Com braços no poder, movimento pró-renovação parte para política na prática

Agora!, que conta com Huck entre os participantes, terá dois membros em governos e três deputados

Joelmir Tavares
São Paulo

Quando a executiva Patricia Ellen, uma das fundadoras do movimento Agora!, posou ao lado de João Doria (PSDB) na semana passada fazendo com os dedos o "v" na horizontal que o tucano usa como mote, selou ali seu futuro —ela será secretária do governador eleito— e ajudou a simbolizar a nova fase do grupo.

Com membros no Executivo e no Legislativo pelo país, a organização que foi criada em 2016 e ganhou visibilidade desde então como catapulta de novos candidatos mudará o foco para acelerar a implementação de sua agenda de propostas.

João Doria e secretários anunciados nesta quinta-feira (6) de dezembro
A futura secretária Patricia Ellen entre Rodrigo Garcia, próximo vice-governador, e João Doria, governador eleito de São Paulo, no dia em que foi anunciada como integrante da gestão - Assessoria João Doria/Divulgação

Lançado em agosto, o documento elaborado pela entidade lista 130 iniciativas para áreas como economia, saúde, educação e segurança. Recomenda, por exemplo, discutir temas como a regulação da maconha para uso adulto e o imposto sobre grandes fortunas.

Além de Patricia no governo paulista, já foi anunciada a indicação do cofundador Rafael Parente para a Secretaria de Educação do Distrito Federal, no governo de Ibaneis Rocha (MDB). Doutor em educação, ele foi subsecretário da área na Prefeitura do Rio de Janeiro.

No Amazonas, o membro Humberto Laudares, que saiu derrotado da tentativa de se eleger deputado federal pelo PPS em São Paulo, é o coordenador da comissão de transição do governador eleito, Wilson Lima (PSC). Embora haja a possibilidade, não está oficializado se o economista assumirá algum cargo na gestão.

Os convites partiram dos governadores eleitos e levaram em conta as qualificações dos escolhidos. Patricia, por exemplo, tem experiência como consultora na administração pública, fez mestrado na área e atuou no setor privado.

Nos parlamentos, o Agora! será representado pelos deputados federais Marcelo Calero (PPS-RJ) e Joenia Wapichana (Rede-RR) e o distrital Leandro Grass (Rede-DF). Lançar novos nomes para disputar eleições não era o objetivo inicial do grupo, mas 18 integrantes resolveram se candidatar neste ano.

No total o movimento tem cerca de cem membros, entre empresários, acadêmicos e ativistas sociais, a maioria na faixa dos 40 anos. O apresentador Luciano Huck é um dos expoentes —ele próprio esteve perto de ser pré-candidato à Presidência da República pelo PPS.

"Desde o início, nosso objetivo era elaborar uma agenda de longo prazo para o Brasil. Mas não bastava isso ficar na sociedade. Tinha que chegar aos espaços de decisão", diz o cientista político Leandro Machado, um dos fundadores. O grupo defende que lideranças em suas áreas de atuação se disponham a servir ao país por pelo menos dois anos, em cargos eletivos ou de livre nomeação.

Daqui para a frente, afirma ele, a meta "é mostrar que não existe uma visão puramente eleitoral" e pôr em prática o que está no papel. "Era preciso ter candidatos interessados em levar nossa agenda adiante. Tanto que fizemos uma aliança com dois partidos", segue o porta-voz, referindo-se aos acordos assinados com PPS e Rede para abrigar os postulantes do movimento.

Os membros que tomarão posse no Executivo e no Legislativo já estão comprometidos com as pautas da organização. Calero, por exemplo, pretende liderar na Câmara dos Deputados uma frente para ampliar o uso de tecnologia pelo governo. A causa "GovTech" é cara ao grupo.

A partir de janeiro, outros governantes e parlamentares serão procurados para ouvir os temas defendidos pela entidade. Organizações da sociedade, empresas e instituições acadêmicas também serão contatadas.

As propostas têm como eixo central o combate à desigualdade no país. Combinam uma visão liberal de mercado com medidas na área social. Modernização do Estado e sustentabilidade são outros aspectos importantes na visão do grupo, que construiu o documento com contribuições externas e consultas à população.

As diretrizes da agenda servirão como guia para o comportamento da entidade diante do governo Bolsonaro, segundo Leandro Machado. "Teremos posicionamentos sobre vários temas que a gente acredita que são relevantes", diz. Eventuais contribuições e críticas serão feitas a partir de medidas concretas do futuro presidente.

Bolsonaro ficou fora da lista de presidenciáveis que durante a campanha receberam o caderno de propostas. O compilado chegou às mãos de Ciro Gomes (PDT), Geraldo Alckmin (PSDB), Marina Silva (Rede), Alvaro Dias (Podemos) e João Amoêdo (Novo).

Antes do segundo turno, uma ala no Agora! barrou a articulação de uma nota manifestando posição anti-Bolsonaro. A contragosto de uma parcela dos membros, o movimento acabou ficando neutro. Huck concordou com a posição e já sustentava na época discurso que vem repetindo: o de que é preciso fiscalizar o governo, mas também dar contribuições.

Em um evento na semana passada, em São Paulo, o apresentador afirmou que "não é hora de fazer oposição" e que é necessário "dar um crédito" ao eleito.

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