Descrição de chapéu Eleições 2018

Votação alta no capitão causou explosão de partidos, dizem pesquisadores

Realinhamento de forças vai exigir nova forma de convivência política, afirmam especialistas

Mario Cesar Carvalho
São Paulo

A onda que levou o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL) a esbarrar numa vitória no primeiro turno causou a destruição de um sistema partidário que vigorou por mais de 20 anos (ou seis eleições) e tinha como eixo a polaridade entre PT e PSDB.

É essa a avaliação, com pequenas variações, de três cientistas políticos consultados pela Folha: Sérgio Abranches, Carlos Pereira, professor da Fundação Getúlio Vargas, e Carlos Ranulfo Melo, titular do departamento de ciência política da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).

"O eixo político que estruturou o jogo político nos últimos 25 anos acabou", diz Abranches, criador do conceito de presidencialismo de coalização em 1988.

O realinhamento partidário vai exigir uma nova forma de convivência política, e Bolsonaro não é a pessoa mais indicada para atuar como agregador, segundo ele. Os ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso e Lula tinham esse espírito agregador que falta a Bolsonaro, segundo ele.

"O que vem pela frente são águas que nunca navegamos. Bolsonaro tem uma mentalidade muito autoritária para reorganizar o jogo político", afirma.

O risco, compara Abranches, é de ele repetir a trajetória de dois presidentes que governaram sem estrutura partidária a apoiá-los: Janio Quadros e Fernando Collor. Ambos não acabaram o mandato.

Abranches, criador do conceito de presidencialismo de coalizão em 1988, aposta que Bolsonaro terá de se aliar com outros partidos para governar porque são as lideranças partidárias que editam as regras no Congresso. “Não é possível governar sem coalizão, mesmo que seja disfarçada”.

Segundo ele, se Bolsonaro vencer no segundo turno com votação expressiva ele poderá fazer o que quiser no Congresso por 90, 100 dias. “Depois a coisa complica”.

Complica porque, de acordo com ele, os parlamentares sempre pedem algo em troca de apoio e não se sabe como o capitão reagirá nesse jogo.Melo diz que a votação em Bolsonaro inaugura uma nova fase na política brasileira.

“O sistema partidário que tínhamos está acabando. Partidos grandes perderam forças. A crise vai se aprofundar. Você vai ter governadores e o presidente sem uma base de apoio. Se a situação está ruim, vai piorar. O obscurantismo vai tomar conta do Brasil”.

Carlos Pereira é mais otimista do que Melo. Segundo ele, a destruição que ocorreu no sistema partidário pode ser criativa.

“É possível que, com essa destruição criativa, nasça um sistema partidário que não fique divorciado dos eleitores”, afirma.

Para que ocorra a destruição criativa, Bolsonaro terá de migrar para o centro se quiser vencer o segundo turno, na opinião dele.

“A radicalidade de Bolsonaro é insustentável a longo prazo. É melhor que ele perceba que o nosso presidencialismo exige moderação. Se ignorar isso, só vai ser bem sucedido enquanto durar a lua de mel.”

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