Estatizante, Bolsonaro se diz convertido ao liberalismo

Economista Paulo Guedes é o 'posto Ipiranga', mas especialistas de outras áreas trabalham integrados

Igor Gielow
São Paulo

Autodeclarado um ignorante em economia, Jair Bolsonaro tem duas respostas à mão quando lhe perguntam o que pretende fazer na área.

A primeira é: Dilma Rousseff (PT) se gabava de entender do assunto e legou ao país uma das piores recessões da história. Um truísmo que deixa o interlocutor na mão. Aí vem o complemento: pergunte ao "posto Ipiranga", ou seja, ao economista Paulo Guedes.

O mote é referência da rede de distribuição de combustíveis, que apregoa a multifuncionalidade de suas lojas. O risco é a estratégia dar errado, devido à particularidade do processo decisório de Bolsonaro e a seu histórico.

Um ator de fora das escolas dos economistas públicos brasileiros, Guedes é um banqueiro de investimentos moldado no templo liberal da Universidade de Chicago (EUA).

Jair Bolsonaro e o economista Paulo Guedes em almoço com empresários na Firjan, no Rio
Jair Bolsonaro e o economista Paulo Guedes em almoço com empresários na Firjan, no Rio - Sergio Moraes - 08.jun.18/Reuters

Fez o programa do presidenciável Afif Domingos em 1989, aconselhou a candidatura natimorta de Luciano Huck à Presidência, aproximou-se de Bolsonaro em 2017 e já está nomeado ministro da Fazenda em caso de vitória.

Crê ser possível auferir R$ 1 trilhão em privatizações e vendas de patrimônio imobiliário da União para abater dívida.

Parece voluntarista, dado o cipoal regulatório. De saída, o governo Michel Temer tem pronta a venda Eletrobras e diversas concessões de infraestrutura. Mas em volume, o R$ 1 trilhão equivaleria a vender 7 vezes a participação total do governo na Petrobras.

Para Guedes, é possível zerar o déficit fiscal em um ano com isso, corte de despesas e reforma da Previdência nos moldes chilenos --com capitalização e complementação de aposentadorias. Quer o Banco Central independente.

Ele é um crítico do teto de gastos de Temer, argumentando que era preciso primeiro reformar a Previdência. Bolsonaro votou pela medida.

Concordam sobre a reforma trabalhista. Bolsonaro votou a favor da proposta e Guedes vai além: propõe a criação de uma segunda modalidade de carteira de trabalho, fora da legislação atual. Argumenta que isso criará empregos. Quem empregará os trabalhadores que optarem por seguir sob as regras atuais, essa é outra questão.

Ainda mais polêmica foi sua sugestão de que poderia recriar a CPMF, o imposto do cheque. Sugerida em uma entrevista em maio e dita com mais ênfase numa palestra revelada pela Folha em setembro, a ideia causou pandemônio.

​​Bolsonaro, ainda internado devido à facada que levara poucos dias antes, chamou tudo de mal-entendido. Guedes disse, por sua vez, que defende a unificação de cinco tributos em um único imposto.

A dupla quer também a unificação de alíquotas do Imposto de Renda para quem ganha mais de 5 salários mínimos em uma de 20%. Como isso se encaixaria no plano de manter a carga tributária inicialmente no nível atual (para baixar no futuro), é incerto, talvez passando reonerações.

A aplicação desse ideário é duvidosa. Guedes não tem experiência de gestão pública, e líderes partidários em Brasília são céticos sobre como ele encaminharia suas propostas.

E há o próprio Bolsonaro. Apesar das votações recentes e da suposta conversão ao liberalismo, sua atuação congressual sempre foi corporativa. Foi contra o fim de privilégios a parlamentares, e seu voto tinha viés estatizante.

Nos anos 1990, votou alinhado ao PT contra o Plano Real, as quebras de monopólios da Petrobras e da Telebrás, a reforma administrativa que instituiu medidas como o teto do salário no setor público e duas reformas previdenciárias.

Guedes já afirmou que irá fazer as propostas e deixar que Bolsonaro negocie com o Congresso. Diz, na mão inversa do candidato, "não entender nada de política".

A imagem do "posto Ipiranga" é também figurativa. Guedes é auxiliado por cerca de 30 pessoas a formular suas propostas econômicas.

Algumas não têm ligação com a campanha, como é o caso do ex-diretor do Banco Central Roberto Castelo Branco, consultor na área de óleo e gás. Outros estão nela, como o ex-deputado Marcos Cintra, que atua em tributação. Os ex-diretores do BNDES Rubens Novaes e Carlos Costa trabalham orçamento. Via de regra, todos evitam falar em público.

Alguns já foram repreendidos, como os irmãos Abraham e Arthur Weintraub, professores da Universidade Federal de São Paulo e especialistas em Previdência que tiveram um modelo apresentado desautorizado por Guedes.

Centralizado em Brasília, há o grupo que cuida do resto do programa de governo, coordenado pelo general da reserva Oswaldo Ferreira, especialista em infraestrutura.

Ali, uma estrela é Paulo Coutinho, professor da Universidade de Brasília focado em regulação e que desenvolve pesquisas para racionalizar o sistema portuário brasileiro.

O ponto de contato do grupo com o de Guedes é o economista Adolfo Sachsida, do Instituto de Política Econômica Aplicada. Defensor da tese de que Adolf Hitler era um político de esquerda, ele é ligado ao movimento Escola sem Partido, que combate o que chama de infiltração marxista na educação.

Por fim, há a figura do general da reserva Hamilton Mourão, vice de Bolsonaro. Ele já defendeu que o 13º salário é uma "jabuticaba" e que juros da dívida pública poderiam ser reduzidos à força --calote, para o mercado. Foi desautorizado por Bolsonaro.

Ninguém sabe se, eleito, ele seria apenas uma versão verde-oliva de José Alencar, o vice de Luiz Inácio Lula da Silva que criticava juros todos os dias, ou se suas opiniões podem colidir com as do "posto".

O desenvolvimentismo ao estilo da ditadura preconizado por Mourão também influencia o principal cérebro do programa de governo, o general da reserva Augusto Heleno.

Riscos estabelecidos, o ente amorfo chamado mercado parece ter feito sua escolha pela opção Guedes até aqui. Restará saber se ela é exequível e, principalmente, se subsistirá na hipótese de vitória.

Porta-voz econômico

Paulo Guedes, 68
Com doutorado em economia pela Universidade de Chicago, é CEO da Bozano Investimentos. Fundou o Banco Pactual, o Ibmec e o Instituto Millenium. Na eleição presidencial de 1989, coordenou o programa de Afif Domingos, do antigo PL (Partido Liberal)

Propostas de Bolsonaro para a economia

  • Unificar cinco impostos em um só, talvez nos moldes da CPMF
  • Privatização e venda de ativos da União, visando arrecadar R$ 1 trilhão
  • Alíquota única de 20% do IR para quem ganha mais de 5 mínimos
  • Reforma previdenciária com modelo de capitalização
  • Corte de despesas da União
  • Zerar déficit fiscal do governo em um ano
Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior do texto dizia que R$ 1 trilhão equivale a vender 14 vezes o volume da participação do governo na Petrobras. O correto é 7 vezes. 

Tópicos relacionados

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.