Sem rastro, WhatsApp pauta eleição de 2018

Aplicativo foi usado para replicar campanhas e espalhar rumores e notícias falsas

Amanda Lemos Débora Sögur Hous Paulo Passos
São Paulo

Mais de cinco horas de exposição na TV na propaganda eleitoral para cada presidenciável, 186 milhões de visualizações em vídeos no YouTube dos dois, um único post do líder nas pesquisas no Facebook visto por 1,9 milhão de pessoas.

A disputa entre Jair Bolsonaro (PSL) e Fernando Haddad (PT) tem números que expõem o tamanho e o caráter multiplataforma da campanha.

Entre tantos meios, não há um dado definitivo que aponte o mais influente na disputa presidencial. É possível afirmar, porém, que nenhuma plataforma pautou tanto o debate no segundo turno quanto o WhatsApp. 

Líder nas pesquisas, Bolsonaro teve uma forte atuação de seus eleitores no aplicativo. Reportagem da Folha mostrou que empresários impulsionaram disparos por WhatsApp contra o PT.

O aplicativo de troca de mensagens não deixa rastros e métricas que permitam análises mais precisas sobre sua influência. A origem de mensagens, quantas pessoas replicaram notícias (verdadeiras e falsas), o número de grupos existentes —nada disso é divulgadas pelo WhatsApp, que informa apenas o número de usuários no Brasil: 120 milhões. 


Segundo pesquisa Datafolha, 65% dos eleitores afirmam usar o aplicativo de troca de mensagens. Desses, 47% dizem acreditar nas notícias que recebem pela rede social. 

A rede foi usada por apoiadores dos dois candidatos para replicar panfletos digitais.

"O efeito [dessa ação] é exponencial. Um compartilha para um grupo com 50, que compartilham com outro que tem 50. Não temos a dimensão que isso pode ganhar", afirma Fábio Vasconcellos, cientista político e professor da ESPM-RJ e UERJ.

Especialistas apontam esse caráter de escuridão no aplicativo como área fértil para o compartilhamento de notícias falsas e boatos. Foi assim na eleição de 2018.

"Vimos uma propagação de fake news. Muitas são compartilhadas de forma voluntária em redes que [no caso dos apoiadores de Bolsonaro] não foram criadas agora. São movimentos que se organizam desde 2013", afirma Mariana Valente, diretora do InternetLab e doutora em sociologia jurídica pela USP. 

Desde 2016, o WhatsApp limita o número de participantes em cada grupo —máximo de 256— e a quantidade de destinatários para quem um usuário pode encaminhar uma mensagem— 20 pessoas ou grupos. As medidas foram adotadas para tentar limitar a replicação de fake news.


Segundo Fábio Vasconcellos, por mobilizar um contingente expressivo de eleitores fortemente engajados, a atuação no WhatsApp potencializa a disseminação das correntes. "Existem muitas dúvidas em como classificar e conceituar fake news", afirma o cientista político. "Elas têm um componente de intencionalidade, que não existe numa notícia errada", completa.

A Folha criou um canal —Folha Informações— para checar boatos e correntes. Desde o fim do primeiro turno, o jornal recebeu 892 mensagens de leitores pedindo verificação de materiais compartilhados via WhatsApp. A média diária foi de 52,5 mensagens recebidas.

Os principais conteúdos das mensagens eram relacionados ao PT (354), seguidos de Bolsonaro (184), fraude na eleição (96), agressões a jornalistas da Folha (51) e desconfiança em pesquisas eleitorais (50).

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