Descrição de chapéu Eleições 2018

'Brasil precisa de um governo de coalizão', diz Manuela D'Ávila

Vice de Haddad afirma que PT 'nunca governou sozinho' e que não será diferente se vencer desta vez

Manuela D'Ávila (PC do B), vice de Fernando Haddad (PT), durante ato com intelectuais em São Paulo
Manuela D'Ávila (PC do B), vice de Fernando Haddad (PT), durante ato com intelectuais em São Paulo - Marlene Bergamo - 24.set.2018/Folhapress
Marina Dias
São Paulo

Candidata a vice na chapa de Fernando Haddad ao Planalto, Manuela D'Ávila (PC do B) afirmou que o PT nunca governou sozinho e que não será diferente caso o partido vença a eleição este ano.

Em entrevista à Folha, Manuela disse que o país precisa de "um governo de coalizão nacional", com mais participação popular, mas também com "os melhores quadros" da política, inclusive de siglas como MDB, PP e PSDB, que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff.

"O Brasil precisa acabar com esse ciclo de guerra política iniciada com o impeachment. Precisamos governar com os melhores quadros do país, e eles estão na política institucional e fora dela", afirmou. 

A candidata fez ainda um aceno ao PDT, de Ciro Gomes, e disse que não é possível imaginar um governo sem o apoio dele. "No sentido partidário, a gente nunca governou sozinho. Como imaginar governar sem o PDT?"

Leia a seguir os principais trechos da entrevista:

 

A eleição está polarizada entre direita e esquerda. Concorda que Fernando Haddad (PT) faça acenos ao centro político e ao mercado se passar ao segundo turno? Discordo da interpretação de que a eleição está polarizada entre direita e esquerda, apenas. Talvez a principal polarização seja entre quem acredita em saídas democráticas para a crise e quem não acredita. O que a gente vê nas ruas é uma reação àqueles que dizem que não vão reconhecer o resultado das urnas, que dividem os brasileiros entre homens em uma categoria e mulheres em uma segunda categoria. Temos tentado dizer que somos esse lado, que defende a democracia. Para mim, os acenos são a esse campo democrático.

Haddad admite, mesmo que nos bastidores, que fará um governo de coalizão, com os melhores quadros políticos, caso seja eleito. Não é contraditório fechar acordo com siglas que apoiaram o impeachment de Dilma Rousseff, como MDB, PP e PSDB? A gente tem um programa claro e é ele que vai nos nortear. O Brasil precisa de um governo de coalizão nacional, abrir um novo ciclo de unidade para sair da crise. Imagina a gravidade que seria ter no comando do país alguém que não tolera opiniões diferentes das suas, que questiona a opinião da maior parte do povo, se for derrotado na eleição. O Brasil precisa acabar com esse ciclo de guerra política iniciada com o golpe, com o impeachment. Precisamos governar com os melhores quadros do país, e eles estão na política institucional e fora dela.

PT e PC do B não vão governar sozinhos se vencerem a eleição? Existe como governar sozinho depois do que a gente viu nas ruas no dia 29 de setembro [manifestações contra Bolsonaro em vários estados do país]? O governo precisa ser profunda e radicalmente democrático. Retomar etapas que avançou lá atrás, de participação popular. A rua é a manifestação de que o povo quer participar dessa construção e essas pessoas não são dos nossos partidos. A gente precisa governar com essas pessoas. No sentido partidário, a gente nunca governou sozinho. Como imaginar governar sem o PDT? É um partido que tem um programa com muitos pontos em comum com o nosso.

Como colocar Ciro Gomes (PDT) nessa aliança se ele mesmo já disse que preferia governar sem o PT caso fosse eleito? Não estou falando de um segundo turno concreto, ainda faltam seis dias para a eleição. Só temos um instrumento, que é o programa de governo: lá estão as formas que a gente compreende para o país sair da crise. Assim que a gente aglutinará as pessoas até o fim do primeiro turno, assim que a gente vai vencer as eleições e governar.

Como não cometer o mesmo erro de Dilma, que perdeu apoio de parte da esquerda ao fazer acenos ao mercado, com medidas de ajuste e a nomeação de Joaquim Levy para a Fazenda? Haddad tem demonstrado qualidades para a campanha e para governar. A principal é a capacidade de ouvir e a tranquilidade para tomar decisões. Isso faz com que as pessoas errem menos. Não é um paralelo com ninguém, são apenas as características dele.

Como evitar que atritos com setores mais à esquerda do PT e do PC do B prejudiquem um eventual governo? Não sei o que você caracteriza como mais à esquerda.

No programa de governo há propostas que causam polêmica, como a regulação da mídia e a ausência da idade mínima para a aposentadoria. Haddad já disse que pode haver discussão sobre esses pontos. O governo estabelece metas e projetos e eles se materializam a partir da relação que se tem com o Congresso. Na vida real, não são caixinhas: aqui tem os partidos, as pessoas mais à esquerda, os setores conservadores. Na vida real, é uma disputa que se dá na sociedade.

Bolsonaro disse que não aceita nenhum resultado que não seja a vitória dele na eleição. Teme que, no caso de vitória do PT, haja uma convulsão social que impeça a posse ou o eventual governo Haddad? O dia 29/09 é resposta a um conjunto de declarações do nosso adversário, que perderá. As pessoas foram para a rua dizer que defendem a democracia.

Mas no dia seguinte também havia bastante gente na rua, desta vez a favor do Bolsonaro. Vi as manifestações no meu estado [Rio Grande do Sul], e elas eram bem pequenas. No Rio e em São Paulo também.

Haddad tem consultado o ex-presidente Lula constantemente durante a campanha e pretende continuar sob sua influência caso seja eleito. Isso não compromete a independência do governo? Fico pensando por que será que o Bolsonaro não consulta e ainda esconde as referências dele? Talvez por que o [coronel Carlos Alberto Brilhante] Ustra tenha morrido? Que bom poder ouvir alguém com tanta experiência e com referência tão positiva como Lula. Isso prejudica a independência do governo aonde? Por que a pessoa [Haddad] tem capacidade de ouvir?

Qual será o papel de Lula no governo caso Haddad vença a eleição? Ele é o maior presidente da história do país, é natural que as pessoas que têm capacidade de ouvir escutem boas referências.

Concorda em conceder indulto ao ex-presidente? Lula nunca pediu indulto, então não se trata de concordar ou discordar. Ele quer um julgamento justo, deixou claro que quer o desfecho de seu julgamento.

Mas e se não houver desfecho favorável a ele? Não falo nunca 'e se', porque se fosse 'e se' eu seria veterinária. E se eu tivesse sido, não estaria aqui conversando contigo.

Nessa disputa em que o voto das mulheres será definitivo, há poucas propostas direcionadas para as eleitoras nos programas de governo, inclusive no seu. Por quê? É uma visão equivocada que decorre da ideia de que é possível colocar as mulheres em uma caixinha do programa: vamos falar sobre mulher e aí são dois ou três itens sobre a saúde da mulher. Para nós, mulher não é uma caixinha do programa. Quando a gente propõe revogar a reforma trabalhista, pensamos que metade das mulheres, depois da licença maternidade, não consegue vaga no mercado de trabalho. Com a informalidade, as mulheres vão ser mais punidas. Com a revogação do teto dos gastos públicos, a gente vai voltar a investir em creche. Não há saída para a crise que não passe pelas mulheres e por propostas que sejam inversas às do governo Temer. Para mim, o que interessa mais às mulheres hoje é revogar a reforma trabalhista e a PEC do teto de gastos.

Muito se falou na campanha sobre a diferença salarial entre homens e mulheres no mercado de trabalho, mas quase não há discussão sobre o tema na administração pública. Um governo Haddad-Manuela tomará medida concreta nesse aspecto? Haddad tem uma ideia de criar uma espécie de reconhecimento social para empresas que remuneram igualmente homens e mulheres.

Mas e na administração pública? Dilma não avançou muito na ampliação de vagas para mulheres em cargos de confiança no governo.Ela nomeou metade dos ministros mulheres. Acho que sim, é possível, é uma coisa natural nos nossos governos, porque a gente tem uma militância grande de mulheres.

O plano de governo do PT sugere que será possível corrigir o desequilíbrio nas contas públicas e na Previdência com a volta do crescimento econômico, mas as projeções indicam que o déficit dificilmente será eliminado antes de 2022. O programa é realista? As projeções também diziam que as medidas do Temer iam diminuir o déficit e o déficit aumentou. Ele [Temer] é um case de fracasso. A tradição brasileira é de movimentar a economia a partir do conjunto de investimentos públicos. Retomar as obras públicas, como o Minha Casa, Minha Vida, que faz justiça social, mas gera um volume de emprego muito rápido e, com isso, aquece a economia a partir da retomada do consumo; conceder crédito a juro baixo para que as pessoas paguem suas dívidas e voltem a empreender e a consumir; diminuir a cobrança de impostos de quem recebe até 5 salários mínimos... Sim, a gente já fez isso acontecer em outro período de crise.

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