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Eleições 2018 Debates

Silêncio fala mais alto do que balbúrdia em debate marcado por duas ausências

Candidatos se sentem confrontados com segundo turno polarizado

Sérgio Rodrigues
São Paulo

Às vezes, no meio da balbúrdia, a melhor forma de descobrir o que está no centro das preocupações é buscar aquilo que não é dito, o miolo de silêncio em torno do qual as palavras giram.

Um debate presidencial em que os dois maiores contendores são enormes ausências —um por estar no hospital e o outro porque, cumprindo pena e impedido de se candidatar, é representado por um avatar muito menos carismático— não teria como ser diferente.

Fernando Haddad, o mais tardio dos candidatos, mas vice-líder nas pesquisas e o único favorito presente, ganhou estocadas previsíveis, sobretudo de Ciro Gomes e Marina Silva, com quem disputa o voto anti-Bolsonaro. Nada muito contundente, porém.

"Uma eleição é um horror moral, tão ruim quanto uma batalha, a não ser pelo sangue: um banho de lama em todas as almas nela envolvidas." A frase tem o pessimismo característico de George Bernard Shaw (1856-1950), dramaturgo e polemista irlandês. 

No caso do Brasil 2018, a tirada tem pelo menos duas imprecisões também: há três semanas, em Juiz de Fora, sangue foi de fato derramado; e os candidatos que ainda têm alguma chance de sucesso, bem instruídos por seus marqueteiros ou talvez constrangidos pelas regras rígidas dos debates, parecem economizar na lama sempre que estão diante das câmeras de televisão.

Contribui para isso, na reta final do primeiro turno, a impressão de que a conversa está passando ao largo da questão central em jogo —como vai se decidir a peleja cruenta entre o antipetismo e o antibolsonarismo.

Não por acaso, o debate ganhou substância quando os candidatos se viram confrontados com perguntas sobre o que fazer num segundo turno tão polarizado entre esquerda e direita.

Ciro Gomes culpou o PT por ter criado "Bolsonaro, essa aberração", e tentou soprar a brasa de sua terceira via para evitar a "confrontação odienta".

Alvaro Dias deixou no ar que ficará com o candidato do PSL: "Temos que evitar a volta de uma organização criminosa ao poder", afirmou.

E Marina Silva disse com todas as letras que, hoje, não apoiaria nenhum dos dois candidatos.

Nesse vácuo relativo, a volta do histriônico Cabo Daciolo a um debate —que Guilherme Boulos saudou ironicamente, dizendo que "a gente estava com saudade de você"— foi um símbolo farsesco e quase bem-vindo da desconversa.

Com sua figura tão extravagante quanto desprovida de eleitores, seu bordão "Glória a Deus", sua fala atropelada e sua plataforma de motorista de táxi, o histriônico candidato do Patriota não acrescenta rigorosamente nada ao debate político, mas traz algo que qualquer espetáculo televisivo agradece: alívio cômico, risadas garantidas.

"Temos mais de 400 milhões na extrema pobreza", anunciou Daciolo, inflacionando a população do país e oferecendo às agências de checagem a missão mais fácil de sua breve história.

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