Descrição de chapéu Eleições 2018

Governo Zema em Minas será teste de ideias em estreia do Partido Novo

Eleito neste domingo, Romeu Zema será o primeiro governador da legenda criada há três anos

Raquel Landim Carolina Linhares
São Paulo e Belo Horizonte

A surpreendente vitória de Romeu Zema —eleito governador de Minas Gerais com 71,8% dos votos— transformou um dos mais importantes estados brasileiros em um teste para as ideias do Partido Novo.

Criado há apenas três anos por profissionais liberais e empresários insatisfeitos com a condução da política no Brasil, o Novo levantou bandeiras como liberalismo econômico, corte de privilégios e fim das indicações políticas.

A partir de 1º de janeiro de 2019, Zema, dono de uma rede varejista, terá a oportunidade de provar que é possível governar dessa maneira.

Se conseguir, poderá sonhar com voos mais altos, mas, se falhar, pode ser o fim de sua curta carreira política e até do projeto do Novo.

“Tanto o partido quanto o governador têm plena consciência que nosso destino está intimamente atrelado a Minas Gerais. Por isso, vamos achar as melhores pessoas para nos ajudar”, disse à Folha Moisés dos Santos Jardim, presidente do Partido Novo.

Nas tratativas com o diretório nacional do Novo em Belo Horizonte, nesta segunda-feira (30), ficou definido que haverá um processo seletivo para escolher os secretários de governo, cumprindo uma promessa de campanha de Zema de contar com auxiliares técnicos, já que se elegeu sem apoio de um coligação partidária.

Integrantes do Partido Novo vão ter a ajuda de uma empresa de recursos humanos para indicar e selecionar nomes para cada área.

A ideia é divulgar os primeiros escolhidos em até sete dias. A maior urgência é encontrar o secretário da Fazenda e chefe da Casa Civil.

O economista Gustavo Franco, que foi presidente do Banco Central e coordena o programa econômico, não aceitou o convite para assumir a Fazenda. Ele, porém, vai auxiliar na escolha da equipe do novo governo mineiro e dará consultoria aos secretários.

Um dos cotados para ao cargo é Gustavo Barbosa, ex-secretário da Fazenda do Rio de Janeiro, que comandou a renegociação da dívida daquele estado com o governo federal. Ele foi trazido para a equipe pelo próprio Franco.

Barbosa tem experiência naquela que promete ser a primeira missão do novo governador: renegociar a dívida de Minas Gerais com a União. Fontes próximas ao partido Novo dizem que, sem resolver o nó das contas públicas, não será possível fazer mais nada.

A Lei Orçamentária estadual prevê déficit de R$ 11,4 bilhões em 2019, mas o governador eleito acredita que o rombo pode ser maior. Desde 2016, os servidores estaduais recebem salário de forma parcelada e atrasada e atual administração deve às prefeituras cerca de R$ 9 bilhões em repasses para saúde, educação e outros serviços.

A falta de recursos do governo estadual torna difícil até a formação do secretariado, pois será preciso encontrar especialistas dispostos a encarar o desafio de melhorar áreas vitais como segurança e educação sem orçamento. Zema já anunciou que vai reduzir o número de secretarias de 21 para 9.

Como boa parte das medidas de ajuste fiscal vai precisar de apoio da Assembleia estadual, o governador eleito também busca um nome com bom trânsito político para a Casa Civil. Será o primeiro teste do modelo do Partido Novo de governar sem alianças e já estuda-se a possibilidade de convidar alguém de outra agremiação. 

Entre os 28 partidos presentes na fragmentada Assembleia mineira, os que têm mais afinidade com o ideário defendido pelo Novo são o PSL, do presidente eleito Jair Bolsonaro, e o PSDB, do candidato derrotado no segundo turno, senador Antonio Anastasia.

A maior bancada, no entanto, é do PT, partido do atual governador Fernando Pimentel, que não conseguiu se reeleger.

Durante a campanha, Zema disparou nas pesquisas de intenção de voto depois de ter declarado apoio a Bolsonaro no último debate da TV antes do primeiro turno.

O episódio provocou um entrevero entre Zema e o Novo, que defendia a candidatura de João Amoedo, ex-banqueiro e fundador do partido. O mal-estar, contudo, já teria sido superado, já que o futuro político do governador e o do partido estão entrelaçados.

Para o cientista político Fabio Wanderley Reis, da UFMG, o apoio a Bolsonaro foi fundamental para a vitória de Zema nas eleições. “A ideia de empresários comandando um governo tem pouco apoio popular”, afirma. 

O Novo agora terá a oportunidade de testar se é possível ou não gerir um estado como se fosse uma empresa.

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