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Modelo emergente faz brasileiro preferir candidato com imagem de defensor de ricos

Campo foi feito antes de informações sobre participação de empresas na contratação de serviços via WhatsApp

Mauro Paulino Alessandro Janoni
São Paulo

Os dados divulgados pelo Datafolha sugerem estabilidade do quadro eleitoral para presidente da República a dez dias do segundo turno. Se a onda conservadora parou de evoluir, o fez em patamares confortáveis a Jair Bolsonaro (PSL).

Os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que disputam o segundo turno
Os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que disputam o segundo turno - Ricardo Moraes/Amanda Perobelli/Reuters

A maré está favorável a ele, que consegue oscilações positivas em segmentos estratégicos como os menos escolarizados e os mais jovens.

No entanto, vale ressaltar que o campo foi feito antes de informações reveladas pela Folha sobre a participação de empresas na contratação de serviços via WhatsApp para a campanha de Bolsonaro. Dependendo de como a repercussão se dará e em quais estratos se concentrará, mudanças podem ou não acontecer.

A atual diferença em 18 pontos percentuais para Fernando Haddad (PT) só é superada, em período equivalente, pelas vantagens de Lula sobre Serra e Alckmin nas fases decisivas dos pleitos de 2002 e 2006, quando o petista chegou a abrir vantagens de 32 e 20 pontos, respectivamente.

No segundo turno de 1989, faltando dez dias para a eleição, Fernando Collor (PRB) oscilou negativamente de 54% para 52% e Lula positivamente de 46% para 48%, empatando tecnicamente a corrida. Em 2010, na mesma época, Dilma Rousseff (PT) chegou a 12 pontos de diferença em relação a José Serra (PSDB) e em 2014, nesse período, a petista ainda estava numericamente atrás de Aécio Neves (PSDB) —a virada foi detectada a uma semana da votação.

Com o panorama, percebe-se que a campanha de Haddad entra em período crítico, onde só uma turbulência importante poderia afetar a “velocidade de cruzeiro” da candidatura do capitão reformado. O grau de cristalização do voto supera 90%, especialmente entre eleitores de Bolsonaro.

Esse grau de fidelização, combinado à rejeição majoritária ao petista, sugere diminuição do espaço a ser trabalhado pelo PT. A desconstrução do adversário em estratos de grande peso quantitativo na composição do eleitorado, como os setores intermediários da classe média, poderia ser uma saída.

Haddad repete em escala nacional a dificuldade que demonstrou em sua campanha de reeleição para prefeito de São Paulo, de se comunicar com esses segmentos economicamente ativos, de escolaridade média e superior, mas que ganham salários baixos e não alcançam os níveis mais altos de acesso a itens de conforto.

Diferentemente dos excluídos, presentes em maior parte no Nordeste (único estrato em que o petista ganha de Bolsonaro com 60% dos votos válidos), o miolo da classe média passou por um processo de aburguesamento de valores em que o autoritarismo de Bolsonaro promete trazer ordem aos serviços públicos, para que possam alcançar na esfera privada (proteção à família, instituição mais valorizada pelos brasileiros), por méritos próprios (trabalho), o estilo de modelos das classes mais altas que aspiram. Tudo sob a proteção divina (a maioria da população acredita na existência de Deus).

Não à toa, a maioria descarrega votos no candidato do PSL, mesmo o considerando, segundo os dados, defensor dos ricos. É a primeira vez que um candidato à Presidência da República lidera a disputa carregando a alcunha.

Desde que o Datafolha começou a aplicar essa pergunta, os nomes mais citados no quesito eram justamente os que viriam a ser derrotados —os tucanos Geraldo Alckmin, José Serra e Aécio Neves.

Talvez porque nenhum deles trouxesse consigo não só a marca forte de combate à violência, adequada à demanda, como também e principalmente a sinceridade que o eleitor identifica em Bolsonaro.

Haddad, pessoalmente, não domina esses códigos, ao contrário de seu padrinho Lula, que conseguiu liderar a corrida presidencial mesmo preso por corrupção. 

Nas perguntas de imagem dos candidatos, o ex-prefeito de São Paulo é primeiro colocado em apenas dois tópicos —o que mais defende os pobres (espólio lulista) e o que mais faz promessas que não poderá cumprir (marcador de desconfiança).

O antipetismo é enraizado nas classes mais altas, mas é relativizado pela figura do ex-presidente nos setores intermediários da classe média. Bolsonaro ocupou boa parte desse território pela linguagem anti-intelectual, já que o PT perdeu seu interlocutor com o segmento.

Sob esse aspecto, a proposta de Ciro Gomes (PDT) no primeiro turno de tirar o nome dos devedores do SPC tem muito mais aderência junto ao estrato cidadão/consumidor do que políticas públicas de difícil compreensão. Mas os irmãos Gomes, candidatos a mediar a interlocução com o segmento no segundo turno, optaram por protagonizar, a exemplo do general Mourão do lado adversário, desconfortos à campanha.

Agora, engana-se quem acredita que a possível vitória de Bolsonaro configure um “cheque em branco” da população ao capitão reformado. Como se verá nos dados que serão divulgados por esta Folha nos próximos dias, os brasileiros condenam práticas antidemocráticas e violentas que marcaram a ditadura militar no país.

Paulino é diretor-geral do Datafolha e Janoni, diretor de pesquisas do instituto

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