Descrição de chapéu Eleições 2018

PT resiste a anunciar nomes para eventual equipe econômica de Haddad

Em outra frente, auxiliares do candidato trabalham por aproximação com empresários e investidores

Marina Dias Catia Seabra
São Paulo

A cúpula da campanha de Fernando Haddad (PT) ainda resiste a anunciar nomes para uma possível equipe econômica caso o petista vença as eleições em 28 de outubro.

Por outro lado, como mostrou a Folha no domingo (7), Haddad está ciente de que é preciso ser portador de um discurso mais moderado frente ao mercado e já escalou auxiliares de sua confiança para abrir diálogo com empresários e investidores há algumas semanas.

Dirigentes do partido argumentam que “o mercado não vai votar no PT”, porque já foi seduzido pelas ideias liberais do economista Paulo Guedes, o guru de Jair Bolsonaro (PSL), e que a prioridade agora é falar “diretamente com o povo mais pobre”.

Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência da República
Fernando Haddad, candidato do PT à Presidência da República - Amanda Perobelli/REUTERS

“Se o mercado escolheu Jair Bolsonaro como candidato, queremos que o povo escolha o Haddad. O mercado vai escolher quem quer, mas vai ter que conviver com quem for eleito”, afirmou Jaques Wagner, novo coordenador e articulador político da campanha de Haddad.

"O candidato do mercado é o do PSL, mas vamos provar que o candidato do povo é Haddad e o mercado vai se curvar", completou.

A tese é que será preciso confrontar medidas econômicas do governo Lula com propostas de Bolsonaro e mostrar que o capitão reformado votou por projetos considerados contra os trabalhadores e que seu eventual governo vai prejudicar a população mais carente.

Com essa retórica, os petistas pretendem recuperar o voto tradicionalmente lulista que migrou para Bolsonaro, inclusive no Nordeste —o candidato do PSL terminou o primeiro turno com 46% dos votos, contra 29% de Haddad.

Reportagem da Folha desta terça (9) revelou que o capitão reformado está reunindo apoio do setor privado para levar executivos para o governo, caso seja eleito neste segundo turno. 

Entre os nomes estão Alexandre Bettamio, presidente-executivo para a América Latina do Bank of America, João Cox, presidente do conselho de administração da TIM e Sergio Eraldo de Salles Pinto, da Bozano Investimentos.

Os petistas dizem que a divulgação desses perfis é uma tática de Bolsonaro para se mostrar menos frágil.

Na reta final do primeiro turno, o candidato do PSL precisou calibrar ou até mesmo desmentir diversas declarações de seus auxiliares, inclusive de Guedes, que sinalizou com a criação de um imposto nos moldes da CPMF.

Os aliados políticos de Haddad dizem que nomear pessoas antes de vencer a disputa pode parecer arrogância e que os ministeriáveis devem ser anunciados somente se o petista ganhar a eleição.

Já o grupo mais próximo ao candidato quer que ele seja portador de uma mensagem mais moderada —comprometida com a austeridade e o fim do déficit fiscal em quatro anos.

Tentar conquistar o apoio de parte do mercado e de setores mais amplos da sociedade, além dos partidos, na avaliação desses auxiliares, também é uma forma de Haddad tentar conter a onda de apoio Bolsonaro.

O ex-presidente Lula, antes refratário à ideia de fazer acenos para o mercado já no primeiro turno, liberou Haddad para ter autonomia em sua campanha.

O recado foi interpretado por esse grupo como senha para continuar a tocar as conversas, inclusive com integrantes do setor financeiro.

Eles querem mostrar que um eventual governo petista não será de radicalismo econômico e que o candidato está disposto a flexibilizar pontos polêmicos do programa de governo do PT —e incluir bandeiras de outros candidatos, como Ciro Gomes (PDT), como contrapartida para o fechamento de aliança com ex-adversários.

Uma das ideias do ex-governador do Ceará que pode ser incorporada por Haddad diz respeito a medidas para a indústria.

Os dois grupos, no entanto, concordam que é preciso fazer o aceno ao chamado centro político. 

A ideia é que as alianças programáticas sejam feitas com partidos da centro-esquerda, como PDT, PSB e PSOL, mas que outra frente mais ampla, que pode contar até mesmo com integrantes do PSDB, por exemplo, precisa ser criada em defesa dos valores da democracia.

PSOL, de Guilherme Boulos, já anunciou apoio a Haddad.

PSB e PDT seguem em conversas com petistas e devem anunciar suas decisões até o fim da semana.

Jaques Wagner, senador eleito pela Bahia, vai coordenar a articulação política.

Outros grupos, de parlamentares eleitos, foram escalados para fazer contato com evangélicos, católicos e integrantes de movimentos sociais e sindicais, além de coordenar as agendas nos estados.

Os candidatos à Presidência Fernando Haddad e Jair Bolsonaro - Rodolfo Buhrer/Reuters e Nelson Almeida/AFP

Comentários

Os comentários não representam a opinião do jornal; a responsabilidade é do autor da mensagem.