Prisão de Pezão antecipa fim do grupo político há duas décadas no poder no RJ

Esquema comandado por Sérgio Cabral contaminou quatro Poderes e instituições; Judiciário é o único ainda intacto

Rio de Janeiro

A prisão do governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (MDB), nesta quinta-feira (29), antecipa em pouco mais de um mês a retirada do poder de um grupo que dominou por mais de vinte anos o estado.

Os eleitores fluminenses já haviam decidido dar uma guinada na política ao eleger o ex-juiz Wilson Wiztel (PSC) como governador em vez do ex-prefeito Eduardo Paes (DEM), ex-aliado de Sérgio Cabral (MDB) e que recebeu apoio envergonhado de Pezão.

O ministro Félix Fischer, do STJ (Superior Tribunal de Justiça) entendeu que as suspeitas sobre o atual governador não permitiam que o grupo emedebista ficasse mais 31 dias no poder.​

O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (MDB), preso durante operação da Polícia Federal
O governador do Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão (MDB), preso durante operação da Polícia Federal - Ricardo Moraes - 29.nov.2018/Reuters

As investigações apontam que o esquema de corrupção formado na década de 1990 na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) ganhou corpo no estado com a vitória de Cabral em 2006 ao Palácio Guanabara.

Cabral assumiu a presidência da Alerj em 1995, onde passou a coordenar os pagamentos de propina a deputados estaduais feitos por empresário do setor de transporte, segundo as investigações. Foi sucedido no cargo e na função ilícita pelos aliados Jorge Picciani e Paulo Melo. Os três estão presos.

Ao assumir o governo, Cabral ampliou as fontes de propina para empreiteiras e toda sorte de fornecedores do estado, segundo o Ministério Público Federal. As 26 denúncias contra ele descrevem o pagamento de, no total, R$ 418 milhões em propina entre 2007 e 2014 —valor que investigadores reconhecem ser subestimado.

Os dados disponíveis apontam que a corrupção se espraiou pelos órgãos de controle do estado. Além do Executivo e Legislativo, o TCE (Tribunal de Contas do Estado) —formado até o ano passado por ex-deputados ou seus indicados— também passou a ter a sua cota no esquema de corrupção. Cinco dos seis membros da Corte foram afastados no ano passado.

Cabral também cooptou, segundo as investigações, o Ministério Público estadual. O ex-procurador-geral de Justiça Cláudio Lopes está preso sob suspeita de receber uma mesada de R$ 150 mil durante sua gestão (2008-2012).

O ex-governador ampliou as dimensões do esquema. A delação de Carlos Miranda, gerente da propina de Cabral, descreve mesadas a mais de 60 pessoas. Vão desde os R$ 150 mil pagos a Lopes e Pezão a R$ 500 entregues mensalmente a um motorista do Palácio Guanabara.

Até o momento, o Poder Judiciário é o único ainda não envolvido no esquema de corrupção. A reportagem apurou que não há menção a magistrados entre os 81 anexos iniciais da delação de Miranda. Ele, contudo, pode fazer complementos ao acordo, homologado há um ano pelo Supremo Tribunal Federal.

O envolvimento da ex-primeira-dama Adriana Ancelmo, do ex-secretário Régis Fichtner e do procurador Cláudio Lopes aumentou o rumor de que os acusados poderiam mencionar o Judiciário numa eventual delação. Os dois primeiros disputavam a indicação de desembargadores ao Tribunal de Justiça e ministros do STJ. Contudo, todos permanecem negando as acusações de que são alvos.

Com a prisão de Pezão, todos os últimos quatro governadores eleitos passaram pela cadeia. Anthony e Rosinha Garotinho foram detidos em razão de acusações da Justiça Eleitoral, sem relação com a Lava Jato.

Anthony Garotinho, contudo, também foi citado na delação do ex-presidente do TCE Jonas Lopes, seu ex-secretário de Casa Civil. O colaborador afirmou que já na gestão do ex-governador distribuía propina a conselheiros da Corte. Ele nega a acusação.

Garotinho teve convivência tensa com Cabral e Picciani desde que assumiu o estado, em 1998. Isso, contudo, não o impediu de apoiar o então senador para o cargo em 2006 e indicar Pezão para a vice. Os dois romperam ainda na transição.

O único ex-governador eleito do Rio de Janeiro ainda vivo que não foi preso é o ministro Moreira Franco, também alvo de investigações na Lava Jato, eleito em 1986. Também foram eleitos desde 1982 Leonel Brizola e Marcello Alencar, ambos mortos.

Erramos: o texto foi alterado

Versão anterior desse texto dizia que Anthony Garotinho apoiou Sérgio Cabral para o governo do Rio em 2002. O texto foi corrigido.

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