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Eleições 2018

Painel do eleitor : Cansaço com a política e antipetismo empurram advogado para Bolsonaro

Insegurança ainda ronda a intenção de voto em Bolsonaro, mas discurso dos demais não o convence

Ricardo Balthazar
São Paulo

O advogado Fabio Carvalho acha que a corrupção na política é um dos maiores problemas do Brasil, mas não é só isso. As pessoas são tolerantes com pequenos desvios éticos no cotidiano, diz. A burocracia governamental atrapalha os  negócios e cria oportunidades para achaques.

Dono de um escritório de advocacia em São Paulo, ele esperava que essas questões fossem abordadas durante o debate dos presidenciáveis na quarta (26), realizado pela Folha em parceria com o UOL e o SBT, mas se decepcionou.

Carvalho sentou-se diante da televisão com um caderno e caneta para fazer anotações, mas abandonou a ideia antes que o segundo bloco do evento terminasse. “Ninguém fala do que interessa”, lamentou. “É só uma luta desenfreada pelo poder.”

 
 
Fabio Carvalho assiste ao debate presidencial do SBT na tarde desta quarta feira
Fabio Carvalho assiste ao debate presidencial do SBT na tarde desta quarta feira - Jardiel Carvalho - 26.set.2018/Folhapress

Quando Geraldo Alckmin (PSDB) prometeu gerar empregos com a construção de 3 milhões de habitações populares e Álvaro Dias (Podemos) disse que iria regularizar a situação de 5 milhões de moradias em favelas e bairros pobres, o advogado  riu no sofá.

“Se desse para eleger os dois para governarem juntos, seria uma maravilha”, afirmou Carvalho, com ironia. “A Suíça ficaria com inveja da gente.” Ele votou em candidatos do PSDB em todas as eleições presidenciais de que participou desde a  década de 90, mas agora se diz cansado dos tucanos.

Filho de um comerciante e uma dona de casa, o advogado trabalhou como estagiário para pagar o curso de direito e hoje, aos 51 anos, vive sozinho num bairro nobre de São Paulo. Crítico dos programas sociais do governo, acha que eles tornam os  beneficiários dependentes em vez de ajudá-los a superar a pobreza.

Quando Marina Silva (Rede) defendeu um programa de bolsas para estimular alunos do ensino médio a concluir essa etapa de sua formação antes de entrar no mercado de trabalho, Carvalho disse que seria melhor se eles fossem obrigados a  devolver o dinheiro após alguns anos.

Ao ouvir Fernando Haddad (PT) dizer que os programas lançados pelos governos petistas mudaram o Brasil e que os pobres pagam mais impostos do que os ricos, o advogado expressou inconformismo. “É um discurso que só leva ao ódio e não  entendo”, afirmou.

Ele acha que Haddad é apenas “um bonequinho” do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que está preso e impedido pela Justiça Eleitoral de concorrer, e acusa os petistas de tentar desmoralizar o Judiciário ao recorrer à Organização das Nações  Unidas para contestar sua condenação.

O debate estava perto do fim quando Carvalho disse que sentia falta de Jair Bolsonaro (PSL), que está afastado das ruas e dos debates para se recuperar das cirurgias sofridas após levar uma facada durante um evento de campanha no início do  mês.

O advogado diz não se incomodar com a personalidade do candidato e suas ofensas a mulheres e minorias. “Ele não é um monstro”, afirmou. “Fala o que todo mundo diz na mesa de bar e nos almoços de domingo, para ganhar o voto de quem  gostaria de falar tudo isso e não tem voz.”

Os elogios de Bolsonaro à tortura e à ditadura militar também não assustam, disse. Ele acha que, se tivesse a intenção de dar um golpe com o apoio das Forças Armadas e governar o país de forma autoritária, o capitão reformado do Exército não  estaria disputando uma eleição.

Carvalho tem dúvidas sobre a capacidade de Bolsonaro para formar uma coalizão que lhe dê sustentação no Congresso e evitar conflitos com o Judiciário. Teme que, eleito, o capitão tenha destino igual ao do ex-presidente Fernando Collor, afastado pelo impeachment em 1992, antes de concluir o mandato.

Mas ele acha que nada pode ser pior do que a volta do PT ao poder. Encerrado o debate na quarta, o advogado disse que está inclinado a votar em Bolsonaro, mas ainda não se sente seguro para assumir a escolha. “Hoje, todo mundo é massacrado  se não for o que a maioria pensa”, afirmou. 

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