Descrição de chapéu Eleições 2018

De Mamãe Falei a príncipe, líderes de 2016 triunfam nas urnas

Após atuarem contra Dilma, Janaina Paschoal, Kim Kataguiri e Carla Zambelli são eleitos

Arthur do Val, mais conhecido como Arthur Mamãe Falei, foi eleito deputado estadual pelo DEM em SP
Arthur do Val, mais conhecido como Arthur Mamãe Falei, foi eleito deputado estadual pelo DEM em SP - Eduardo Anizelli - 13.set.2018/Folhapress
Anna Virginia Balloussier
São Paulo

Se expurgaram políticos tradicionais, as urnas deram sua bênção a líderes de movimentos que, em 2016, foram às ruas para pedir a queda de Dilma Rousseff (PT).

Dilma caiu há dois anos e não conseguiu se eleger senadora agora. Em compensação, muitos que pediram sua cabeça chegarão ao Legislativo imbuídos do espírito antipetista. A começar por Janaina Paschoal, uma das autoras de seu pedido de impeachment.

Com 2 milhões de votos para a Assembleia Legislativa de São Paulo, Janaina teve a maior votação de um parlamentar na história do país. 

Para se ter uma ideia, a advogada superou outra marca histórica —o 1,8 milhão de votos que garantiu a reeleição à Câmara de Eduardo Bolsonaro, colega do PSL e filho do presidenciável Jair Bolsonaro. O recorde anterior era de Enéas Carneiro (Prona), com 1,57 milhão de eleitores em 2002. 

Em 2016, Janaina chegou a pedir desculpas a Dilma “não por ter feito o que fiz, mas por eu ter lhe causado sofrimento”. Já Douglas Garcia (PSL) está “rindo à toa” com a sangria do PT. Cofundador do Direita São Paulo e eleito deputado estadual por São Paulo,  o jovem de 24 anos sintetiza o regozijo no grupo com a ideia de que o partido de Lula “já era”. 

Quatro atores em evidência nas manifestações de 2016 serão calouros na Câmara: pelo PSL, o ex-ator pornô e ativista Alexandre Frota, Carla Zambelli (Nas Ruas) e o “príncipe” Luiz Philippe de Orleans e Bragança (Acorda Brasil); pelo DEM, Kim Kataguiri (MBL).

“Não curto muito ser comparada com este pessoal que entrou agora”, diz Carla Zambelli. Ela se vê como veterana dos movimentos. Começou a militar em 2011 e se candidatou após concluir que “chegou a hora de mudar o sistema por dentro”. Colou em Bolsonaro e foi alçada ao Congresso. 

Mal foi eleito e Kim anunciou na segunda (8) que quer disputar a presidência da Câmara, hoje sob guarda de Rodrigo Maia, também do DEM.

“Regimentalmente, não preciso da autorização de ninguém. Meu partido é o MBL, e nele eu tenho consenso”, diz sobre a possibilidade de ter a ideia barrada dentro da sigla.

A candidatura tem vários obstáculos se quiser avançar, como a idade dele. “Ele ignora que, para chegar como terceiro da linha sucessória da Presidência, deveria ter 35 anos”, diz o professor de direito eleitoral Renato Ribeiro de Almeida. E também o tamanho do DEM, que encolheu e será a nona bancada em 2019. 

Mas, ao esnobar o caciquismo interno, o estreante de 22 anos explicita a descrença da nova geração parlamentar numa hierarquia partidária à moda antiga, de certa forma espelhada no lema bolsonarista “meu partido é o Brasil”. 

Fora Kim, o MBL também emplacou na Assembleia paulista Arthur do Val, que usou nas urnas o nome de seu canal virtual, Mamãe Falei, pelo DEM. Ficou famosa a desavença que teve com Ciro Gomes em abril: ele acusou o pedetista de lhe dar um tapa na nuca, após uma série de provocações. Ciro negou (“tu acha que, se eu tivesse batido, não tinha uma marquinha, não? Falei ‘deixa de ser um merda, rapaz’”).

Douglas e Arthur dizem que priorizarão a aprovação do Escola Sem Partido, que proíbe os termos “gênero” e “orientação sexual” nas escolas. “Me elegi com essa bandeira, contra a doutrinação ideológica”, diz o criador do Direita SP e do Porão do Dops, bloco carnavalesco vetado pela Justiça que parodiaria a marchinha “Coração Corintiano”: “Ô feminista/ Eu não me engano/ Que o seu pai chora no banho​”.

Douglas é um dos 15 deputados que o PSL, hoje inexistente na Casa, terá em São Paulo. Será a maior bancada.

O novato afirma que conservadores não viam o PSDB como um dos seus, “pelo contrário”. O que dizer de quando o governo Geraldo Alckmin instituiu que aluno transexual da rede estadual pode usar o banheiro que quiser? Lamentável, em sua opinião.

Para Douglas, Bolsonaro, quando declarou que “as minorias têm que se curvar às maiorias” ou desaparecer, foi mal compreendido. Não falava de LGBTs e, como ele, negros, afirma. Era uma crítica à militância desses grupos, que tentariam impor sua agenda, diz.

O futuro parlamentar diz que, tal qual o Corinthians, o bolsonarismo “tem de tudo”, então não faria sentido pregar a eliminação de minorias.

“Combate a privilégios é nossa prioridade”, diz Arthur. O MBL, que na Câmara Municipal paulistana já tem Fernando Holiday, defende que parlamentares de todas as esferas abram mão de “todas as imoralidades pagas com dinheiro público”, como carro oficial e fundo partidário.

O grupo tem financiamento privado, de pequenas a grandes doações, e não revela quem injeta dinheiro pois, segundo Arthur, “se é do setor privado não é do interesse público” (colaboradores, diz, virariam “alvo de retaliações”).

Kim afirma que, em Brasília, lutará para reformar a Previdência e o Código Penal, “para acabar com absurdos” como a saída temporária de presos.

Quer investigar “suspeitas sobre as urnas eletrônicas”, dirimidas pelo TSE mas alimentadas por bolsonaristas.

Agradeceu a vitória no Twitter. “Obrigado, meus queridos. O trabalho continua. É entrar com o pé na porta e acabar com o totalitarismo petista.”

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