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Eleições 2018

Premido pelo tempo e pela lei, horário eleitoral na TV está chato e afobado

Mensagens de alguns partidos são tão estáticas que remetem ao tempo da Lei Falcão

Campanha de Meirelles (MDB) na TV exibe candidato ao lado de Lula
Campanha de Meirelles (MDB) na TV exibe candidato ao lado de Lula - Reprodução
Tony Goes
São Paulo

Começou na sexta-feira (31) o horário eleitoral gratuito nos canais abertos de TV. São duas edições por dia: às 13h e às 20h30, com 25 minutos cada uma. Segundas, quartas e sextas são dedicadas aos candidatos a governador, senador e deputado estadual. Terças, quintas e sábados aos candidatos a presidente e deputado federal. Folga aos domingos.

Parece muito? Pois é pouquíssimo para quem ainda procura candidato. Alguns partidos e coligações dispõem de tão pouco tempo que mal registram no olho do espectador. Lembram a propaganda subliminar dos produtos Jequiti, aqueles flashes que permeiam a programação do SBT. 

No bloco dos presidenciáveis, só três postulantes têm algum espaço: na ordem que apareceram neste sábado (1º), Henrique Meirelles (MDB), Geraldo Alckmin (PSDB) e Lula/Haddad (PT). Todos os demais praticamente piscaram na tela.

Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede) chamaram para suas redes sociais. Jair Bolsonaro (PSL) surgiu sorridente, como raras vezes é visto em público. Cabo Daciolo (Patriota) só clamou pela glória de Deus. João Amoêdo (Novo) prometeu acabar com o horário político gratuito (o que não será problema para ele, dono de um patrimônio de quase R$ 500 milhões). E Alvaro Dias (Podemos) achou boa ideia dizer que nasceu às cinco da manhã. 

Henrique Meirelles faz uma força enorme para soar descolado e acessível. “Sou o Meirelles, aquele cara...”, diz, sem conseguir camuflar o desconforto. “Sei onde e por que eles erraram”, continua adiante, sem identificar quem seriam “eles”.

Geraldo Alckmin, dono do maior tempo, pode incluir até um clipe de música sertaneja, cuja maior atração era a intérprete de Libras: a moça dançava animada, enquanto traduzia em sinais a letra óbvia da canção. O comercial assumidamente inspirado na campanha britânica “Kill the Gun” (“mate a arma”) também deu as caras, ao som de uma ária de ópera. No meio de tanto atropelo, foi um momento surreal. 

Mas, neste quesito, nada supera o PT. O tempo do partido foi aberto com um texto na tela, lido em off por um locutor: “A ONU decidiu que Lula pode ser candidato (...)”. Seguiram-se imagens das vigílias e protestos em Curitiba, em frente à unidade da PF onde o ex-presidente está preso.

Outra voz surge em off: é a de Fernando Haddad, mas só quem conhece bem o ex-prefeito de São Paulo é capaz de identificá-lo. Ele próprio só aparece depois do próprio Lula dizer, também em off, que está “em situação de inocente”. Em nenhum momento se disse que Haddad irá substituir Lula como cabeça de chapa do PT. 

Candidatos a senador e deputados estão ainda mais esbaforidos. Muitos aparecem apenas sorrindo na tela, ao lado de seus números. Nem sob a vigência da Lei Falcão, que restringia severamente a propaganda eleitoral no final do regime militar, as campanhas eram tão chatas e pobres.

A minirreforma eleitoral aprovada em 2015 nos reaproximou daquele tempo. O horário eleitoral gratuito conseguiu uma proeza este ano: mesmo com a sucessão frenética de partidos na tela, ele está mais tedioso do que nunca.

Colunista da Folha e do F5

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