Descrição de chapéu Eleições 2018

Haddad enfrenta embates e sofre intervenções do PT desde 2004

Candidato já teve de se submeter às ordens da cúpula para não prejudicar alianças partidárias

Mario Cesar Carvalho Artur Rodrigues
São Paulo

Não existe a expressão "idade mínima" no capítulo da reforma da Previdência do programa do PT. 

A ideia era contemplada pelos economistas nos esboços e discussões internas, mas foi varrida por decisão da cúpula do partido. Justificativa: a base do PT se aposenta por tempo de contribuição e mencionar idade mínima é pior do que falar em corda em casa de enforcado.

Fernando Haddad, candidato à Presidência pelo partido, aceitou a imposição, mas mandou um recado de que não aceitaria passivamente a canga na sabatina Folha-UOL quando disse que não há "tabu" no debate da Previdência.

Discordâncias, embates e imposições têm sido a tônica da relação de Haddad com o PT desde que ele assumiu o primeiro cargo de destaque no governo Lula, o de secretário-executivo do Ministério da Educação em 2004. Os conflitos atravessaram o período em que foi prefeito de São Paulo (2013-2016) e não há o menor indício de que essa relação vá mudar numa eventual vitória petista.

Antes de ser ministro da Educação, Haddad havia criado um programa que trocava dívidas tributárias de universidades por bolsas de estudos para estudantes que não tinham como pagar a mensalidade, o ProUni, uma das vitrines do governo Lula.

Para Haddad, o programa aproveitava uma dívida que se arrastava há décadas por mais pobres nas universidades. O PT, porém, tinha outra visão do ProUni: era um afago em sonegadores contumazes, algo inadmissível para um partido de esquerda.

Lula, que arbitrava as disputas, ficou do lado de Haddad.

Embate ainda mais forte ocorreu quando Lula venceu a reeleição, em 2006. O PT queria tirá-lo do Ministério da Educação e colocar Marta Suplicy, mais afinada com a burocracia partidária, no cargo. Marta chegou a mandar um arquiteto planejar a reforma do gabinete, mas Lula manteve Haddad na pasta.

A primeira vez que Haddad foi chamado de "poste" ocorreu num desses embates com o PT. A base do partido no ABC, capitaneada pelo então deputado federal Devanir Ribeiro (PT-SP), queria trocar o reitor da Universidade Federal do ABC, nomeado por Haddad, por alguém ligado ao partido. Haddad resistiu e ganhou o apelido "poste" com o sentido de não ter jogo de cintura política para atender as demandas do partido. 

Foi só em 2018, com a substituição de Lula como candidato a presidente, que poste passou a ter a acepção de substituto sem muitos atributos.

Com Dilma Rousseff na Presidência, a partir de 2011, Haddad perdeu em parte a proteção de Lula e começou a acumular derrotas tanto no MEC quanto na prefeitura.

Quando deputados conservadores anunciaram que o ministério havia criado o que chamavam de kit gay, em 2011, não bastaram as explicações de que se tratava de um material contra o preconceito. Dilma vetou o material para não desagradar a base evangélica que apoiava o PT.

O ápice dos conflitos ocorreu na Prefeitura de São Paulo. Em janeiro de 2013, data tradicional de reajuste das tarifas de transporte em São Paulo, Haddad teve que adiar o aumento a pedido de Dilma, que temia o impacto na inflação.

O represamento foi um desastre. Quando o aumento foi anunciado, as ruas foram tomadas por protestos do Movimento Passe Livre. Haddad buscou socorro no governo de Dilma porque a prefeitura não tinha de onde tirar recursos para congelar o preço da tarifa, segundo ele.

Propôs que Dilma revertesse um tributo sobre combustíveis para as prefeituras, e não para a União. Dilma se recusou e gerou uma das maiores derrotas de Haddad.

O partido impôs outra derrota de peso ao então prefeito no caso que ficou conhecido como a máfia dos fiscais

Segundo investigação da Controladoria da prefeitura, criada por Haddad, o esquema implantado na Secretaria da Habitação diminuía o valor de impostos de prédios recém-construídos se o incorporador pagasse propina a um grupo que tinha ligações com Gilberto Kassab (PSD). 

O prejuízo estimado era de R$ 500 milhões. A direção do PT ordenou que Haddad não deixasse as investigações chegar até Kassab porque havia riscos de ele deixar a base de apoio de Dilma.

O secretário de Governo de Haddad, Antonio Donato (PT), um dos homens fortes de sua gestão, aparecia entre os citados e pediu demissão. Para os petistas ficou galvanizada a imagem de que Haddad não estava nem aí para quadros tradicionais do partido. Os inquéritos contra Donato foram arquivados por falta de provas.

Um dos temas que mais geravam atrito com os petistas era a comunicação dos feitos da gestão. A área era chefiada pelo jornalista Nunzio Briguglio, amigo de Haddad, sempre cobrado por petistas para que a prefeitura anunciasse em blogs e veículos simpáticos ao PT. A gestão, porém, preferia jornais, rádios e TVs tradicionais.

Em outubro de 2014, após muita pressão petista, Haddad tirou de Nunzio o controle da verba de publicidade e passou para o secretário de Governo, Chico Macena, petista com bom trânsito no partido. Macena é o tesoureiro da campanha de Haddad e está sendo investigado sob suspeita de uso de caixa dois.

A bancada petista na Câmara também queria que Haddad fizesse mais ações na periferia, reduto dos petistas. Consideravam que programas como as ciclovias eram voltados à classe média.

Donato, que voltara à Câmara após pedir demissão na gestão, usou o plenário para atacar a falta de debate na criação de ciclovias. Para ele, a implantação devia ser debatida "não só com ciclistas, mas com moradores, comerciantes e todos os envolvidos, porque a rua não é só do ciclista".

Para piorar a situação com os petistas, Haddad mantinha relação amistosa o então governador Geraldo Alckmin"‚(PSDB), a quem elogiava. Ao deixar a prefeitura, disse que transmitia o cargo a João Doria como "a um irmão", o que desagradou sua base, uma vez que o tucano sempre fez duras críticas a Lula.

Por outro lado, Haddad culpou Dilma pelo descumprimento das metas. Na campanha de 2012, ele propagandeou que a parceria renderia R$ 9 bilhões, mas nem R$ 2 bilhões chegaram à cidade.

Petistas dizem que hoje Haddad está mais preparado para lidar com as pressões partidárias. Neste ano, ele aderiu à corrente majoritária do PT, a CNB (Construindo um Novo Brasil).

Os atritos de Haddad com o PT

ProUni
Haddad criou o projeto quando era secretário-executivo do Ministério da Educação, em 2005. O objetivo era trocar as dívidas tributárias das faculdades privadas por bolsas de estudos para alunos mais pobres.

O PT dizia à época que o projeto de Haddad beneficiava sonegadores de impostos. Setores do partido continuam atacando o ProUni, alegando que deixou donos de escolas milionários em troca de educação de baixo nível.

Corredores de ônibus
Haddad prometeu em seu programa para a prefeitura de SP criar 150 km de corredores de ônibus, o que reduziria o tempo de transporte. Seria um projeto similar ao de Bogotá, com operação inteligente das linhas.

Por conta das más relações que a então presidente, Dilma Rousseff, mantinha com Haddad, o programa recebeu apenas R$ 364 milhões de R$ 4,3 bilhões prometidos,  e só foi possível construir ou requalificar 42 km de corredores na cidade.

Tarifa de transporte
Em junho de 2013, com as manifestações contra o aumento de tarifas, Haddad anunciou que iria pedir ajuda à presidente Dilma para manter o preço de R$ 3. Queria a municipalização de um tributo sobre combustíveis.

A presidente Dilma recusou a proposta feita por Haddad, de reverter para os municípios os valores arrecadados com esse tributo, a Cide, com o argumento de que a medida poderia ter impacto na inflação.

Comunicação
Área chefiada pelo secretário Nunzio Briguglio, jornalista próximo do prefeito, que focava recursos em veículos de comunicação conforme seu grau de alcance. Fernando Haddad costumava dar prioridade a reuniões internas de trabalho, sem muitas ações externas que renderiam notícias sobre as realizações da gestão. 

Petistas queriam que a prefeitura destinasse recursos para veículos e blogs simpáticos ao partido. Também cobravam maior presença de Haddad nas ruas, principalmente na periferia.

Máfia do ISS
Controladoria criada pela gestão descobriu esquema de corrupção da máfia do ISS, que havia dado prejuízo de R$ 500 milhões aos cofres municipais. Envolvidos no esquema citaram pagamentos ao então secretário de Governo Antonio Donato, que deixou o cargo e, mais tarde, teria investigações arquivadas. 

Para petistas, Haddad não teria dado apoio a Donato, figura influente no partido, aceitando que ele deixasse o governo sem resistência. 

Relação com PSDB
Prefeito mantinha relação amistosa com Geraldo Alckmin (PSDB), a quem elogiava publicamente. Manteve o mesmo tom ao transmitir o cargo a João Doria (PSDB), o que disse que fazia como com um irmão.

A postura também não caiu bem no partido, que preferia mais combatividade, principalmente em relação a Doria, que sempre fez duras críticas ao ex-presidente Lula.

Núcleo do prefeito
Haddad sempre se cercou de um grupo de acadêmicos, técnicos e pessoas próximas, que não participam do cotidiano partidário do PT. 

O prefeito ouvia mais o núcleo que as sugestões do partido, o que afetou sua gestão e sua popularidade, argumentavam petistas.

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