Descrição de chapéu Eleições 2018

Após trauma de 2014, Marina Silva revive drama de ter que se decidir no 2º turno

Presidenciável passou os últimos meses tendo que responder sobre o apoio a Aécio Neves

Angela Boldrini Joelmir Tavares
Brasília e São Paulo

A campanha de Marina Silva (Rede) se negava, até a véspera do primeiro turno, a falar sobre o rumo que ela tomará no segundo. O discurso público era o de que ela poderia passar para a fase seguinte, por mais que os 4% no Datafolha de quinta-feira (4) dissessem o oposto.

"Sentimos que ela já vem crescendo há algumas semanas, o que fica evidenciado pela presença nas ruas e o engajamento nas redes sociais. Acreditamos que ela irá para o segundo turno, sim", disse à Folha durante a semana Lourenço Bustani, um dos coordenadores da campanha.

Ele relativizou o peso das pesquisas, falando que "o comportamento do eleitor é por essência irracional e volátil". Os assessores consideravam, por exemplo, que o desempenho da presidenciável no debate da Globo, na quinta, pudesse ter algum peso.

Em privado, no entanto, já era admitida a avaliação de que ela não terá votação suficiente e será pressionada a se manifestar. Mas esse cenário apresenta outro problema: ninguém sabe ao certo o que se passa na cabeça da presidenciável.

A definição dependerá, dizem pessoas próximas a ela, de mais um dos habituais períodos de reflexão que ela adota antes de decisões importantes.

No pano de fundo está o trauma de 2014, quando ela apoiou Aécio Neves (PSDB) em detrimento de Dilma Rousseff (PT). Marina passou os últimos meses tendo que responder sobre o gesto.

Se já era controverso na época (depois de ter passado a campanha criticando a polarização e o PSDB), o endosso se tornou ainda mais problemático depois das revelações da Lava Jato sobre Aécio.

Embora o rumo da candidata num cenário Bolsonaro x Haddad seja uma incógnita, a possibilidade aventada é que ela se manifeste a favor de um voto "pró-democracia", rechaçando, dessa forma, Bolsonaro. Ela caracteriza o deputado como líder de uma onda antidemocrática e autoritária.

A ex-senadora participou em São Paulo do ato #EleNão, de oposição ao capitão reformado.

Uma adesão mais explícita a Haddad é vista como praticamente impossível, em virtude das discordâncias dela com o PT, sua antiga sigla, e das mágoas que guarda da campanha de desconstrução que diz ter sofrido na eleição passada.

Integrantes da campanha dizem que é difícil que ela declare formalmente apoio a Haddad, como fez com Aécio. Sempre que instada a explicar a adesão ao tucano, a candidata responde que hoje, com o que sabe sobre o tucano mineiro, não subiria no palanque dele de jeito nenhum.

Se a postura no segundo turno é desconhecida, o futuro mais distante parece mais nebuloso ainda. Sem cargo eletivo, Marina corre o risco de repetir o sumiço pós-2014 apontado por detratores (e sempre negado por ela). Nenhum aliado arrisca dizer se ela pensa em disputar outro cargo que não seja a Presidência, depois de tentar chegar ao Planalto em três eleições seguidas (2010, 2014 e 2018).

FUTURO

Ao mesmo tempo em que discute o segundo turno, Marina vê se impor algo mais sério: o futuro do partido fundado por ela. A Rede teme não conseguir ultrapassar a cláusula de barreira e, com isso, ficar com sua sobrevivência ameaçada.

Aprovada em 2017 pelo Congresso, com o objetivo de diminuir o número de partidos, a cláusula restringe o acesso a fundo partidário e tempo de TV para siglas que não atingirem um mínimo de votos.

O partido, que disputa sua primeira eleição geral, precisa eleger nove deputados, espalhados em ao menos nove estados, ou fazer 1% dos votos válidos no mesmo tanto da federação (e 1,5% no total do país).

Hoje, a Rede tem só dois parlamentares na bancada federal: João Derly (RS) e Miro Teixeira (RJ).

Segundo o porta-voz da sigla, Pedro Ivo Batista, a legenda estuda se unir em um bloco parlamentar com o PV. Os dois partidos se coligaram na candidatura presidencial —veio de lá o vice, Eduardo Jorge.

"Passando ou não passando a cláusula de barreira, queremos nos aproximar e formar uma bancada sustentável", afirmou o dirigente.

Outra possibilidade, ainda embrionária, é a fusão com outra legenda, caso o cenário seja considerado catastrófico. O desfecho, no entanto, representaria uma derrota pessoal e política de Marina Silva, que veria a legenda fundada por ela se tornar coadjuvante.

O apresentador Luciano Huck, que quase foi pré-candidato a presidente pelo PPS, se mostrou disposto nos bastidores a intermediar um diálogo de dirigentes dos dois partidos. Na prática, não houve negociação até agora, sobretudo porque as duas legendas querem esperar o resultado deste domingo antes de qualquer passo.

A movimentação de Huck embute também o desejo do comunicador da TV Globo de entrar na política. Depois de quase virar presidenciável, ele manteve uma atuação discreta, dedicando-se a apoiar candidatos ao Legislativo lançados pelos movimentos de renovação que ele integra.

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