Descrição de chapéu Otavio Frias Filho

Otavio Frias Filho: Ecos do Muro

Texto publicado originalmente em 11 de novembro de 1999

Otavio Frias Filho

O texto 'Ecos do Muro' foi publicado originalmente em 11 de novembro de 1999 na se√ß√£o Opini√£o.

 

Dez anos depois, a queda do Muro de Berlim continua a produzir conseq√ľ√™ncias que v√£o muito al√©m do simbolismo festivo que cerca a data. Na √©poca, a derrubada causou j√ļbilo praticamente universal: ca√≠a o mais vis√≠vel dos s√≠mbolos odiosos de um regime baseado na viol√™ncia, no medo, no espezinhamento de direitos elementares.

Mesmo no √Ęmbito do pensamento de esquerda, a rea√ß√£o foi de otimismo. Esperava-se que as reformas conduzidas por Gorbatchov e estimuladas pelas insurrei√ß√Ķes espont√Ęneas que pipocavam em todo o Leste desaguassem numa renova√ß√£o do socialismo. As mudan√ßas permitiriam reconciliar igualdade e liberdade.

Homem desfere marteladas no muro após a abertura da fronteira entre Berlim Ocidental e Oriental em 1989
Homem desfere marteladas no muro após a abertura da fronteira entre Berlim Ocidental e Oriental em 1989 - John Gaps III - nov.1989/AP Photo

‚ÄčForam poucos os que perceberam, ent√£o, o que hoje parece √≥bvio, ou seja, que as mudan√ßas n√£o apontavam em dire√ß√£o a um futuro ut√≥pico. Seu real sentido, oculto sob a n√©voa da ret√≥rica libert√°ria, n√£o era tanto de renova√ß√£o quanto de restaura√ß√£o de um sistema ‚ÄĒo capitalismo‚ÄĒ que o Estado comunista havia "superado".

Conforme o socialismo "real" desmanchava, ficava patente o quanto havia de enganoso em suas celebradas conquistas, apoiadas num artificialismo econ√īmico, quando n√£o em pura mentira. Tudo o que a revista "Sele√ß√Ķes" dizia n√£o era s√≥ propaganda anticomunista, mas correspondia √† cinzenta realidade acobertada pelo Muro.

O entusiasmo da esquerda logo cedeu lugar ao desconforto à medida que todo o discurso sobre a queda do Muro era convertido, por seus adversários, em pregação neoliberal. Passados dez anos, o fato é que as forças de esquerda continuam aturdidas, incapazes, até agora, de organizar alternativas à ordem capitalista triunfante.

Os Estados Unidos se transformaram na Roma contempor√Ęnea. O colapso da Uni√£o Sovi√©tica minou a resist√™ncia dos pa√≠ses isl√Ęmicos ‚ÄĒe do Terceiro Mundo em geral‚ÄĒ ao predom√≠nio americano, credenciando a China como embri√£o de um novo p√≥lo de poder, que ela dever√° ocupar na dicotomia geopol√≠tica ainda em gesta√ß√£o.

O v√°cuo deixado pelo bloco socialista, que servia, com todas as suas mazelas, de contrapeso ao modelo ocidental, est√° na base da derrubada de prote√ß√Ķes e garantias que levou √† furiosa libera√ß√£o de mercados. O que chamamos de globaliza√ß√£o √© um eufemismo para designar o processo simbolizado pela queda do Muro.

Menos espetaculares que os efeitos geopol√≠ticos ou econ√īmicos, as consequ√™ncias na esfera cultural nem por isso t√™m sido menos marcantes. Toda sociedade repousa sobre o ego√≠smo humano, componente mais ou menos inel√°stico da nossa condi√ß√£o. Nunca como agora, por√©m, esse aspecto foi considerado t√£o "natural".

A prevalência absoluta de valores materiais, o surgimento de um narcisismo aquisitivo e ostentatório, a conquista da cultura pela técnica e de toda a civilização pelos critérios de mercado -tudo faz parte de uma mesma cadeia de causalidades, como se disséssemos, parodiando Dostoiévski, que se não existe socialismo então tudo é permitido.

Otavio Frias Filho
Otavio Frias Filho

Diretor de Redação

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