Delator aponta cobrança desorganizada por propina na gestão Pezão

Relato contraria tese de PGR sobre manutenção de esquema de Cabral sob atual gestão; percentual foi reduzido, diz empreiteiro

Rio de Janeiro

A delação premiada do diretor de uma empreiteira do Rio de Janeiro contraria o relato da Procuradoria-Geral da República de que o esquema de corrupção do ex-governador Sérgio Cabral (MDB) permaneceu igual sob a liderança do governador afastado Luiz Fernando Pezão (MDB), preso na quinta-feira (29) na Operação Boca de Lobo.

Ex-diretor da União Norte, Marcos Barbosa Silva afirmou em delação premiada que o pedido de propina permaneceu na gestão Pezão (2014-2018). Mas a cobrança era feita sem a organização da administração anterior, de forma “mais pessoal”.

“Na mudança para o governo Pezão, em 2015, o colaborador sentiu um descontrole maior. Em obras que o colaborador pagava 5% [na gestão Cabral] passou a pagar apenas 1%. Diminuiu bastante a pressão, havendo casos inclusive em que o colaborador deixou de pagar”, afirma transcrição do depoimento do delator à Procuradoria-Geral da República em maio de 2017.

“Antes se falava em taxa de governo; com o governo Pezão, ao colaborador ficou a impressão de que a cobrança era mais pessoal”, declarou ele à PGR.

A procuradora-geral da República, Raquel Dodge, afirmou na quinta-feira (29) que Pezão foi preso porque o “esquema criminoso ainda não cessou”. Segundo ela, o governador afastado se tornou a liderança da quadrilha, além de continuar promovendo a lavagem de dinheiro da propina por meio de ocultação ou dissimulação dos recursos ilegais.

Silva afirma que, na Secretaria de Obras na gestão Pezão, tratava da propina com o secretário José Iran Jr., também preso na Boca de Lobo.

O ex-diretor da União Norte disse que a partir de 2014, quando Pezão assumiu, a cobrança de 5% cessou. O fim da exigência coincide, segundo ele, com a saída do ex-secretário Hudson Braga, em julho, e a assunção ao cargo de José Iran Jr., que passou a pedir 1%.

“Foi a partir desta época [gestão Pezão] que as cobranças ficaram meio desorganizadas, após a saída do Hudson. Nesse contexto o José Iran ganhou vida própria, foi quando fui negociar diretamente com ele”, afirmou o delator em maio do ano passado.

Hudson Braga era braço direito de Pezão e já foi condenado por corrupção na Operação Calicute. Era o responsável por cobrar a “taxa de oxigênio” na Secretaria de Obras durante a gestão Cabral (2007-2014). Ele chegou a negociar uma delação premiada com a PGR na qual mencionaria pagamento de propina para Pezão, mas o acordo não foi fechado.

Silva foi um dos principais delatores da Operação C’est fini, que prendeu, entre outros, a cúpula do DER-RJ (Departamento de Estradas e Rodagem). Ele reproduziu a informação dada por outros executivos de empreiteiras, segundo a qual eram cobrados 5% de propina na gestão Cabral, com 1% adicional para membros do TCE (Tribunal de Contas do Estado).

“Qualquer resistência no pagamento da propina [durante a gestão Cabral] trazia imediatamente a consequência do não pagamento, o que causava grandes prejuízos à empresa do colaborador. No governo Cabral havia algo muito organizado em termos de cobrança de propina”, afirmou ele.

Procurada, a PGR não se manifestou sobre o depoimento.

Há, contudo, outras provas de recebimento de propina contra o governador afastado no exercício do mandato. Elas se referem a remessas de donos de empresas de ônibus entre julho de 2014 e maio de 2015 e pagamentos a conselheiros do TCE (Tribunal de Contas do Estado).

São esquemas também atribuídos a Cabral. Mas a fonte principal de propina do ex-governador eram empreiteiras, segundo as investigações.

Pezão foi preso preventivamente sob suspeita de participar e manter o esquema de corrupção de Cabral. A decisão foi tomada pelo ministro Félix Fischer, do STJ (Superior Tribunal de Justiça), foro especial de governadores.

De acordo com o delator Carlos Miranda, gerente da propina de Cabral, Pezão recebia uma mesada de R$ 150 mil quando era vice-governador, secretário de Obras e coordenador de infraestrutura —cargos por qual passou entre 2007 e 2014 até assumir o governo.

Parte do pagamento foi corroborado, para a Procuradoria, com a apreensão de bilhetes na casa de Luiz Carlos Bezerra, espécie de carregador de mala de Miranda a partir de 2010. Há referência nos papéis a “Big foot”, “Pé”, entre outros apelidos, que se referem ao governador afastado, segundo Bezerra e Miranda.

Pezão negou à Polícia Federal ter recebido propina ou mesadas. Disse apenas que recebeu de presente de aniversário de Cabral um sistema de som em sua casa em Piraí. Segundo o jornal O Globo, os donos da empresa responsável por instalar o equipamento afirmaram que o serviço foi pago em dinheiro vivo por Miranda.

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