Descrição de chapéu Eleições 2018

Candidatos das periferias apostam em mandato coletivo para conquistar vaga

A bancada é formada por nove membros e terá na urna a imagem de uma jornalista

São Paulo

Chirley Santos, 44, é indígena e moradora de Mauá, na Grande São Paulo. Mais conhecida como Chirley Pankará, ela não havia pensado em fazer carreira política, mas mudou de ideia ao ser convidada um novo tipo de mandato: uma candidatura coletiva.

“Prefiro aprender com as pessoas no coletivo, antes de fazer uma candidatura solo”, afirma Chirley, que é diretora do Centro de Educação e Cultura Indígena do Jaraguá, na zona norte de São Paulo.

A política é uma das nove integrantes da Bancada Ativista, modelo de mandato coletivo que se tornou uma aposta de moradores das periferias na eleição deste ano. Além do grupo, ao menos quatro candidaturas do tipo surgiram neste ano em São Paulo e em cidades da região metropolitana.

A proposta é que o mandato tenha a participação de cada um dos membros na definição das propostas na Assembleia Legislativa e na Câmara dos Deputados. 

A bancada é formada por nove membros e terá na urna a imagem da jornalista Mônica Seixas, feminista negra e ativista ambiental.

Segundo o grupo, o mandato abrangerá as nove propostas dos integrantes: meio ambiente, infância, povos indígenas, negros e negras, agroecologia. 

No caso de Chirley, a educação é o foco dos projetos da pedagoga. “Fiz um observatório nas escolas de Mauá e vi que os indígenas sofriam preconceito pelos próprios professores, eles não abordavam o assunto de forma ampla, traziam estereótipos, e isso afasta os alunos”, afirma. “É uma oportunidade de adquirir experiência e ter representatividade indígena nesses espaços de poder”. 

Também na Bancada Ativista está Fernando Ferrari, 40, morador do Parque Santo Antônio, na zona sul de São Paulo. Formado em ciências sociais com licenciatura em sociologia, ele tem atuação no Capão Redondo. 

Ferrari atua no Movimento Cultural das Periferias, na rede de proteção e resistência contra o genocídio e no Fórum em Defesa da Vida. Esta é sua primeira candidatura.

“Nunca pensei em ocupar esse espaço, pois acreditava que a minha potência estava muito vinculada aos movimentos populares”, afirma. “Entendi que o que eu vinha trabalhando na militância, pautando, inclusive, políticas públicas, poderia ser potencializado na estrutura de gabinete”, conta Ferrari.

Ferrari participou da lei de Fomento da Cultura nas Periferias e diz que atuará por um modelo semelhante no estado. Quando questionado sobre as propostas que serão defendidas por ele se eleito, Fernando conta que as pautas estão divididas em três frentes: orçamento público, segurança cidadã com  humanização das polícias e cultura. 

Apesar de estar no PSOL, Ferrari defende que a candidatura é independente. “Como o Brasil ainda não permite candidaturas nesse formato, nós concorremos pelo PSOL. [Mas] não nos aliamos a nenhuma corrente interna do partido e temos total autonomia”.

JUVENTUDE

Na zona sul de São Paulo, outro candidato que decidiu apostar no modelo é Anderson John (Avante), partido que antes dera denominado como PT do B. John é o nome da candidatura a deputado estadual,
mas representa um grupo de nove participantes chamados de CoDeputados.

A campanha tem ocorrido com encontros do grupo com a juventude em bairros das zonas leste e sul da capital. 

Morador da divisa entre os distritos periféricos do Jabaquara e Cidade Ademar que, juntos, somam uma população de 600 mil pessoas, Anderson tem como mote de  campanha a luta contra o genocídio da população negra na cidade de São Paulo, o direto à igualdade para as minorias, como negros, LGBT e mulheres. “Vivemos em um estado racista e precisamos, de fato, tratar isso dentro das leis”, diz. 

Ele esteve à frente da direção do Centro Cultural do Jabaquara e foi auxiliar de juventude e supervisor de Cultura do Jabaquara, entre os anos de 2015 e 2016. “Queremos utilizar o próprio espaço escolar para trazer o jovem para dentro da escola, ocupando com atividades esportivas, mas de forma mais estruturada”, afirma.

O político diz acreditar que ser jovem, negro e da periferia dificulta, mas que vê uma mudança na sociedade. “As pessoas não esperavam que em algum momento da história os jovens negros iriam assumir um papel de protagonismo. Desta vez não viemos ser os entregadores de papéis ou boca de urna, viemos ser os candidatos”, completa. 

COTIA

Entre as candidaturas de mandatos coletivos registrados na Justiça Eleitoral em São Paulo, dois são de Cotia, cidade da região metropolitana de São Paulo. Um deles é o ‘Mandato Coletivo Feminino’, também registrado no PSOL para o cargo de deputado estadual. Diretora da escola municipal no bairro de Caucaia do Alto, há 11 anos, Silvana Bezerra Silva, 51, é uma das participantes do grupo. 

Na educação pública e privada há 25 anos, ela é mãe de três filhos e filha de pais cearenses do Juazeiro do Norte. Ao todo são sete mulheres do município e que, antes do pleito, atuavam no #MulherAção.

A aposta no modelo coletivo, afirma, é a dificuldade da participação feminina na própria cidade. Cotia não elege uma vereadora há 32 anos. Na Alesp, só 10% das 94 cadeiras têm deputadas mulheres. Atualmente, só 10% da Alesp é composta por deputadas.

“Não há como discutir com homens alguns assuntos. Não estamos excluindo eles, mas nós que somos mulheres temos pautas específicas”, afirma Silvana. 

O grupo quer levar discussões para a Alesp sobre a educação em período integral até o nono ano, creche noturna, clínicas da mulher e da criança, acessibilidade, sustentabilidade ambiental. “Por mais que a gente lute tanto, as crianças se tornam mais responsabilidade das mães. Então prevenir na saúde da criança também é ajudar as mulheres”.

Ela cita que onde mora, em Caucaia do Alto, distrito distante do centro de Cotia, há apenas um posto de saúde para 30 mil moradores. Não tem uma ala específica para crianças e idosos. 

O grupo afirma ter se tornado alvo em Cotia, após fazer críticas a administração municipal. Uma das integrantes, Rosangela Lourdes Martins, era vice-diretora havia 11 anos de Silvana. Silvana havia gravado um vídeo com críticas ao governo do prefeito Rogério Franco (PSD).

“Eles não deveriam fazer isso, até hoje não sabemos de fato se foi o antigo secretário de educação ou o prefeito que ordenou a demissão”, ressalta. “A vida de militância é muito árdua. As pequenas vitórias não conseguem superar as grandes decepções. Os homens não respeitam você, se você não se empodera. O mundo é cruel.”

Procurada, a Prefeitura de Cotia negou relação entre o vídeo e o afastamento. “Está em andamento a nomeação de vice-diretores das escolas municipais (cargo que, conforme a legislação, é de livre nomeação do titular da pasta)”, diz em nota.

“Rosangela Lourdes Martins foi afastada do cargo de vice-diretora pelo secretário anterior, que, naquele momento, teve este entendimento. Portanto, é leviano mencionar que a motivação teria sido a veiculação de vídeos criticando a atual gestão municipal”.

Laiza Lopes , Gisele Alexandre , Halitane Rocha e Vagner Vital Agência Mural

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