Descrição de chapéu Análise Eleições 2018

Em reestreia na TV, Bolsonaro e Haddad investem em narrativa do medo

Programas buscam emoção; petista esconde Lula e cita plano de governo, e capitão acena a mulheres

Luciana Coelho
São Paulo

Como no thriller de filmes de suspense, o medo é a mensagem central na estreia dos programas eleitorais de segundo turno dos candidatos à Presidência Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que buscam evocá-lo pelo instinto.

Passada a premissa, há contraste de teor e linguagem.

Reprodução de trecho do primeiro programa eleitoral de Jair Bolsonaro (PSL) na TV no segundo turno
Reprodução de trecho do primeiro programa eleitoral de Jair Bolsonaro (PSL) na TV no segundo turno - Reprodução

A equipe do candidato do PSL, que tem agora 37,5 vezes o tempo que tinha no horário eleitoral do primeiro turno, escolheu uma linguagem institucional que lembra os filmes governamentais produzidos pelo cineasta Humberto Mauro (1897-1983) nas décadas de 1940 a 1960 a fim de promover valores nacionais, o que imprime tom passadista.

A narração e a música de fundo da peça do PSL emanam os anos 1980. A primeira imagem na tela é a da derrubada do muro de Berlim, em 1989, seguida de Cuba, alertando —erroneamente dizendo que se trata do país mais atrasado do continente— e da Venezuela, mergulhada em uma crise calamitosa.

Uma correção necessária: o menos desenvolvido é o Haiti, em 168º dos 181 lugares. A ilha socialista é a 73ª no ranking global de Índice de Desenvolvimento Humano, atrás de Chile, Argentina, Uruguai Costa Rica e Panamá, mas à frente do Brasil (79º) e outros 16 países da região, como México e Colômbia, descontadas pequenas ilhas caribenhas. 

 

A ideia é dizer que o projeto petista, com a criação do Foro de São Paulo (1990), é disseminar os modelos cubano e venezuelano, associando a isso discursos do ex-presidente Lula e imagens dele com Haddad e Dilma Rousseff. É uma narrativa forte nesta campanha, na qual o programa investe.

A escolha dos eleitores que aparecem falando no programa, recurso antigo no horário eleitoral, reforçam esse suposto temor da população. Também é reveladora do esforço para quebrar a ideia de que Bolsonaro é avesso a mulheres e negros, apesar de suas declarações passadas: primeiro aparece uma mulher branca, depois um homem negro, uma mulher negra e por fim um homem branco.

Palavras positivas tomam o lugar da mensagem negativa exibida no primeiro minuto, cobrindo a tela: “gratidão”, duas vezes, “deus”, duas vezes, “determinação” e “verdade”.

É notável também a preocupação nada amadora de mostrar Bolsonaro como alguém firme e forte, o que é providencial diante dos questionamentos de que seu vice, um general, poderia sobrepor sua opinião ao presidente de patente mais baixa, capitão.

A facada que o candidato levou em 6 de setembro, um atentado político praticado por um militante de esquerda, é mostrada sob a abordagem da resiliência.

Em vez do currículo ou projetos do deputado pelo Rio de Janeiro em seus 27 anos de Congresso, as palavras a serem lembradas, são “honesto”, “firme”, de “voz forte”, fora de “conchavos”. 

Neste ponto, o programa vira a chave para humanizar o candidato. Ele é o homem de família, casado, pai de quatro filhos homens e uma menina, Laura, que diz ter mudado sua vida. Há alguns segundos dedicados a pai e filha e ao depoimento, emocionado, do candidato. No filme, o homem capaz de derrotar uma suposta ameaça socialista e de sair-se forte após uma facada também tem, afinal, coração.

Para o terceiro vértice da campanha (medo do outro/família e fé/patriotismo), surge então o hino nacional e a mensagem “Deus acima de Todos”. 

É um programa eficiente para o eleitor bolsonarista, que bate naquilo que ele vem dizendo ao longo de toda a campanha e que o consagrou em primeiro lugar no primeiro turno, na exata ordem de prioridades da campanha: combater o PT, louvar a família, engrandecer a Pátria.

Não há espaço, porém, para planos e explicações, é um filmete que visa sobretudo os instintos e a emoção.

Por sua vez, o programa do petista Fernando Haddad começa na mesma linha, apesar do tom que remete ao que tem sido feito em marketing político ao longo da última década. 

Antes de falar de Haddad e de seus planos, uma atriz —mulher e negra, como será também a maioria dos eleitores que aparece no programa— lista casos de agressão física sofridas por minorias e militantes nos últimos dias.

Não há padrão: menciona-se aí tanto aqueles que contam com testemunhas e conclusão da polícia, como o assassinato de um professor de capoeira que declarou voto no PT por um bolsonarista horas após a eleição, como um que não tem, o de uma jovem marcada com uma suástica, que desistiu de seguir com o processo.

É lembrada, ainda, a destruição da placa com o nome da vereadora assassinada Marielle Franco, no Rio de Janeiro, por apoiadores de Bolsonaro.

Evoca-se a falta de respeito e a supressão de direitos, e em seguida multiplicam-se as imagens do candidato adversário simulando empunhar armas.

A mensagem de medo não é menos provocadora nem menos primal do que aquela lançada no programa adversário: “Se a violência está assim agora, imagine quando ele (Bolsonaro) for eleito” —narrativa na qual o PT tem investido pesadamente. 

Só aí entra Haddad em cena, propondo-se como alternativa e prometendo paz e garantia de direitos para todos. 

Lula é uma lembrança discreta —dos cinco minutos de filmete, apenas cinco segundos são dedicados ao ex-presidente preso em Curitiba, em um discurso no qual elogia Haddad por seu desempenho no Ministério da Educação.

Assim como com Bolsonaro, a trajetória de Haddad é mostrada do ponto de vista familiar: casado há 30 anos com a mesma mulher, professor, formado em direito e economia, em busca de contrastar com o terceiro casamento e os anos de estudo menos numerosos do adversário.

Esse Haddad “simpático” ainda tenta se despetizar, frisando que sua campanha (que abdicou do vermelho para adotar cores da bandeira nacional, reservando-o apenas ao número 13) “não é de um partido, mas de todos que defendem a democracia”.

A narrativa da peça tem força entre o eleitorado de Haddad, mas não encontrou o mesmo eco ainda entre partidos e políticos que o petista gostaria de trazer para o seu lado na campanha. 

Assim como no programa de Bolsonaro, o alarmismo inicial é substituído por uma música mais alegre (um samba) que prega a união.

Em contraste com o adversário, porém, o programa de Haddad mostra brevemente alguns temas de propostas do candidato para educação, salário mínimo e consumo, numa aparente tentativa de ir além das reações instintivas. É o único momento, das duas peças, em que a informação prevalece sobre a emoção.

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