Juiz que derrubou WhatsApp vira 'visionário incompreendido'

Em meio a correntes de fake news, internautas ironizam que fim de aplicativo seria solução

Sarah Mota Resende
São Paulo

Alçados à fama de vilões e carrascos no passado, juízes que mandaram bloquear o aplicativo de mensagens instantâneas WhatsApp no Brasil voltaram a ser assunto pop nas redes sociais nesta eleição, agora sob outra perspectiva: como visionários incompreendidos, heróis à frente de seu tempo.

Com boas doses de humor, internautas "ressuscitaram" as decisões de magistrados, que começaram a surgir há quase quatro anos, em memes que circulam pelo próprio WhatsApp e em redes sociais com Facebook e Twitter.

“Gostaria aqui de pedir desculpas publicamente por zoar e ir contra aquele juiz que tentou proibir o WhatsApp no Brasil. O senhor foi um gênio incompreendido, uma mente à frente do seu tempo”, diz uma das piadas compartilhadas na esteira das fakes news sobre o pleito de 2018 que surgem, principalmente, no WhatsApp —um aplicativo fechado e que não permite rastreamento, o que praticamente impossibilita descobrir o autor de uma notícia falsa criada e disseminada por lá.

Publicada no Twitter pelo perfil Mussum Alive no dia 10 de outubro, a mensagem, que não cita o nome de nenhum juiz, ganhou variações nos últimos dias. "Alguém diz para aquele juiz que bloqueou o WhatApp aquela vez que a gente não fica bravo se ele bloquear agora", escreve um outro internauta também no Twitter. 

"Solução a curto prazo só tirando o WhatsApp do ar até às eleições. Cadê aquele juiz visionário?", diz um terceiro tuíte. "No fim quem tava certo era o juiz que queria proibir o WhatsApp”, brinca outro usuário. 

Entre 2015 e 2016, o aplicativo de troca de mensagens foi quatro vezes alvo de decisões judiciais de bloqueio tomadas após a empresa se negar a compartilhar informações sobre investigações criminais.

No primeiro caso, em fevereiro de 2015, um juiz do Piauí determinou o bloqueio do WhatsApp em razão de a empresa supostamente ter se negado a colaborar com investigações da Polícia Civil do estado.

A ordem foi encaminhada aos provedores de internet e de conexão móvel, como as operadoras de telefonia, e não à companhia de mensagens.

A decisão foi suspensa por um desembargador do Tribunal de Justiça do Piauí após analisar mandado de segurança impetrado pelas teles.

Mas o caso mais famoso aconteceu em dezembro do mesmo ano. 

Em decisão revelada pela Folha, a Justiça mandou as operadoras de telefonia fixa e móvel bloquearem o WhatsApp em todo o país por 48 horas em represália pela empresa não ter liberado informações sigilosas mesmo após autorização judicial. 

A medida foi determinada pela 1ª Vara Criminal de São Bernardo do Campo e durou 13 horas.

No ano seguinte, em maio de 2016, um juiz da cidade de Lagarto (SE) pediu o bloqueio do aplicativo por 72 horas em todo o país.

O magistrado queria que a companhia repassasse informações sobre uma quadrilha interestadual de drogas para uma investigação da Polícia Federal, o que a companhia se negava a fazer.

O bloqueio durou 25 horas até ser suspenso pelo desembargador Ricardo Múcio Santana de Abreu Lima, do Tribunal de Justiça de Sergipe, que disse que a proibição do aplicativo no Brasil gerou "caos social em todo o território".

Dois meses depois, outra juíza do Rio de Janeiro determinou o bloqueio do WhatsApp no Brasil . 

O motivo, assim como aconteceu em outras oportunidades, envolvia o fato de o aplicativo não compartilhar informações sobre investigações criminais.

Se, entretanto, na época a criptografia do WhatsApp incomodava investigações da Justiça, para desespero dos usuários, que sofriam com abstinência do aplicativo, agora os insatisfeitos são os próprios, que se vêem inundados em fake news sobre política.

Mas, a depender do presidenciável do PSL, Jair Bolsonaro, o bloqueio de WhatsApp no Brasil vai deixar de ser ameaça. É que como deputado federal, o atual líder nas pesquisas apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição para tentar barrar a ação de juízes que suspenderam o WhatsApp. 

Bolsonaro defendeu que apenas o Supremo Tribunal Federal possa decidir pela suspensão do aplicativo. A mesma regra valeria para outras empresas de mídia social, como Facebook e Telegram.

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