Descrição de chapéu Eleições 2018

Força de Marina Silva virá do apoio popular, diz coordenador do plano de governo

Para João Paulo Capobianco, 'é ilusão achar que o que define governança é o Congresso'

Joelmir Tavares
São Paulo

O biólogo João Paulo Capobianco, 61, conhece a presidenciável Marina Silva (Rede) como poucos. Foi um dos auxiliares diretos dela no Ministério do Meio Ambiente e esteve ao lado da ex-senadora nas campanhas de 2010 e 2014.

O ambientalista João Paulo Capobianco, coordenador do programa de governo da campanha de Marina Silva, durante entrevista à Folha - Eduardo Anizelli/Folhapress

Neste ano, a candidata confiou ao amigo Capô, como é conhecido o ambientalista, a tarefa de coordenar seu programa de governo. Na eleição passada, a missão foi dada à socióloga Neca Setubal.

O documento de 43 páginas, com diretrizes e prioridades de Marina, começou a ser elaborado em março, com sugestões de mais de cem especialistas e organizações.

 

O sr. diz que o texto tem as ideias-força de Marina. Quais são elas?  A principal questão é que o documento fecha com as reformas, porque as considera pré-requisitos fundamentais para as mudanças de rumo no desenvolvimento sustentável do país.

Vocês abrem o programa com a reforma política. Ela seria a primeira a ser feita?  Sim, no início do governo, com um conjunto de iniciativas que podemos fazer no Executivo. É uma mudança radical na forma de governar, incluindo a seleção para cargos comissionados, a nomeação em agências por critério técnico, a transparência ativa.

Seria uma reforma política no âmbito administrativo?  Exatamente, porque esse governo tal como funciona hoje, ou como não funciona hoje, é insustentável. O presidencialismo de coalizão é baseado numa pseudogovernança obtida pela maioria no Congresso em troca da ineficiência do Estado.

Marina defende o presidencialismo de proposição no lugar do toma lá, dá cá. Rompendo a lógica atual, como o governo dela avançaria na aprovação das reformas? É uma questão muito simples. Você parte do pressuposto de que vai governar com eficiência e terá apoio popular porque está mostrando claramente um caminho diferente.

A Marina se propõe a fazer um governo que reaproxime a sociedade do debate político, do acompanhamento das políticas públicas. É ilusão achar que o que define governança é um grupo de parlamentares no Congresso.

Não é ingênuo demais acreditar em apoio popular diante do poder do Congresso? Não é apoio popular no sentido de pessoas na rua. O Congresso também é sensível à opinião pública. Parlamentares são eleitos e dependem do apoio e da proximidade com a sociedade.

Michel Temer tentou se fiar em uma ideia oposta: a de que, por ser impopular, conseguiria fazer as reformas necessárias. O governo atual fez a reforma trabalhista sem ouvir a sociedade e não teve capacidade de explicar a relevância da reforma previdenciária. Aí eu diria que é o divisor de águas entre o governo Marina e o atual. Ela faria o oposto.

João Paulo Capobianco e Marina Silva durante reunião para debater o programa de governo, em março, em São Paulo - Eduardo Anizelli - 26.mar.2018/Folhapress

Por que o programa não menciona a reforma trabalhista e não traz uma proposta concreta para a Previdência?  A Marina propõe ajustes na trabalhista e já se posicionou sobre isso. A gente coloca no programa a questão de resolver os problemas do emprego, incorporar a massa que está fora do trabalho formal. Na Previdência, consideramos que há questões centrais, como idade mínima e combate a privilégios.

Por que não fixar a idade mínima agora, na campanha? Porque isso é o que faz quem não tem apreço pela discussão da sociedade, quem não está disposto a buscar a melhor solução.

Não causa uma incerteza para o eleitor? Claro que não. Causaria se o candidato dissesse que não vai fazer a reforma. Esse é o compromisso da Marina. Se você coloca já tudo que vai ser feito, fecha a discussão.

Sobre casamento gay, o plano fala que Marina acatará a demanda de que os direitos decorrentes da decisão do CNJ sejam protegidos por lei. Ela diz que cabe ao Congresso propor a lei. Por que o governo não poderia fazê-lo?  Ela alega que essas conquistas são conquistas da sociedade. O governo nunca deve, na visão dela e na minha também, se antecipar, querer assegurar direitos de grupos. Os setores têm que se organizar e usar os canais. Nesse caso, é o Congresso.

Não compete ao governo se reunir com algumas pessoas e tomar a iniciativa. Isso é uma inversão do papel do Estado.

Pautas de costumes ocupam espaço maior do que deveriam na campanha eleitoral?  As pessoas têm uma visão de Presidência da República de que manda em tudo e também manda no resto. É o que a Marina quer demolir. A Presidência da República tem suas atribuições institucionais, e tem as questões que são da sociedade, que não são da Presidência.

Nas questões do aborto e da regulação das drogas, ela não concorda, mas não pode ignorar a posição das pessoas. Isso seria um gesto autoritário, como esses que nós estamos acostumados a ouvir nesses dias aí na televisão e no rádio.

Essa postura é entendida por muitas pessoas como se ela fosse uma política em cima do muro.  Não, é o contrário de em cima do muro. As pessoas querem um presidente que sirva à sociedade, que defenda o interesse público, que garanta a eficiência do Estado e respeite as diferentes posições da sociedade, ou querem um presidente da República que faz e acontece?

Olha, é muito fácil ter respostas prontas. A Marina é profundamente democrata nesse sentido e tem consciência de que certas decisões têm que ser tomadas ouvindo o conjunto da sociedade, num processo que não seja depois acusado de imposição ou golpe.

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