e idéias que aprimoraria nos seus grandes romances, como "Crime e Castigo" e "Os Irmãos Karamazov"

O relançamento de um livro importante é sempre oportuno, mas há outras razões para comemorar a iniciativa da Editora 34 de reeditar "Memórias do Subsolo", de Dostoiévski (1821-1881). É uma nova oportunidade para apreciar a célebre tradução que Boris Schnaiderman fez do russo, seu idioma natal, publicada pela primeira vez em 1961. Além disso, o leitor jovem ou principiante encontra, nesse pequeno volume (148 págs.), a novela que é considerada o "prefácio" dos grandes romances que viriam a seguir: "Crime e Castigo" (1866), "O Idiota" (1869), "Os Possessos" (1871) e "Os Irmãos Karamazov" (1880). "Memórias do Subsolo" é de 1864. Foi neste texto que Dostoiévski fixou seu programa como escritor e pensador moral, e nele está contida a melhor síntese do que viria a seguir.

Dostoiévski não é um autor para leitores livrescos, que em geral abominam seus exageros dramáticos; jovens e principiantes formam seu público ideal, capaz de desenvolver uma intensa empatia com os dois níveis em que se pode decompor sua prosa. O nível mais imediato ou narrativo é feito de tramas complicadas, melodramáticas e detetivescas. O fio condutor dos acontecimentos é o relato de algum crime terrível, reconstituído em obsessivo detalhe. Como nas histórias policiais, o crime pode ocorrer a título de catarse final, depois de o autor haver esticado as cordas do suspense até sua máxima tensão ("Os Possessos"); outras vezes, ele acontece no começo ou no meio da trama, para que acompanhemos o inquérito contra um inocente ("Karamazov") ou um culpado ("Crime e Castigo").

O escritor russo Fiodor Dostoiévski (1821-1881)
O escritor russo Fiodor Dostoiévski (1821-1881) - Reprodução

Em redor desse episódio central, Dostoiévski amontoa funcionários arruinados, prostitutas arrependidas, estudantes depressivos, uma humanidade pequena e miserável que mora em cortiços e perambula pelas ruas e tavernas, frequentando as diversas subtramas de seus romances. Apesar de todo o poder descritivo de Dostoiévski e da originalidade com que ele retorce seus enredos, há um aspecto de pieguice nessa atmosfera saturada de vodca barata e sentimentalismo. Os vilões psicopatas ou epilépticos de

Dostoiévski, seus indefectíveis órfãos e viúvas e mocinhas prontos a sacrificar tudo por um nobre ideal —existe algo de estereotipado, de convencional e até desleixado nessas composições. Tais falhas num grande escritor sempre foram devidamente exploradas contra Dostoiévski, mas o terão ajudado a se converter num autor popular, apto a "prender a atenção" do leitor mais refratário e a formar um amplo círculo de aficionados, que ainda hoje o lêem e relêem num estado febril semelhante ao que mantém seus personagens numa névoa de lucidez e delírio. André Gide afirmou que Dostoiévski seria o maior dos romancistas mesmo que sua obra se limitasse a esse nível narrativo, sem lhe acrescentar as "profundezas filosóficas" que o envolvem. Pois subjacente ou superposta ao melodrama policial, articulada com ele pela motivação de criminosos que viveram situações extremas ou limítrofes, está uma camada de dilemas morais aptos a representar a própria condição humana confrontada com a morte, a dor, o mal e a descrença. A literatura de Dostoiévski é uma temerária fusão do gênero "policial" com a especulação metafísica. Seu sistema moral é muito claro e pode ser figurado por uma forma circular em que os extremos de abjeção e pureza, de maldade e de altruísmo se tocam. Ele despreza os estágios intermediários em que se acomoda o filisteísmo da maioria dos seres humanos para concentrar seu interesse nos casos extremos -mórbidos, místicos ou delinquenciais-, tomados como bilhete para a transcendência e a iluminação. Vladimir Nabokov, o mais temível inimigo de Dostoiévski, a quem chamou de escritor "bastante medíocre", satirizava o modo como seus personagens abrem caminho até Jesus a golpes de pecado.

Além de autor de um dos romances mais famosos do século 20, Nabokov é um crítico brilhante, engraçado e idiossincrático, e nenhuma devoção a Dostoiévski se assentará sobre base firme se não tiver passado pela prova da leitura de seu ensaio sobre o detestado antecessor. Sem prejuízo da sátira, essa geografia circular da moral não é, porém, invenção de Dostoiévski. Ela é essencial, salvo engano, ao cerne da doutrina cristã, que gira em torno da tríade pecado, arrependimento e perdão. A parábola do filho pródigo deixa muito claro que, na hierarquia da salvação e na gratidão divina, o leal cumpridor de seus deveres está abaixo do réprobo sinceramente arrependido. (O próprio Jesus, que frequentava festas nas quais o vinho corria a rodo, escolheu a dedo companhias bastante suspeitas.) A doutrina tem correspondência em mecanismos psicológicos: somente a prática de uma falta grave desencadeia as tremendas forças de remorso requeridas pela verdadeira conversão religiosa, além de estabelecer tamanho rompimento -a prisão, a perda dos bens, o exílio- com as circunstâncias prévias e "normais" que o sujeito é lançado a uma "nova" vida, na qual "renasce".
 

Narrativa e metafísica 

A fim de ressaltar o caráter "didático" de "Memórias do Subsolo", vale ter em conta que a novela se divide em duas partes, nas quais os dois níveis -o narrativo e o metafísico- estão separados como se por efeito de uma diálise.

Na primeira parte, o narrador apresenta suas "idéias" sobre o universo. Movido pelo ressentimento profundo que lhe provoca o abismo entre seus autoproclamados méritos intelectuais e o pobre reconhecimento que lhes dedica o mundo, o narrador insulta seus semelhantes para melhor insultar a si mesmo, que não é capaz de se opor a eles. Seu raciocínio é pérfido, especioso e paradoxal, e ele se deixa arrastar com gosto pelos exageros em que sua sanha destrutiva pode encontrar livre curso; no ambulatório psiquiátrico que Nabokov imaginou para alojar os personagens de Dostoiévski, esse narrador estaria na enfermaria dos paranóicos.

Não contente em triturar pessoas e episódios com o propósito de extrair deles o máximo rendimento em matéria de ridículo, em exibir toda a vida em seu redor sob o manto da ignomínia, o narrador termina por atingir as verdades e esperanças mais consolidadas de sua época. Vai ficando claro que Dostoiévski pretende, por meio desse ventríloquo indigno, criticar nada menos que toda a civilização burguesa, com seus requintes de ciência e cultura, seus sentimentos elevados e sua autoconfiança na aurora de uma humanidade feliz e realizada. O verdadeiro inimigo é o iluminismo do século 18 e as diversas correntes de reforma social que se desenvolveram, a partir dele, no século seguinte.

O rico debate político e social que permeia a literatura russa entre mais ou menos 1820 e 1900 opunha, grosso modo, ocidentalizantes e eslavófilos.

Ambos partiam do pressuposto comum de que o atraso relativo da Rússia em relação à Europa era o principal problema histórico do país (qualquer semelhança com o Brasil não é mera coincidência...). Enquanto os primeiros preconizavam a adoção de fórmulas européias, variações mais ou menos combinadas de liberalismo e socialismo, os eslavófilos acreditavam identificar, na tradição da Rússia "profunda", forças capazes de elevar sua sociedade a um ponto não apenas equivalente, mas situado mais adiante do progresso histórico europeu. Não se tratava propriamente de uma querela entre esquerda e direita, pois essas forças tradicionais poderiam ser, no campo eslavófilo, tanto o czarismo e a Igreja Ortodoxa, como a estrutura comunal da organização campesina na Rússia, resquício potencialmente revolucionário de formações históricas obsoletas.

Dostoiévski flertou com o socialismo na juventude, razão pela qual foi preso, condenado à morte e teve a sentença comutada para trabalhos forçados na Sibéria, fato que só lhe foi revelado depois de a polícia encenar os preparativos de sua execução por fuzilamento. No exílio, o escritor "aderiu a seus carcereiros", conforme a dura expressão de Freud no ensaio psicanalítico sobre o romancista, tornando-se adepto do czar, da igreja e da tradição -em suma, um reacionário.

Mal camuflados como literatura, os motivos dessa guinada estão expostos na digressão metafísica do narrador das "Memórias". Ele apregoa que o esclarecimento científico é incapaz de dar origem não apenas à felicidade, mas ao autodomínio do homem sobre si mesmo. Se a maior influência literária de Dostoiévski foi, talvez, Dickens, o autor que está por trás de suas idéias é o Rousseau romântico que descria do progresso da ciência e da técnica.

Mesmo se esclarecido sobre seu próprio interesse e a conveniência de conciliá-lo com o interesse dos outros, o homem quer ser irracional, louco e absurdo. Para a metafísica de Dostoiévski, existe um núcleo irredutível na condição humana, impermeável ao progresso histórico e avesso à persuasão lógica: nesse núcleo profundo e misterioso habita o valor que é supremo para nosso escritor, o livre-arbítrio. De todas as idéias fixas desse autor obsessivo, o livre-arbítrio é talvez a mais central e persistente.

A segunda parte da novela é um estranho melodrama que envolve a inevitável prostituta de alma boa. Seu interesse é menor, diante das proezas que Dostoiévski lograria, no registro melodramático, em seus romances futuros, aqui apenas esboçadas com hesitação e parcimônia. Mais interessante é verificar que esse narrador anônimo é um dos precursores do anti-herói da literatura moderna em dois sentidos. No solipsismo irremediável, que o leva a um constante tagarelar consigo mesmo, e no questionamento abusivo, que o faz duvidar de sua própria persona, moldando-a conforme suas conveniências de argumentação. O narrador abandona seu ponto fixo, e a mobilidade que disso decorre abre múltiplas perspectivas, muito além da narrativa tridimensional que prevalecia até então. Semelhanças com as técnicas narrativas de Machado de Assis não serão, tampouco, coincidência. 

Otavio Frias Filho
Otavio Frias Filho

Diretor de Redação

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