Descrição de chapéu Eleições 2018

Com Alckmin fora, ala tucana diz que eventual vitória de Doria mata PSDB

Partido enfrentará período fúnebre após 2018, diz cientista político e fundador

Thais Bilenky
São Paulo

É a lógica autofágica tucana. Eventual vitória de João Doria na disputa pelo governo de São Paulo seria a derrocada do PSDB.

Assim pensam fundadores do partido, em guerra política com o neotucano desde que se lançou à eleição para prefeito da capital paulista, em 2016, contra Andrea Matarazzo, o nome do grupo.

Sem expectativa de Geraldo Alckmin vencer a eleição presidencial, eventual sucesso de Doria na corrida pela administração do segundo maior Orçamento do país lhe conferirá inequívoca ascendência sobre o partido. E então não haverá PSDB para todos. 

Essa turma evita antecipar decisões, mesmo porque ainda se desconhece o cômputo das urnas. No entanto, intramuros, as palavras são essas. Em caso de vitória de Doria, o PSDB, este PSDB com as feições atuais, acaba.

“O partido tem quatro ou cinco líderes destacados, que, há muitos anos, vêm se desentendendo e causando mal-estar, porque parece que se odeiam”, diagnosticou o cientista político e fundador da legenda Bolívar Lamounier.

“É difícil para o eleitor ter fé e esperança em um partido que parece estar caindo aos pedaços, se dilacerando. A isso se acrescente que a campanha deste ano foi uma tragédia. Alckmin não compreendeu o que o país está vivendo.”

No Datafolha da última quinta-feira (4), o candidato tucano apareceu com 9% dos votos válidos, empatado tecnicamente com Ciro Gomes (PDT) na terceira posição, entre 13 presidenciáveis. 

É ligeiramente inferior ao que teve na urna Mario Covas, o primeiro candidato do PSDB a presidente, em 1989. Com 11,5% dos votos, terminou em quarto de uma disputa entre nove.

Desde então, o PSDB, se não ganhou, foi ao segundo turno. Em 1994 e 1998, Fernando Henrique Cardoso venceu no primeiro turno.

Em 2002, com José Serra, em 2006, com Alckmin, em 2010, com Serra e, em 2014, com Aécio Neves, os tucanos perderam para o PT, mas apenas na segunda etapa do pleito.

Neste 2018, diante das dificuldades de Alckmin, as atenções do PSDB estão voltadas especialmente às disputas estaduais em Minas Gerais, com Antonio Anastasia, e no Rio Grande do Sul, com Eduardo Leite, além de São Paulo.

“Nada será igual ao que já foi. A vida, o nosso mundo será diferente”, disse o ex-governador paulista Alberto Goldman. Em inédita exclusão da polarização com o PT, o PSDB ficou disforme.

“A gana, o ódio, o desespero de atacar o PT por tudo que fez leva muita gente a encontrar em Jair Bolsonaro (PSL) a figura para se livrar da marra com a esquerda atrasada, tão atrasada quanto essa mesma direita”, afirmou Goldman.

Com ataques desferidos contra o capitão reformado ao longo da campanha, Alckmin ficará sem saída fácil em eventual segundo turno. Tucanos e aliados o abandonaram para apoiar o adversário.

Se ocorrer a vitória de Bolsonaro, líder isolado, o PT, com Fernando Haddad, sofrerá também uma derrota. Mas farejadores políticos profissionais apontam uma diferença primordial. Não perderá o discurso.

O partido havia morrido politicamente depois do impeachment de Dilma Rousseff e se combalido com a prisão do ex-presidente Lula. Depois, o PSDB também foi engolido pela Lava Jato, com sua principal promessa para 2018, Aécio, inviabilizada, e caciques como Alckmin e Serra citados.

Assim, com a narrativa do golpe e da perseguição, o PT renasceu, disse um observador que aposta em uma bancada robusta petista no Congresso na próxima legislatura.

Para Lamounier, o longo período fúnebre que espera o PSDB depois da eleição aguarda também o PT. É por isso que ele vota em Doria, ao contrário de tucanos como Goldman, seu desafeto.

“Eu não gosto muito de políticos que vão com muita sede ao pote”, ressalvou. “Se Doria ganhar, ele seria o pilar de uma possível reconstrução de partido, mas para isso tinha que amadurecer, deixar de ser egocêntrico. Surgir na política é fácil. Firmar-se nela é outro problema.”

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