Onda conservadora intensifica tendências apontadas pelas pesquisas

Para institutos, avanço da direita influiu na definição do voto até última hora

Ricardo Balthazar
São Paulo

A avalanche conservadora que definiu as eleições de domingo (7) ajuda a explicar as diferenças observadas entre as pesquisas eleitorais divulgadas pelos principais institutos na véspera da votação e os resultados das urnas.

Os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que vão disputar o segundo turno
Os candidatos Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT), que vão disputar o segundo turno - Miguel Schincariol/Daniel Ramalho/AFP

Políticos e comentaristas costumam apontar essas diferenças como indícios de que as pesquisas seriam pouco confiáveis, mas uma comparação dos maiores levantamentos realizados na reta final da campanha mostra que eles permitiram identificar várias tendências que se refletiram nos números oficiais.

As pesquisas do Datafolha e do Ibope sobre a eleição presidencial indicaram trajetórias idênticas para Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) nas semanas anteriores ao primeiro turno, mostrando o crescimento de ambos. 

As diferenças entre os institutos estiveram sempre dentro da margem de erro, que nos dois casos é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, ou ocorreram quando seus pesquisadores foram a campo em dias diferentes. 

“Essa coincidência demonstra de forma científica que as pesquisas retrataram com fidelidade a situação observada em cada momento da eleição”, afirma o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino. 

Os dois institutos fazem suas entrevistas com os eleitores pessoalmente, mas empregam metodologias diferentes. O Datafolha ouve os eleitores nas ruas, em pontos de grande circulação, e o Ibope vai até a casa dos entrevistados.

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, Bolsonaro teve 46% dos votos válidos no domingo, sem contar votos em branco e nulos. No sábado (6), véspera da eleição, o Datafolha afirmou que o candidato do PSL tinha 40% das preferências e o Ibope indicou 41%. 

A diferença não significa que as pesquisas estavam erradas, mas sugere que Bolsonaro continuou ganhando votos. A melhor evidência disso é a pesquisa de boca de urna feita pelo Ibope no domingo, com metodologia igual à dos estudos anteriores, mostrando crescimento do capitão.

Como lembra o diretor-geral do Datafolha, Mauro Paulino, pesquisas de opinião não devem ser usadas para antecipar resultados, mas ajudam a detectar movimentos do eleitorado e fornecem informações úteis para entendê-los.

Seus números não permitem prever com segurança resultados, porque muitas pessoas só se definem nas últimas horas antes do encerramento das seções eleitorais. Segundo o Datafolha, na véspera da eleição, 22% dos eleitores admitiam mudar o voto.

Na eleição presidencial de 2014, quando Aécio Neves (PSDB) ultrapassou Marina Silva (Rede) na reta final do primeiro turno, 23% se definiram na última semana da campanha e 9% só decidiram o que fazer no dia da votação.

A velocidade com que as informações circulam nas redes sociais e a adoção de novas tecnologias, como os aplicativos para troca de mensagens em telefones celulares, contribuem para mudanças de última hora, lembram os institutos.

Segundo o Datafolha, 40% dos bolsonaristas dizem ter o hábito de compartilhar notícias de política pelo WhatsApp. Entre os eleitores de Haddad, são 22% os que têm o mesmo hábito. Ou seja, os apoiadores de Bolsonaro tendem a ser mais influenciados pelas informações nas redes.

Além disso, há evidências de que os eleitores costumam definir por último seus candidatos às eleições estaduais. Isso explica viradas como a que ocorreu em São Paulo, onde o governador Márcio França (PSB) ultrapassou Paulo Skaf (MDB) na reta de chegada.

Embora os dois institutos tenham mostrado Skaf com vantagem significativa sobre França na véspera da eleição, nas duas pesquisas a trajetória do candidato do MDB era descendente e o governador estava ganhando terreno devagar.

“A polarização da eleição presidencial mobilizou as atenções e as pessoas só pensaram no resto depois”, diz a diretora do Ibope, Márcia Cavallari. “Foi a disputa presidencial que organizou o processo de definição de voto.”

A onda de direita que deu impulso a Bolsonaro nos últimos dias ajuda a entender o que aconteceu no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, estados em que as urnas produziram resultados muito diferentes dos números que apareceram nas pesquisas da véspera.

Nos dois casos, candidatos a governador que se associaram a Bolsonaro no fim da campanha eleitoral e que apareciam em alta nas pesquisas ganharam impulso nos últimos dias e chegaram ao segundo turno. 

No Rio, Wilson Witzel (PSC) passou a andar com um dos filhos do capitão, Flávio Bolsonaro (PSL), em setembro. Flávio se elegeu senador e ajudou Witzel a chegar em primeiro no domingo, garantindo uma vaga no segundo turno. Em Minas, Romeu Zema (Novo) saltou para chegar ao segundo turno após pedir votos para Jair Bolsonaro num debate, poucos dias antes da votação. 

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