Criadora da Xuxa, Marlene Mattos vira consultora de candidato em SP

Ex-diretora da TV Globo hoje assessora Marcelo Cândido, do PDT, que não tem 1% nas pesquisas

Wálter Nunes
São Paulo

A apresentadora Xuxa Meneghel ficou encantada com o vestido que viu na vitrine de uma loja em Miami. A etiqueta informava que o preço era US$ 60 mil. "Eu posso comprar?", perguntou a Marlene Mattos, diretora do Xou da Xuxa. Sim, foi a resposta. "Era bastante dinheiro, mas se era para ela ficar bonita para se apresentar para o seu público, valia a pena", disse Marlene.

Mais tarde, dando uma volta pela cidade, Xuxa empolgou-se quando viu uma fileira de limusines expostas numa concessionária de automóveis. Repetiu a pergunta à tutora, que novamente autorizou a compra de um modelo na cor rosa. "Ela merecia gastar o dinheiro que ganhava, né? Ela trabalhava muito." 

Marlene Mattos e Paulo Monteiro, consultores da campanha de Marcelo Cândido (PDT) ao governo de São Paulo, posam para foto no escritório do candidato. Marlene Mattos, famosa por dirigir a carreira da Xuxa, hoje faz a campanha do candidato como voluntária.
Marlene Mattos e Paulo Monteiro, consultores da campanha de Marcelo Cândido (PDT) ao governo de São Paulo. - Rafael Hupsel /Folhapress

As duas aquisições aconteceram na década de 1990, quando Xuxa era estrela de primeira grandeza da TV Globo e Marlene Mattos a responsável pela sua carreira.

O caso foi contado à Folha pela própria Marlene no modesto estúdio da TV Gazeta, no domingo (16), onde ela estava para assessorar o pedetista Marcelo Cândido no debate de candidatos ao governo de São Paulo. 

Nesta terça (18), Cândido teve o registro da candidatura negado pelo TRE com base na Lei da Ficha Limpa por ter sido condenado por contratar funcionários sem concurso público, quando era prefeito de Suzano (SP) —ele está recorrendo da decisão e diz que manterá a campanha. 

Ao contrário de Xuxa, que dispensa apresentações, Marcelo Cândido é praticamente um desconhecido do público.

No último Datafolha, aparece no bloco dos que não somam 1% das intenções de votos. 

A escassez de eleitores é compatível com a míngua financeira da campanha. O PDT paulista prevê gastar R$ 1,7 milhão com os candidatos do estado, uma ninharia perto das cifras com as quais Marlene lidava em seus tempos de TV Globo. 

Menos mal para o partido que não tenha que remunera-la, já que ela se declara como voluntária da campanha. 

Os custos da legenda ficam restritos à alimentação, passagens aéreas e às diárias de um escritório e um quarto, ambos num hotel quatro estrelas na zona sul paulistana, onde ela se hospeda quando deixa sua casa no Rio de Janeiro. 

Há anos distanciada de Xuxa, Marlene Mattos passou a assessorar o pedetista atendendo o pedido de Paulo Monteiro, o Mr. Paulão, seu sócio numa produtora artística e amigo de Cândido. 

"Ele me ligou dizendo que o partido ia lançá-lo ao governo e me pediu ajuda", disse o empresário. "É uma oportunidade histórica apoiar o primeiro negro à disputar o governo deste estado conservador", disse. 

Para ajudar o político, Marlene interrompeu a produção do primeiro disco de Paulão, que além de empresário é cantor. No álbum, ele faz duetos com Alcione, Sandra de Sá e o americano Billy Paul, vencedor do Grammy, que gravou com o brasileiro pouco antes de morrer, em 2016. O lançamento seria em agosto, mas foi adiado para depois da eleição. 

O cenário eleitoral pouco promissor parece não desanimar Marlene, que na campanha conta com um staff conhecido no ramo artístico.

As peças da propaganda de TV do pedetista, que tem apenas 24 segundos de exposição no horário eleitoral, têm como estrela o dançarino Sebastian, célebre como garoto propaganda da rede de lojas de vestuário C&A. 

Os jingles são feitos por músicos de bandas que já fizeram algum sucesso, como o Placa Luminosa. Ainda fazem parte da equipe o ex-diretor da TV Bandeirantes Celso Tavares e e o produtor musical Ubirajara Pereira, o Bira, que trabalha em programas do SBT. Mas a aposta maior é nos conselhos de Marlene Mattos. 

No intervalo do debate da Gazeta ela orientou Cândido sobre como se comportar em frente às câmeras. 
Enquanto João Doria (PSDB), Paulo Skaf (MDB) e Marcio França (PSB) se engalfinhavam citando números e estatísticas, ela pedia que ele parasse de falar para todo mundo e se dirigisse diretamente à pessoa que o assistia. Identificou que Cândido precisa melhorar a entonação das frases. "Você sabe o que dizer, mas precisa dizer com mais emoção", recomendou.

Ele aceita as mudanças na forma, mas vetou algumas sugestões quanto ao conteúdo. Naquele dia recusou-se a perguntar para Doria por que em 24 anos de governo tucano nunca houve um secretário negro. Não queria dar a impressão de que a candidatura se resume à questão racial. 

Marlene tem se dedicado também às redes sociais de Cândido. Com tão pouco tempo de rádio e TV a atuação na internet tornou-se primordial para o pedetista. 

Ela deixa escapar que o trabalho não é para agora. "Marcelo é o candidato do futuro. Ele certamente sai mais fortalecido do que quando chegou. Um dia estará no pódio." 

Assim que terminar a campanha, Marlene Mattos voltará a se dedicar ao disco de Paulo Monteiro –ela considera Mr. Paulão ruim como nome artístico. 

Também vai fazer consultoria para a área de eventos de hotéis e retomar o projeto de uma turnê com bandas dos anos 1980. Já tem contrato fechado com Placa Luminosa e Yahoo, antigas frequentadoras do Xou da Xuxa. "Vamos fazer o Brasil dançar", diz. 

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