Descrição de chapéu Eleições 2018

Aflito e evitado por aliados, Aécio tenta reescrever biografia com candidatura em MG

Senador, candidato disputa vaga na Câmara dos Deputados por seu estado natal

Thais Bilenky
Belo Horizonte

Aécio Neves (PSDB) cantarola um hino de Minas Gerais, canção de Almir Sater. "Ando devagar porque já tive pressa e levo esse sorriso porque já chorei demais", entoa meio sem jeito. "Grava não, hein?"

Gravou e publicou em suas redes sociais um vídeo em que o senador fala de uma gama de assuntos como sua fama de "pegador" ("na verdade, fui namorador") e suas supostas preferências alimentares ("Feijão em cima, né? Não existe feijão embaixo do arroz. Se possível, com um ovo frito, gema mole").

Entre uma amenidade e outra, toca no assunto que é a verdadeira e única razão de estar ali: sua campanha para deputado federal.

"Me orgulho de poder constatar que, para cada R$ 1 investido nas regiões mais ricas, investimos R$ 2 nas regiões mais pobres, em especial na área da saúde", afirma o ex-governador de Minas por dois mandatos.

Aécio Neves (PSDB-MG), em campanha à Câmara dos Deputados no Vale do Mucuri, em Minas Gerais
Aécio Neves (PSDB-MG), em campanha à Câmara dos Deputados no Vale do Mucuri, em Minas Gerais - Reprodução/Facebook

Depois de conquistar 51 milhões de votos na eleição presidencial de 2014, 3,5 milhões a menos que a vencedora, Dilma Rousseff (PT), o tucano está, ainda que disfarce nas redes, aflito e tenso, de acordo com interlocutores. Aécio tem insegurança quanto aos 80 mil votos de que precisa para se eleger.

Para atingir a meta, mira as regiões mais pobres do estado, os vales do Mucuri e do Jequitinhonha, onde o pai, Aécio Cunha, fez carreira.

Aliados intuem que o motivo da inquietação é uma ambição, embora redimensionada, persistente. Quer não só se eleger, mas ser o mais votado de MG, para começar a reescrever sua biografia, como vem dizendo. Não se conforma em sair da vida pública pela porta dos fundos.

Desde que foi delatado por Joesley Batista, denunciado por corrupção e tornado réu no Supremo, o senador se recolheu. Não quis falar à Folha e evita aparecer em público.

Evita e é evitado. Seu antigo afilhado político e sucessor Antonio Anastasia (PSDB) estabeleceu como uma das condições para disputar de novo o governo de Minas que Aécio não fosse candidato à reeleição no Senado. Considerou que, com tamanha rejeição, o levaria à derrota.

O constrangimento é explorado pelos adversários. O governador Fernando Pimentel (PT) levou ao ar uma propaganda em que pessoas associam Anastasia a Aécio como goiabada a queijo.

A resposta, além de ações judiciais movidas por ambos os ex-governadores, veio com o slogan da campanha tucana, "Anastasia é Anastasia". 

Na quarta (12), em Contagem, na Grande BH, ao lado do presidenciável Geraldo Alckmin (PSDB), Anastasia foi questionado sobre o antigo aliado. "Aécio é candidato a deputado federal, não a governador ou à Presidência", respondeu e mudou de assunto. "Que mais?"

Tucanos mineiros mencionam certa insatisfação do grupo de Aécio com a perda de influência. Mas nada se compara à decepção que ele relata ter tido com o deputado federal Domingos Sávio, presidente do PSDB mineiro.

Aliados de longa data, afastaram-se quando Aécio foi dragado pela Lava Jato e se ressentiu da falta de empenho de Sávio em defendê-lo. 

O rompimento mesmo veio quando decidiu concorrer à Câmara. Candidato à reeleição, Sávio tem base na região onde fica São João Del Rei, cidade de Tancredo Neves, avô de Aécio.

"Vamos falar de mim, sou candidato também. Você vai querer falar dos meus concorrentes?", reagiu Sávio ao telefone quando informado do assunto que a Folha queria abordar. "Fica antiético para mim." O deputado negou rompimento e se despediu.

Apesar do isolamento, Aécio recebeu do diretório nacional do PSDB, presidido por Alckmin, R$ 1 milhão. Outros R$ 15 mil declarados vêm de pessoas físicas como o ex-deputado estadual Silvio Mitre.

Acostumado a frequentar as altas rodas políticas de Brasília e da elite carioca, Aécio se viu obrigado a recorrer a lideranças locais para articular sua campanha. Tem procurado —com insistência, segundo relatos— deputados estaduais e prefeitos pedindo ajuda para conquistar votos.

Ouve, não raro, respostas negativas de políticos dizendo que já se comprometeram com outros candidatos a federal. Aécio pede que, pelo menos, consigam uma parcela minoritária dos votos de suas cidades.

Como argumento, lembra feitos de seu governo à frente do estado. Cita obras e melhorias na região.

A seu pedido, deputados estaduais têm marcado reuniões fechadas com aliados municipais para conquistar apoio. Publicamente, Aécio Neves comparece apenas a atos com simpatizantes. 

Como tem sido a marca desta eleição em geral, candidato e povo não se cruzam. "Confesso que estou reenergizado", afirma, em mensagem nas redes. "Com uma força muito grande para enfrentar os ataques e construir de novo uma nova página bonita", encerra fazendo sinal positivo com o dedo polegar.

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