Descrição de chapéu Governo Bolsonaro

Alvo de investigação, Flávio Bolsonaro é a versão mais política da família

Deputado há quase 16 anos, senador eleito tem diálogo com opositores e tenta criar um grupo político próprio

Italo Nogueira
Rio de Janeiro

Após 45 dias de campanha do primeiro turno, o então candidato ao Senado Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), 37, já havia participado de agendas ao lado de quatro postulantes ao governo do Rio de Janeiro.

O nanico André Monteiro (PRTB), oficial do Bope, parecia ser o preferido. O ex-policial militar Marcelo Delaroli (PR), vice na chapa de Romário (Pode), ganhou elogios. O ex-prefeito Eduardo Paes (DEM) foi classificado como uma “pessoa do mais alto gabarito”. E o governador eleito, Wilson Witzel (PSC), acabou sendo a escolha final.

As andanças contrariavam o pedido de afastamento da disputa fluminense feito pelo pai, o presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL).

 

Depois da vitória do ex-juiz ao Palácio Guanabara, o grupo político de Flávio conseguiu emplacar o ex-árbitro Gutemberg de Paula Fonseca como secretário de Governo. Após a imprensa divulgar a influência dele na decisão, o vereador Carlos Bolsonaro (PSC), visto como o mais radical da família, demonstrou contrariedade.

“Informo que qualquer atitude tomada pela bancada de deputados estaduais eleita pelo PSL no RJ não possui influência minha, de Eduardo ou Jair Bolsonaro, assim como em todo processo eleitoral”, escreveu Carlos no Twitter.

A ausência do nome de Flávio foi notada pelo senador eleito, que publicou logo em seguida.

“No mundo real, política também se faz com quem não pensa 100% igual a você, desde que haja convergência nos valores fundamentais. Posso até errar tentando acertar, mas não vou me omitir!”, escreveu.

Deputado estadual há quase 16 anos, o senador eleito é visto como uma versão mais “polida” e “política” da família.

Flávio compartilha de todas as bandeiras conservadoras do pai e, assim como o presidente eleito, tem um rol de declarações sobre homossexuais —“o normal não é ser gay”— e ditadura militar —“naquele tempo havia segurança”— que foram alvos de críticas.

Tem autorização para porte de arma e já atirou contra assaltantes na avenida das Américas, principal via da Barra da Tijuca. No entanto, são raras as fotos em que o senador eleito aparece armado em redes sociais. Nelas, abundam imagens com a mulher e as duas filhas.

O deputado Marcelo Freixo (PSOL) afirma que manteve boa convivência com o senador eleito na Alerj.
“Ele comentou que seria pai e eu disse, brincando: ‘Vai ser menina. Deus não deixa nascer mais um como vocês’. Tinha margem para esse tipo de coisa. Lidávamos com a diferença”, disse o deputado federal eleito.

Advogado formado pela Universidade Cândido Mendes, Flávio costumava ter lugar garantido no time de futebol da faculdade. 

Duas cirurgias no joelho o afastaram dos campos. Um dos hobbies passou a ser o pôquer, embora sua presença na mesa dos amigos de toda terça-feira seja cada vez mais rara.

No início da faculdade, estagiou no Núcleo do Sistema Penitenciário da Defensoria Pública, onde tinha como uma das funções fazer cálculos para obter a progressão de pena de condenados. Ele e toda a família são críticos ferrenhos do relaxamento da prisão a criminosos.

“As bandeiras políticas dele não interferiam no trabalho. Às vezes fazia algum comentário: ‘Já está na hora desse aqui ir para a rua?’. Mas ele sempre separou bem a posição política do exercício da profissão”, disse o defensor público Eduardo Quintanilha, coordenador do núcleo à época.

Primogênito do presidente eleito, não foi o primeiro a se candidatar, em razão dos estudos. Ele estagiava na Defensoria em 2000 quando Carlos Bolsonaro, aos 17 anos, foi o primeiro filho de Jair a disputar uma eleição —tornou-se vereador. Flávio foi eleito deputado dois anos depois e se formou em 2006.

Ele combinou a carreira parlamentar com uma intensa atuação no mercado imobiliário. Como a Folha mostrou em janeiro, comprou e vendeu 19 imóveis nos últimos 13 anos, obtendo lucros num curto prazo com as negociações. 

Abriu em 2015 uma filial da doceira Kopenhagen num shopping da Barra da Tijuca, junto com um sócio.
Na política, enquanto Carlos se destacou na atuação das redes sociais e Eduardo, na ponte com aliados internacionais, Flávio intensificou sua articulação no mundo político.

Liderou, por exemplo, as negociações para a filiação não-concretizada do pai ao partido Patriota. Com a ida para o PSL, perdeu espaço para o futuro secretário-geral da Presidência, Gustavo Bebianno.

A contragosto, aceitou o empresário Paulo Marinho como seu primeiro suplente a pedido de Bebianno.

Absorveu as concessões que fez e atualmente mantém bom diálogo com os diferentes grupo que circundam Jair Bolsonaro —diferente de Carlos.

No Rio de Janeiro, Flávio vem tentando criar um grupo político próprio. O primeiro passo para isso foi sua candidatura à Prefeitura do Rio de Janeiro há dois anos, lançada contrariando o desejo do pai. Jair Bolsonaro temia que um desgaste do nome da família prejudicasse seus planos em 2018.

Flávio confundiu bairros com municípios num debate e desmaiou em outro. Foi socorrido pela comunista Jandira Feghali (PC do B), médica. Enquanto seu pai pediu, aos berros, para que ela se afastasse, ele agradeceu a ajuda em nota oficial.

Apesar das gafes, obteve 14% dos votos válidos —contrariando as pesquisas— e sinalizou a força política do sobrenome.

Ao longo da campanha deste ano, focou seus esforços na eleição ao Senado e na de seu grupo de candidatos a deputados. O PSL conseguiu 13 cadeiras e a maior bancada da Alerj.

Na primeira quarta-feira de dezembro (4), ele circulou pela primeira vez no Senado. Criticou a intenção de Renan Calheiros (MDB-AL) de voltar à presidência da Casa, mas sinalizou possibilidade de apoio a Tasso Jereissati (PSDB).

Recusou o papel de líder do governo, embora admitisse fazer a ponte entre o Legislativo e o Executivo em determinadas situações.

Dois dias depois foi divulgado o relatório do Coaf (Conselho de Controle das Atividades Financeiras) em que seu ex-assessor Fabrício Queiroz aparece com uma movimentação atípica de R$ 1,2 milhão. Flávio Bolsonaro se tornou alvo de investigações da Procuradoria-Geral de Justiça. 

Ao reaparecer na cerimônia de diplomação dos candidatos eleitos, foi questionado por um blogueiro se a imprensa estava “enchendo o saco” com questões sobre o caso do ex-assessor. O senador eleito foi sucinto. “Não, trabalho normal.”

 

CONHEÇA OS FILHOS DE BOLSONARO

Flávio Bolsonaro, 37
Advogado, se elegeu senador e é visto como o mais articulado politicamente e independente da família. Buscou formar um grupo político próprio no Rio, e embarcou na campanha do governador eleito Wilson Witzel (PSC) mesmo com a neutralidade do pai na disputa. Seu ex-assessor Fabrício Queiroz aparece com movimentação atípica de R$ 1,2 milhão em relatório do Coaf

Carlos Bolsonaro, 36
Vereador há 18 anos e menos articulado politicamente, foi o único dos filhos de Bolsonaro que não disputou a eleição este ano. Mesmo sem mandato em Brasília a partir de 2019, tem papel central no círculo político-familiar, já que é  o responsável pela administração das redes sociais de Jair Bolsonaro desde 2014, meio ao qual se atribui o sucesso do deputado 

Eduardo Bolsonaro, 34
Policial federal e eleito deputado por São Paulo com a maior votação da história, é visto como distante das decisões políticas de Bolsonaro. Chegou a articular uma candidatura à presidência da Câmara, o que foi vetado pelo pai. Na reta final da campanha, foi divulgado um polêmico vídeo em que Eduardo afirma que é possível fechar o STF “só com um cabo e um soldado”

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